Vídeo mostra Lula com 10 dedos e Justiça cobra explicações

Fortaleza - Um vídeo de apoio à reeleição do governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), colocou o uso de inteligência artificial em campanhas políticas no centro de uma disputa judicial. Na publicação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece ao lado do governador com as duas mãos completas, com dez dedos, e não nove, embora Lula alegue ter perdido o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho ocorrido em 1964.
O vídeo foi publicado no Instagram em 7 de julho de 2026 pelo ex-secretário da Casa Civil do Ceará, Chagas Vieira (PDT), em colaboração com o senador Camilo Santana (PT) e o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT). A peça reúne imagens de Elmano de Freitas, músicas, elementos gráficos e transições visuais. Em uma dessas passagens, a imagem do governador se transforma na de Lula, que aparece com cinco dedos na mão esquerda.
A imagem chamou atenção porque Lula tem apenas quatro dedos na mão esquerda. O presidente diz que perdeu o dedo mínimo aos 19 anos, quando trabalhava como metalúrgico em São Paulo. A presença do dedo na produção eleitoral levantou suspeitas de que a imagem teria sido criada ou modificada por inteligência artificial.
O diretório estadual do Partido Liberal apresentou uma representação ao Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). Além de acusar os responsáveis pela publicação de propaganda eleitoral antecipada, o partido sustentou que o conteúdo aparentava ter sido produzido ou manipulado por inteligência artificial sem a identificação exigida pelas regras eleitorais. O Partido Liberal pediu a retirada imediata do vídeo das redes sociais.
Em 10 de julho de 2026, o desembargador Francisco Luís Rios Alves negou o pedido de remoção em caráter liminar. Segundo o magistrado, o Partido Liberal não apresentou laudo técnico, metadados ou qualquer elemento pericial que demonstrasse, mesmo de forma inicial, o uso de conteúdo sintético.
A decisão afirmou que as transições, montagens e edições descritas pelo partido poderiam corresponder, em princípio, a técnicas convencionais de edição audiovisual. Por esse motivo, o desembargador considerou que não havia provas suficientes para determinar a retirada imediata do material ou inverter o ônus da prova.
A decisão, porém, não concluiu que a imagem de Lula com 10 dedos era verdadeira ou que não houve inteligência artificial. O magistrado apenas entendeu que, naquele estágio inicial do processo, a acusação não estava acompanhada de elementos técnicos suficientes. O próprio despacho permitiu uma nova análise caso surgissem fatos ou provas adicionais.
Após nova manifestação do Partido Liberal, que destacou a mão de Lula e outro trecho em que a imagem de Elmano aparece duplicada, o magistrado decidiu pedir esclarecimentos aos responsáveis pela publicação.
Camilo Santana, Evandro Leitão e Chagas Vieira deverão informar se utilizaram inteligência artificial na elaboração ou na edição do vídeo. Caso neguem o uso da tecnologia, terão de explicar qual procedimento foi adotado para produzir as imagens e as transições apresentadas na peça.
O caso, portanto, ainda não está encerrado. A negativa da liminar apenas manteve o vídeo disponível enquanto o processo continua. O mérito da representação ainda precisa ser analisado, e a Justiça Eleitoral não definiu se o dedo adicional surgiu por inteligência artificial, montagem convencional, falha de edição ou utilização de uma imagem previamente alterada.
Até o momento não há uma perícia pública que esclareça como a mão de Lula foi produzida. A etapa atual consiste justamente em obter informações dos responsáveis pelo conteúdo antes de uma nova decisão judicial.
As regras eleitorais determinam que conteúdos fabricados ou manipulados por inteligência artificial sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível. A regulamentação também prevê exceções para ajustes destinados a melhorar a qualidade da imagem e para recursos convencionais de montagem. A discussão no processo será determinar em qual dessas situações o vídeo se enquadra.
A aparição de Lula com 10 dedos levanta uma questão sobre transparência nas campanhas. A Justiça Eleitoral terá de decidir se houve uma alteração relevante da realidade visual e, em caso positivo, se os responsáveis deveriam ter informado ao público sobre o recurso utilizado.
Foto: Reprodução







































