Morte de Shinzo Abe completa 4 anos em meio a feridas ainda abertas no Japão

2026/07/06 17:48
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Nara — O assassinato do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe completa quatro anos nesta quarta-feira (8), ainda deixando marcas profundas na política japonesa. Abe, o premiê que permaneceu por mais tempo no cargo na história do Japão, foi morto em 8 de julho de 2022, durante um discurso de campanha na província de Nara, em um crime que chocou um país onde ataques com armas de fogo são extremamente raros.

A motivação do crime

O ataque ocorreu perto da estação Yamato-Saidaiji, em Nara, quando Abe discursava em apoio a um candidato do Partido Liberal Democrata (PLD) nas eleições para a Câmara Alta. Segundo relatos da época, Tetsuya Yamagami, então com 41 anos, aproximou-se por trás e disparou contra o ex-premiê usando uma arma caseira. Abe foi atingido e levado ao hospital, mas teve a morte confirmada no mesmo dia.

Yamagami foi contido no local por seguranças e preso imediatamente. Na casa dele, a polícia encontrou outras armas artesanais semelhantes à usada no atentado. Inicialmente, ele foi investigado por tentativa de homicídio, mas a acusação passou a ser de homicídio após a confirmação da morte de Abe. Depois de uma avaliação psiquiátrica de quase seis meses, os promotores concluíram que ele tinha condições de responder judicialmente pelo crime.

A justificativa dada por Yamagami não estava ligada diretamente às políticas de Abe, mas ao ressentimento contra a Igreja da Unificação, oficialmente chamada de Federação das Famílias para a Paz Mundial e Unificação. Ele afirmou que sua mãe havia feito grandes doações à entidade religiosa, levando a família à ruína financeira. Yamagami passou a ver Abe como alguém ligado simbolicamente ao grupo, especialmente por causa de mensagens e contatos públicos associados à igreja.

O caso abriu uma crise política no Japão. Após o assassinato, vieram à tona relações entre políticos do PLD e a Igreja da Unificação. Uma investigação interna do partido apontou que quase metade dos parlamentares nacionais da legenda tinha algum tipo de vínculo com a entidade, variando de participação em eventos a apoio eleitoral. A revelação desgastou o governo do então primeiro-ministro Fumio Kishida e forçou o PLD a prometer o rompimento de laços com o grupo.

A repercussão também atingiu a própria Igreja da Unificação. Em março de 2025, a Justiça japonesa ordenou a dissolução da entidade como corporação religiosa, retirando seu status legal e benefícios fiscais, após acusações de práticas abusivas de arrecadação e danos a fiéis. A organização recorreu, alegando violação da liberdade religiosa.

Julgamento

O julgamento de Yamagami começou em outubro de 2025 no Tribunal Distrital de Nara. Ele admitiu ter matado Abe. Em 21 de janeiro de 2026, foi condenado à prisão perpétua por homicídio e violações das leis de controle de armas, fabricação de armas e explosivos, além de danos à propriedade. A defesa recorreu da decisão em fevereiro de 2026, portanto, o caso ainda segue em instância superior.

Mesmo com a condenação pelo crime, Yamagami passou a receber apoio de parte da população, um fenômeno que causou desconforto no Japão. Houve petições pedindo leniência e manifestações de simpatia por sua história familiar, embora o assassinato tenha sido amplamente condenado. Durante a detenção, chegaram cartas, livros, alimentos e dinheiro enviados por apoiadores. Em depoimento, Yamagami reconheceu ter recebido contribuições financeiras, sem informar o valor exato, dizendo apenas que se tratava de vários milhões de ienes.

Vazio na política

A morte de Abe também deixou um vazio no campo conservador japonês. Mesmo após renunciar ao cargo de primeiro-ministro em 2020 por problemas de saúde, ele continuava sendo uma das figuras mais influentes do PLD, com forte peso sobre debates de segurança, política externa, revisão constitucional e estratégia eleitoral. Sem Abe, o partido perdeu um articulador capaz de unir alas conservadoras e orientar disputas internas.

O impacto político se prolongou para além do luto. O funeral de Estado, realizado em 27 de setembro de 2022 no Nippon Budokan, em Tóquio, reuniu autoridades japonesas e estrangeiras, mas também dividiu a opinião pública. Para apoiadores, foi uma homenagem justa ao líder mais longevo do pós-guerra. Para críticos, a cerimônia expôs novamente as controvérsias de seu legado e a falta de consenso nacional sobre sua figura.

Quatro anos depois, o assassinato de Shinzo Abe permanece como um dos episódios mais traumáticos da política japonesa contemporânea. O crime revelou falhas de segurança, reacendeu o debate sobre a influência de grupos religiosos na política e expôs uma fissura social rara: de um lado, a condenação quase unânime da violência política; de outro, a simpatia por um assassino cuja história pessoal acabou trazendo à tona vítimas de práticas religiosas abusivas. Para o Japão, o caso deixou não apenas a perda de um ex-primeiro-ministro, mas também uma pergunta ainda sem resposta simples: como proteger a democracia sem ignorar os problemas que o próprio crime revelou?

Foto: Reprodução/NHK

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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