Japão utilizará hackers éticos e inteligência artificial contra invasões

Tóquio - O governo japonês anunciou a criação de uma equipe de especialistas em segurança cibernética que utilizará técnicas de invasão controlada e inteligência artificial (IA) para identificar vulnerabilidades em sistemas digitais antes que sejam exploradas por criminosos. O grupo deverá começar suas atividades em novembro, como parte de uma estratégia para enfrentar a crescente quantidade de ataques contra empresas e instituições públicas.
O ministro da Economia, Comércio e Indústria, Ryosei Akazawa, apresentou a iniciativa durante uma entrevista coletiva realizada após a reunião do Conselho de Ministros. Os profissionais são conhecidos como white hat hackers, expressão inglesa utilizada para identificar hackers éticos, especialistas que procuram falhas de segurança mediante autorização dos responsáveis pelos sistemas.
A equipe será estabelecida na Agência de Promoção da Tecnologia da Informação (IPA), organização vinculada ao governo japonês. Segundo Akazawa, os ataques cibernéticos estão se tornando mais sofisticados, principalmente com a utilização de inteligência artificial por grupos criminosos.
Governo quer encontrar vulnerabilidades antes dos ataques
Uma das principais tarefas da equipe será realizar testes de penetração, conhecidos como penetration testing. Nesse procedimento, profissionais autorizados simulam técnicas utilizadas por invasores para identificar pontos vulneráveis em sistemas de informática.
Os testes podem envolver servidores, aplicativos, redes, mecanismos de autenticação e outras estruturas tecnológicas. O objetivo é descobrir falhas que poderiam permitir acesso não autorizado, interrupção de serviços ou comprometimento de informações. Depois de identificar os problemas, os especialistas poderão contribuir para a adoção de medidas de proteção.
A diferença fundamental entre um hacker ético e um criminoso está na autorização e na finalidade do trabalho. Enquanto o invasor procura explorar uma vulnerabilidade para obter vantagens indevidas ou causar prejuízos, o profissional de segurança realiza testes dentro de condições autorizadas para ajudar a corrigir as falhas.
Inteligência artificial também será utilizada na defesa
Akazawa afirmou que criminosos podem estar utilizando inteligência artificial para procurar vulnerabilidades em grande quantidade de sistemas. Essas ferramentas permitem automatizar parte da análise de programas, servidores e configurações de segurança.
Diante dessa possibilidade, o ministro considera necessário que os profissionais responsáveis pela defesa também utilizem tecnologias avançadas.
A proposta é empregar inteligência artificial em testes simulados para identificar fragilidades antes que sejam descobertas ou exploradas por criminosos.
O governo pretende formar uma equipe com profissionais capazes de analisar sistemas sob a perspectiva de possíveis invasores. Mas a utilização de inteligência artificial não significa que todos os testes serão realizados automaticamente.
A participação de especialistas continuará sendo necessária para avaliar as vulnerabilidades identificadas, determinar os riscos e recomendar medidas adequadas.
Falhas no PHP aumentaram a preocupação
O anúncio ocorreu poucos dias depois que foram identificadas vulnerabilidades críticas no PHP, linguagem de programação utilizada no funcionamento de grande quantidade de sites e serviços digitais.
Na quarta-feira (21), a Agência de Promoção da Tecnologia da Informação divulgou um alerta sobre os problemas e recomendou a instalação das correções disponibilizadas pelos desenvolvedores.
A situação levou empresas japonesas a suspender temporariamente determinados serviços, como medida preventiva. Entre os setores que anunciaram manutenção de sistemas estavam transportes, instituições financeiras e empresas de tecnologia.
Segundo Akazawa, o Ministério da Economia utilizou aproximadamente mil organizações e associações empresariais para divulgar informações sobre as vulnerabilidades e as medidas recomendadas.
A ampla utilização do PHP demonstra como uma falha em determinada tecnologia pode atingir organizações de diferentes setores econômicos.
Entretanto, a suspensão preventiva de um serviço não significa necessariamente que seus sistemas tenham sido invadidos.
Empresas terceirizadas também representam um risco
Nos últimos meses, diferentes incidentes de segurança digital atingiram empresas prestadoras de serviços que armazenavam ou processavam informações de clientes e instituições públicas.
Um exemplo é o caso da empresa Arcadia, que fornece serviços de informações sobre desastres e segurança. Um incidente envolvendo seus sistemas levantou a possibilidade de exposição de dados relacionados a funcionários de 22 forças policiais provinciais.
O caso demonstrou que um problema em uma empresa contratada pode comprometer informações de várias organizações.
Essa situação é especialmente preocupante porque empresas de diferentes portes compartilham sistemas, serviços de nuvem e fornecedores de tecnologia.
Mesmo uma organização que possui mecanismos próprios de segurança pode sofrer consequências de uma invasão contra um prestador de serviços.
Pequenas empresas também precisam se proteger
Pequenas lojas virtuais, empresas de transporte, escritórios e estabelecimentos comerciais também podem armazenar informações pessoais de clientes. Entre esses dados estão nomes, endereços, números de telefone, e-mails e registros de compras.
Uma invasão pode comprometer a confidencialidade dessas informações e interromper as atividades da empresa. Além disso, criminosos podem utilizar dados obtidos indevidamente para realizar tentativas de fraude.
Por isso, especialistas recomendam medidas básicas, como atualização regular dos sistemas, autenticação em duas etapas, controle de acesso e manutenção de cópias de segurança.
Também é importante que as empresas conheçam os procedimentos necessários para continuar funcionando quando determinado serviço digital fica indisponível.
Equipe deverá começar em novembro
O ministro determinou que a IPA prepare a estrutura necessária para iniciar as atividades durante novembro de 2026.
O governo pretende utilizar os testes como parte de uma estratégia preventiva, em vez de depender exclusivamente de medidas adotadas depois da ocorrência de ataques.
Akazawa também ressaltou a importância de fortalecer a segurança de toda a indústria japonesa, considerando a interdependência entre empresas e fornecedores de serviços digitais.
A eficácia da iniciativa dependerá da capacidade de identificar vulnerabilidades, comunicar os riscos e garantir que as correções sejam implementadas pelos responsáveis pelos sistemas.
Fonte: Kyodo News, Jiji Press, Bloomberg
Foto: Canva







































