Pesquisa mostra que estudantes aceitam mais a ideia de guerra defensiva

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Kyoto – Uma pesquisa revelou que o número de estudantes do ensino fundamental que são contra o Japão iniciar uma guerra para se defender de uma invasão caiu quase 10% em relação ao mesmo levantamento feito em 1997. Outro dado mostrado na pesquisa é que caiu a proporção dos que acreditam que o país não deve entrar em nenhuma guerra e, mesmo somando os que concordam parcialmente, o índice ficou abaixo de 80% pela primeira vez em quatro edições do levantamento.

A pesquisa foi feita em 2025 pelo professor emérito Toshifumi Murakami, da Universidade de Educação de Kyoto com 1.000 alunos do ensino fundamental, publicou a Kyodo. Para Murakami, os resultados têm mostrado uma tendência de enfraquecimento da consciência pacifista e antiguerra que marcou o pós-guerra do Japão.

Há alguns anos alguns políticos têm pregado uma revisão da Constituição de caráter pacifista do país, como é um dos planos da primeira-ministra Sanae Takaichi. Recentemente, o governo aprovou a flexibilização das exportações de armas. E para o professor Murakami, a pesquisa evidencia que cresce entre os alunos a ideia de que uma guerra defensiva pode ser inevitável, influenciada pela invasão da Ucrânia pela Rússia.

Murakami acredita que com o passar do tempo, e a queda daqueles que viveram os tempos de guerra no Japão, surge o desafio de como manter a qualidade da educação para a paz. Seu levantamento mostrou que a proporção de estudantes que responderam que são contrários ou um pouco contrários à ideia de guerra justa, isto é, do Japão poder se defender de uma possível invasão, caiu de 57,3% em 1997 para 47,7% em 2025. Considerando apenas os que se declaram contrários, o índice recuou de 47% para 30,4%.

Origem da Constituição pacifista

A atual Constituição pacifista do Japão nasceu de um contexto histórico marcado por guerras, derrota e ocupação estrangeira. Antes da Segunda Guerra Mundial, o Japão era um império militarista. A Constituição Meiji, promulgada em 1889, concentrava grande poder no imperador e dava ampla autonomia às Forças Armadas. A expansão territorial tornou-se política de Estado.

O país participou de conflitos como a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–1895), a Guerra Russo-Japonesa (1904–1905) e, já no século 20, avançou sobre a Manchúria em 1931, criando o estado fantoche de Manchukuo. Em 1937, iniciou uma guerra em larga escala contra a China, marcada por episódios como o Massacre de Nanjing.

Na Segunda Guerra Mundial, o Japão alinhou-se ao Eixo, ao lado da Alemanha nazista e da Itália. O ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, levou à entrada dos Estados Unidos no conflito. Nos anos seguintes, o Japão expandiu sua presença pelo Sudeste Asiático e pelo Pacífico, mas sofreu derrotas progressivas. O conflito terminou em agosto de 1945, após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki e a rendição incondicional do país.

Derrotado, o Japão foi ocupado pelos Estados Unidos sob a liderança do general Douglas MacArthur, comandante das forças aliadas. Entre 1945 e 1952, o país passou por reformas profundas. Uma das mais importantes foi a elaboração de uma nova Constituição, promulgada em 1947.

O ponto central dessa Constituição é o Artigo 9, que estabelece a renúncia à guerra. O texto afirma que o povo japonês renuncia para sempre à guerra como direito soberano da nação e que não manterá forças terrestres, navais ou aéreas com potencial de guerra. Na prática, porém, o Japão criou posteriormente as Forças de Autodefesa (自衛隊, じえいたい, Jieitai), justificadas como um instrumento exclusivamente defensivo.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos passaram a ver o Japão como aliado estratégico na Ásia, o que levou a uma interpretação mais flexível do Artigo 9. Assim, o país manteve forças militares limitadas e firmou um tratado de segurança com os EUA, que garante proteção militar em troca da presença de bases americanas em território japonês.

Ao longo das décadas, o debate sobre a revisão da Constituição ganhou força, especialmente dentro do Partido Liberal Democrata (PLD), de Takaichi, que vem governando o país na maior parte do período pós-guerra. Um dos principais defensores da revisão foi o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe. Ele argumentava que a Constituição, por ter sido elaborada sob ocupação estrangeira, deveria ser reformada para refletir a soberania plena do Japão. Abe também defendia o reconhecimento explícito das Forças de Autodefesa como forças militares legítimas.

Em 2015, durante o governo Abe, o Japão aprovou uma reinterpretação do Artigo 9 que permite o chamado direito de autodefesa coletiva, ou seja, a possibilidade de atuar militarmente em defesa de aliados, mesmo que o Japão não seja diretamente atacado. Essa mudança gerou forte oposição interna e protestos, pois muitos consideram que ela contraria o espírito pacifista da Constituição.

Outros políticos conservadores também apoiaram revisões constitucionais, incluindo membros influentes do PLD. No entanto, a alteração formal da Constituição exige maioria qualificada no Parlamento e aprovação em referendo popular, o que tem dificultado mudanças diretas.

O aumento das tensões regionais, especialmente com a Coreia do Norte e a China, reacendeu discussões sobre o papel das Forças de Autodefesa e a necessidade de revisão constitucional. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa da população japonesa ainda valoriza o pacifismo como parte central da identidade nacional do pós-guerra. Esse equilíbrio entre tradição pacifista e pressões por maior capacidade de defesa segue como um dos temas mais sensíveis da política japonesa contemporânea.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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