‘Não é brincadeira’, diz CEO de empresa que quer produzir chips na Lua

Estados Unidos/Japão — Atsuyoshi Koike, presidente e CEO da Rapidus Corp., disse que está planejando seriamente construir uma fábrica de semicondutores na Lua, o satélite natural da Terra, por volta de 2040. Um dos fatores citados por Koike para a empreitada é a existência de recursos hídricos na Lua, já que a fabricação de chips exige grande quantidade de água ultrapura em diferentes etapas do processo.
Para quem possa estar pensando que Koike está delirando, ele assegurou durante um evento realizado no Hudson Institute, em Washington, nos Estados Unidos: “Isso não é brincadeira. Estou pensando em algo por volta de 2040”, noticiou a Kyodo.
Koike é chefe da fabricante japonesa de semicondutores Rapidus, criada em 2022 com o objetivo de recuperar parte da competitividade perdida pelo Japão no setor e produzir chips avançados no próprio país. A empresa construiu sua principal unidade de produção em Chitose, na província de Hokkaido, com forte apoio financeiro do governo japonês.
Para mostrar que fala sério sobre o projeto lunar, Koike exibiu no evento nos EUA um vídeo gerado por Inteligência Artificial (IA), simulando uma fábrica de semicondutores instalada na superfície da Lua.
Ao explicar seu projeto, Koike mencionou o empresário Elon Musk, cuja empresa, a SpaceX, desenvolve sistemas espaciais destinados, entre outras missões, ao transporte de pessoas e cargas para a Lua. Para descontrair a plateia, o chefe da Rapidus disse acreditar que Musk gostaria muito do vídeo exibido.
A apresentação do projeto lunar também foi interpretada pela Kyodo como uma forma de estimular os jovens pesquisadores da Rapidus a perseguirem objetivos tecnológicos ambiciosos.
Arvind Krishna, CEO da gigante americana de tecnologia IBM Corp., participou do mesmo evento. A IBM fornece suporte tecnológico à Rapidus no desenvolvimento de semicondutores de 2 nanômetros, cuja produção em massa pela companhia japonesa está prevista para começar no ano fiscal de 2027.
Os semicondutores de 2 nanômetros estão entre as tecnologias mais avançadas atualmente disponíveis na indústria e são destinados a aplicações que exigem grande capacidade de processamento e eficiência energética, como centros de dados de Inteligência Artificial, smartphones e sistemas automotivos avançados.
Durante o evento, Krishna acrescentou que IBM e Rapidus também estão trabalhando em conjunto na pesquisa e no desenvolvimento de semicondutores ainda mais avançados, na faixa de 1 nanômetro.
Competição com gigante taiwanesa
Enquanto os foguetes ainda não têm data para partir rumo à Lua para colocar o plano de Koike em prática, a Rapidus trabalha para conseguir competir também em preço com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC), maior fabricante mundial de chips por contrato.
Em julho, Koike afirmou que a Rapidus pretende oferecer seus semicondutores de 2 nanômetros por preço semelhante ou ligeiramente inferior ao praticado pela TSMC. A referência mencionada foi de cerca de 3 milhões a 3,5 milhões de ienes por wafer de silício.
A TSMC também mantém presença no Japão por meio de sua unidade em Kumamoto, na região de Kyushu.
O Japão chegou a dominar o mercado mundial de semicondutores durante a década de 1980. Em 1986, fabricantes japoneses ultrapassaram os Estados Unidos em participação no mercado global, e o país chegou a responder por cerca de metade das vendas mundiais no final daquela década.
A posição japonesa, no entanto, começou a enfraquecer nas décadas seguintes. Entre os fatores apontados estão a mudança estrutural da indústria, a ascensão do modelo de empresas sem fábricas próprias aliado às grandes foundries, o fortalecimento do iene após o Acordo de Plaza e o avanço de fabricantes de Taiwan e da Coreia do Sul.
Agora, o governo japonês tenta recuperar parte dessa competitividade por meio de investimentos pesados em tecnologias de ponta.
Em abril deste ano, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria aprovou mais 631,5 bilhões de ienes em apoio à Rapidus. Com isso, o total de assistência governamental destinada às atividades de pesquisa e desenvolvimento da empresa chegou a 2,354 trilhões de ienes.
A aposta é que a Rapidus consiga estabelecer no Japão uma produção doméstica de semicondutores de última geração e, se depender dos planos de Koike, no futuro essa produção poderá ir muito além das fronteiras terrestres.
Foto: Canva








































