Você conhece o segredo das obras de arte que ninguém vê?

2026/01/30 10:04
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Tóquio – Quando um museu divulga uma exposição com obras de grandes pintores, essa é uma oportunidade rara de estar diante de quadros feitos por artistas que eternizaram seus nomes na história. Mas nem sempre essas obras estão acessíveis ao grande público. E existem vários motivos para isso.

É preciso considerar que o acesso a grandes obras é um privilégio condicionado por três barreiras principais. Uma delas é a fragilidade técnica, já que alguns quadros não podem suportar luz ou umidade constante. Em alguns museus é proibido fotografar os quadros expostos usando flash.

Para preservá-las, estas e outras obras são guardadas em um sistema de dormitório, isto é, ficam em depósitos climatizados e escuros, saindo de lá por apenas algumas semanas. Mesmo quem viaja ao Museu Nacional de Tóquio ou ao Museu Nezu (para ver as famosas “Irises” de Ogata Kōrin) pode encontrar apenas salas vazias ou réplicas se não alinhar sua visita a um calendário rigoroso de conservação. Por sua fragilidade, “Irises” é exposta só por algumas semanas por ano, geralmente na primavera, no Nezu Museum, na capital japonesa.

É compreensível que no caso de “A Grande Onda de Kanagawa”, já citada, mas também dos biombos “Pine Trees”, de Tohaku Hasegawa, precisem ser preservadas diante da fragilidade do material com que foram compostas. Por serem muito sensíveis à luz, elas raramente entram em uma exposição. “A Grande Onda” é uma das xilogravuras mais famosas do Japão e integra parte da série “Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji”. Ela fica no Sumida Hokusai Museum, em Tóquio, dedicado às artes de Hokusai, onde pode ser vista em sistema de rodízio com outras imagens.

Para se ter uma base, “Pine Trees” (Shorin-zu byobu), é um par de biombos gigantes com tinta preta sobre papel, com pinheiros emergindo da névoa e é considerada a grande obra-prima da pintura à tinta japonesa. A obra entra em exposição periodicamente na sala de “Tesouros Nacionais” do Museu Nacional de Tóquio.

Outra barreira é a burocracia institucional, que atinge as exposições rotativas e calendários restritos. E a terceira é talvez a mais difícil de contornar, a privatização do patrimônio, isto é, obras mantidas em coleções corporativas, portos-livres ou em residências de bilionários.

O mito do acesso universal

"A Grande Onda de Kanagawa" (Foto: Reprodução)

A ideia de que as maiores obras-primas da humanidade estão ao alcance de um bilhete de museu é, em grande parte, uma ilusão contemporânea. O que se vê hoje é uma "democracia de rodízio" ou, em casos mais graves, o completo sequestro do patrimônio cultural pelo setor privado. O acesso à arte não é apenas uma questão de localização geográfica, mas de disponibilidade temporal e poder aquisitivo.

Nesse contexto, obras como o "Salvator Mundi", de Leonardo da Vinci, ilustram o sequestro da cultura pelo capital financeiro, onde a arte deixa de ser objeto de contemplação para se tornar um ativo de reserva de valor. O caso é dramático. Ele foi vendido por 450 milhões de dólares para a órbita do poder saudita, e depois disso essa obra, tida como uma das mais caras do mundo, desapareceu do circuito público. No caso de “Salvator Mundi”, obviamente que é um quadro de um artista genial e que tem o seu valor financeiro, mas a questão é que a obra só pode ser apreciada por uma pessoa ou seus entes queridos e amigos. E sempre dependerá da boa vontade de seu proprietário para as demais pessoas poderem apreciá-la.

Até onde se sabe, ela não está em um museu, mas muito bem guardada em uma propriedade privada, talvez em um iate ou depósito que só poderia ser acessado por espiões dos filmes de cinema. Nesse caso, o leitor acha que a arte cumpre a sua função social? Afinal, ela se tornou um troféu, um ativo financeiro.

O problema existe também nas coleções corporativas, como as dos bancos UBS e JPMorgan Chase. Embora estas instituições possuam dezenas de milhares de obras de artistas como Lichtenstein e Calder, o público geral raramente as vê na íntegra. Elas estão em salas de altos executivos, para decorar o ambiente, mas inacessíveis aos olhares públicos. Outro exemplo é o do colecionador Yusaku Maezawa cujos quadros de Basquiat, dependem de ser emprestados para exibições. Obviamente que cada um faz o que bem entender com seu dinheiro, comprando o que desejar. Mas a questão é que se tratam de obras de interesse público, feitas por grandes gênios da humanidade. Uma pessoa ganha, as demais perdem.

O fim da linha nos portos-livres

São zonas de alta segurança criadas para armazenar mercadorias em trânsito, que se transformaram em cofres de luxo para bilionários. Estima-se que milhões de obras de arte estejam guardadas nestes locais (como em Genebra, Luxemburgo e Singapura) para evitar o pagamento de impostos de importação e vendas.

As obras tornam-se ativos financeiros puros, permanecendo embaladas em caixotes por décadas, o que impede qualquer estudo acadêmico ou apreciação pública.

Se um museu é um espaço de visibilidade, o Porto-Livre é o seu oposto absoluto: um monumento à invisibilidade. O Porto-Livre é o estágio final da privatização da arte.

Como apreciar uma boa exposição

Com base nisso, antes de pegar o metrô ou entrar no carro para ir para uma exposição em museus no Japão, sempre que possível consulte a seção “Exhibition Schedule” (Calendário de exposição) em seus sites oficiais.

Como muitas obras estão sendo digitalizadas em altíssima resolução por iniciativas como o Google Arts & Culture, vale a pena conferir o que se tem ao alcance dos cliques.

Outra dica é acompanhar os relatórios da Art Basel & UBS para ver quais grandes obras estão indo parar em mansões de bilionários.

Veja outros exemplos de obras históricas e suas condições:

“Colorful Realm of Living Beings” – Itō Jakuchū (séc. XVIII): conjunto de 30 rolos de pássaros e flores, hiper detalhados, hoje reconhecido como uma das cúpulas da pintura japonesa; o conjunto é um Tesouro Nacional. Pertence ao Museum of the Imperial Collections (Sannomaru Shozokan), dentro do complexo do Palácio Imperial, em Tóquio, e os rolos só aparecem em exposições especiais e não ficam sempre acessíveis.

Grande Buda (Daibutsu) – Tōdai-ji (Nara): a enorme estátua de Buda Vairocana em bronze (15 m de altura, mais de 500 toneladas), é um dos símbolos máximos do budismo japonês. Basta ir até o Templo Tōdai-ji, em Nara, e o verá no salão Daibutsuden, sendo uma experiência física, não só “ver uma obra”.

Amida Nyorai do Salão Fênix – Byōdō-in (Uji, Kyoto): escultura de Amida Buda esculpida por Jōchō (o grande mestre da escultura Heian) dentro do famoso Phoenix Hall, ambos designados como Tesouros Nacionais. Fica no Templo Byōdō-in, em Uji (perto de Kyoto), mas a visita ao Phoenix Hall é com tour rápido, e é aí que você vê a estátua original; o museu Hōshōkan ao lado guarda outros tesouros do templo.

Estátua de Ashura – Kōfuku-ji (Nara): escultura de 734 d.C., figura de Ashura com três rostos e seis braços, vista como uma das maiores obras da escultura budista japonesa. Fica no Kōfuku-ji National Treasure Hall, em Nara, que concentra vários Budas e guardiões de altíssimo nível artístico.

Yayoi Kusama – “Infinity Mirror Rooms” e abóboras: instalações imersivas de espelhos e luzes, e esculturas de abóboras com bolinhas; são, hoje, talvez as obras japonesas contemporâneas mais reconheceíveis do mundo. Ficam no Yayoi Kusama Museum (Tóquio) – em Shinjuku, com exposições rotativas que quase sempre incluem pelo menos uma Infinity Mirror Room. Outras Infinity Rooms estão em museus como o Hirshhorn (Washington), NGV (Melbourne) e Museum MACAN (Jacarta), em exposições de longa duração.

Foto: Reprodução/Rogan Productions
“Salvator Mundi”, de Leonardo da Vinci

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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