Lisley Nagakura usa sua experiência no Japão para inspirar estudantes estrangeiros

2025/11/21 08:16
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Tóquio - Quando a família de Lisley Nagakura decidiu vir para o Japão para trabalhar em fábricas, ela tinha apenas oito anos de idade. Sem saber nada de japonês, foi matriculada em uma escola e, em meio a tantas dificuldades e naturalmente assustada, queria ir embora para o Brasil. Mas, com o apoio de seus pais, ela não desistiu. Hoje utiliza toda a experiência vivida no sistema educacional japonês para dar aulas de apoio, amenizando a vida de cerca de 200 estudantes brasileiros e de outros estrangeiros em escolas japonesas.

Lisley, hoje com 37 anos de idade, vivia em Curitiba, no Paraná, onde ela nasceu. O pai nissei veio primeiro. Depois vieram Lisley, sua mãe, que tem ascendência espanhola, e a irmã mais velha, que na época tinha 17 anos. Ela relembra: “Nas primeiras semanas tudo parecia um sonho. Mas depois que meus familiares começaram a trabalhar e eu precisei ir para a escola japonesa, ficou difícil. No Brasil, meus pais me levavam até a escola. Em Nagano, eu tinha que ir sozinha. Mas mesmo meus pais não podendo estar presentes o tempo todo, eu me sentia acolhida por eles”.

Apoio de colegas japoneses

Outro ponto de apoio para sua adaptação veio de colegas japoneses, até porque ela era a primeira brasileira naquela escola. “Pela minha idade, era para eu ter entrado no segundo ano do shougakko, mas como eu não sabia nada de japonês, comecei pelo primeiro ano. O que me ajudou muito foi que minhas colegas na escola também me acolheram e começaram a me ajudar a entender o idioma”, conta Lisley, que começou a se sentir mais firme no uso do idioma entre o terceiro e o quarto ano, chegando até a ser intérprete de outros alunos brasileiros que chegaram à escola depois.

Lisley explica que não sofreu maus-tratos (ijime) por parte de colegas, mas em alguns momentos se sentia inferior em relação a eles. “Eu me sentia assim porque tinha que me esforçar sempre a mais para entender as lições, o que era pedido. Eu tinha limitações de vocabulário. E eu precisava sempre estudar vocabulário para entender o que o professor falava”, lembra.

O tempo passou e Lisley ingressou no chuugakko. “Lá eu já me sentia como uma japonesa. Eu tinha conflito de identidade, porque em casa meus pais queriam que eu falasse apenas em português. Mas fora de casa, a minha rotina era como a dos amigos japoneses, já que não tinha amigos brasileiros. Apesar disso, os meus pais falavam que eu era brasileira e não japonesa. Mas na época eu não entendia”.

Turma da Mentoria na Melis Education

Na época da universidade

Lisley completou o colégio japonês e ingressou na Universidade Takushoku, em Tóquio, onde se formou em Administração Internacional. “Eu sonhava em ser aeromoça, mas um professor do colegial sugeriu que eu buscasse alguma profissão na qual pudesse ser uma ponte entre o Brasil e o Japão. O que me influenciou a escolher o curso que fiz foi um DVD que tinha aquele programa ‘Aprendiz’, com Roberto Justus. Achei fantástico aquele mundo dos negócios e passei a querer ser uma executiva, trabalhar em uma grande empresa”.

Durante a vida universitária, Lisley engravidou e teve uma filha. Ela decidiu continuar estudando. “Naquela época eu tive que tomar uma decisão. O pai de minha filha não morava em Tóquio, mas em Nagano, e não tive apoio dele. Acabamos nos separando e criei minha filha com a ajuda dos meus pais. Eu lembro que antes dela nascer, eu ía para as aulas na universidade com aquele barrigão, mesmo indisposta, cansada. Minha filha nasceu no período de provas da escola. Eu não podia perder e precisava passar para seguir para o terceiro ano”.

Para cursar a universidade, Lisley deixou Nagano e foi morar em Tóquio com os pais. Após se formar, trabalhou na área de vendas e marketing de uma empresa japonesa com ligação com o Brasil. Ela comemorou quando aprovaram um projeto de sua autoria voltado à negociação com fornecedores, o que gerou lucro e permitiu que aprendesse na prática as teorias estudadas. Depois disso, trabalhou por três anos na Bridgestone Software, cuidando da área tecnológica. Outro emprego de destaque foi na marca da moda Osklen, novamente fazendo uma ponte entre a empresa japonesa e o Brasil.

Depois de deixar a Osklen e o universo da moda, Lisley começou a alimentar o desejo de ter seu próprio negócio, enquanto ajudava na empresa de um amigo. “Na época comecei a fazer transmissões ao vivo no Facebook sobre educação, dando orientação aos pais em 2018. Eu também fiz palestras sobre o tema”. Um marco especial em sua história foi o convite para atuar como tradutora de idiomas para atores japoneses na novela Doctor-X, da TV Asahi, ensinando português a um ator que interpretava um nissei brasileiro. “Aquilo foi motivo de muito orgulho para mim e para minha família”, diz.

Academia de estudos online

Alunos aprovados no vestibular do Koukou e se formaram no reforço escolar da Melis

Em 2019, Lisley fundou a Melis Education. O nome Melis vem da junção de Melissa, sua irmã mais velha, e Lis, de Lisley. “Passei a oferecer aulas de reforço a alunos brasileiros que estavam em escolas japonesas. Notei essa necessidade quando minha irmã, que tem quatro filhos, pedia ajuda sobre a escola. Foi aí que percebi que meus sobrinhos estavam passando as mesmas dificuldades que eu passei. Eram as mesmas dores que eu tive. Então decidi criar a Melis Education”, explica.

A Melis Education conta com 11 professores que atendem mais de 200 estudantes de 22 províncias, sendo mais de 90% são brasileiros e os demais peruanos e bolivianos. As aulas são totalmente online e voltadas a alunos do segundo ano do shougakko ao terceiro ano do chuugakko. As disciplinas incluem matemática, língua nacional (kokugo), estudos sociais, inglês e japonês. “Trabalhamos para preparar os alunos que irão prestar exame para o koukou, já que durante os estudos eles precisarão de boas notas. Ao mesmo tempo, incentivamos nossos alunos a obterem certificados, como o do Teste de Proficiência em Língua Japonesa, de kanjis e o teste de proficiência em inglês”.

Na Melis Education, Lisley também oferece uma mentoria focada em métodos de estudo e mentalidade para adolescentes, com o objetivo de incentivá-los a não desistir dos estudos e prepará-los para o mundo real. Ela detalha: “Sem isso, a criança se tornará um adulto sem ter o que oferecer. Mesmo nas aulas em grupo, reforço a necessidade de os alunos falarem suas opiniões, e os que estão ouvindo precisam prestar atenção, para também manifestarem suas opiniões e questionamentos. Isso ajuda a socializar também”.

“Com isso, mostro que eles não estão sozinhos e que lá na frente vão colher os frutos de seus esforços. O que plantam agora, vão colher no futuro”, acrescenta Lisley.

Próximos passos

O plano de Lisley para a Melis Education é lançar novos cursos em 2026, focados em habilidades extracurriculares. Ela explica que estão desenvolvendo a plataforma tecnológica para integrá-la com outras escolas e colaborar com empresas. “Eu acredito que educação de qualidade se constrói em parceria com escolas, família, empresas, governo e país, juntos pelo futuro da nova geração”, afirma.

Lisley diz: “Quero apresentar mais o nosso projeto ao mercado japonês, inclusive lançando o site no idioma local, diante do fato de que a sociedade japonesa não entende plenamente o sentimento das crianças estrangeiras”.

Fotos: Cedidas/Melis Education
Lisley Nagakura

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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