BOJ encerra longa batalha contra deflação e passa a vigiar alta dos preços

Tóquio – O Banco do Japão (BOJ) considera que a inflação subjacente atingiu, de maneira geral, sua meta de 2%, quase 14 anos depois de o banco central estabelecer esse objetivo para tentar tirar o país de um prolongado período de deflação. Agora, o principal desafio passa a ser manter a estabilidade dos preços e evitar que a inflação permaneça acima do nível considerado adequado.
No final de outubro, o BOJ decidiu manter sua taxa básica de juros em 1,25%, conforme esperado pelo mercado. Após a reunião de política monetária, o presidente do banco central, Kazuo Ueda, indicou que a instituição entrou em uma nova fase e deixou aberta a possibilidade de novos aumentos dos juros, inclusive na próxima reunião, marcada para 17 e 18 de dezembro.
Todos os nove integrantes do Conselho de Política Monetária concordaram que a inflação subjacente, que procura excluir fatores temporários, está agora “de maneira geral consistente” com a meta de estabilidade de preços de 2%, estabelecida em 2013.
“Agora que a inflação subjacente atingiu 2%, não é desejável que ela se desvie claramente para cima desse nível, o que significa que devemos responder adequadamente aos riscos de alta”, afirmou Ueda em entrevista coletiva.
Apesar da avaliação, o BOJ decidiu manter os juros em 1,25%, nível mais elevado em 31 anos. O integrante do conselho Hajime Takata discordou da decisão e defendeu uma elevação da taxa para cerca de 1,5%.
Na reunião anterior, realizada em setembro, o BOJ havia elevado sua principal taxa de juros para aproximadamente 1,25%. Com a nova avaliação sobre a inflação, aumentaram no mercado as expectativas de que outro reajuste possa ocorrer na reunião de dezembro.
“Com a inflação subjacente geralmente alinhada à meta de estabilidade de preços de 2% e considerando que as condições financeiras continuam acomodatícias, esperamos continuar elevando a taxa básica de juros, dependendo da evolução da atividade econômica e dos preços”, disse Ueda.
A mudança representa um momento importante para a política monetária japonesa. Durante décadas, o principal problema do Japão foi justamente o contrário: preços estagnados ou em queda e dificuldades para criar uma dinâmica sustentável de inflação.
A estratégia de combater a deflação crônica e criar um ciclo virtuoso entre salários e preços ganhou força em abril de 2013, quando o BOJ iniciou uma política de flexibilização monetária em grande escala. A estratégia ficou conhecida como “bazuca de Kuroda”, em referência ao então presidente do banco central, Haruhiko Kuroda.
O BOJ havia estabelecido formalmente sua meta de inflação de 2% em janeiro daquele ano, em uma declaração conjunta com o governo do então primeiro-ministro Shinzo Abe. Inicialmente, a expectativa era alcançar o objetivo em aproximadamente dois anos.
O resultado, porém, demorou muito mais do que o previsto. Mesmo com juros extremamente baixos, compras de ativos e outras medidas de estímulo, a inflação permaneceu durante anos abaixo da meta, obrigando o banco central a adiar repetidamente suas previsões.
Agora, depois de deixar para trás a política de flexibilização extrema destinada a elevar os preços, o BOJ enfrenta uma situação diferente: avaliar se novos aumentos dos juros serão necessários para impedir que a inflação se acelere excessivamente.
Alguns analistas consideram que a avaliação atual representa uma mudança fundamental na dinâmica dos preços no Japão. No entanto, parte da inflação registrada nos últimos anos foi provocada por fatores externos, e não necessariamente pelo fortalecimento da demanda interna que o BOJ buscou durante tanto tempo.
Entre esses fatores estão os elevados preços da energia, agravados pelas tensões no Oriente Médio, e a fraqueza do iene, que encarece produtos, matérias-primas e combustíveis importados por uma economia altamente dependente do exterior.
Para o BOJ, aumentos salariais registrados nos últimos anos têm contribuído para sustentar o consumo privado e permitido que empresas repassem custos mais elevados aos preços. O objetivo é criar uma situação em que salários e preços aumentem de forma equilibrada e sustentável.
Ainda assim, permanecem dúvidas sobre a capacidade da demanda doméstica de sustentar esse processo.
O consumo pode perder força caso os preços de energia continuem elevados, especialmente diante da situação no Oriente Médio. A desvalorização do iene também permanece como um fator de pressão, porque aumenta os custos das importações japonesas.
Ueda ressaltou que o BOJ continuará avaliando diversos indicadores, entre eles as expectativas de inflação de longo prazo da população e das empresas.
“Estamos conscientes de que a política monetária entrou em uma nova fase e avaliaremos cuidadosamente a evolução econômica, dos preços e dos mercados financeiros em cada reunião”, afirmou.
Apesar de considerar a inflação subjacente próxima de 2%, o presidente do BOJ evitou afirmar que o objetivo foi definitivamente alcançado.
Segundo ele, a meta de estabilidade de preços ainda precisa ser consolidada de maneira sustentável. Ueda chegou a afirmar que não acredita que chegará um momento em que o banco central possa simplesmente “declarar vitória” sobre a inflação.
O governo japonês também mantém cautela. O secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, afirmou que o fim da deflação não deve significar apenas o encerramento de uma queda persistente dos preços, mas também a criação sustentável de condições econômicas que reduzam a possibilidade de retorno da deflação.
Por esse motivo, o governo ainda não declarou oficialmente que o Japão escapou definitivamente desse fenômeno.
Previsões econômicas
Em seu relatório mais recente de perspectivas econômicas, o BOJ manteve em 2,5% sua previsão para a inflação ao consumidor, excluindo alimentos frescos, no ano fiscal de 2026.
Para o ano fiscal de 2027, a projeção foi elevada de 2,4% para 2,6%.
O banco central também revisou suas estimativas para o crescimento da economia. A previsão para o ano fiscal de 2026 passou de 0,6% para 0,7%, enquanto a estimativa para 2027 foi reduzida de 0,8% para 0,7%.
Entre os principais riscos para a economia e para os preços, o BOJ destacou a evolução da situação no Oriente Médio, a demanda relacionada à inteligência artificial e as oscilações do mercado de câmbio.
Venda de ETFs será acelerada
Outra decisão anunciada pelo Banco do Japão foi acelerar a venda dos fundos negociados em bolsa, os chamados ETFs, acumulados durante os anos de política monetária extremamente expansionista.
O BOJ comprou grandes volumes desses ativos como parte das medidas adotadas para combater a deflação e estimular a economia.
A partir de janeiro de 2027, o ritmo anual de vendas aumentará de aproximadamente ¥330 bilhões para ¥860 bilhões, considerando o valor contábil dos ativos.
No ritmo anterior, seriam necessários cerca de 112 anos para que o banco central se desfizesse completamente dessas participações. Com a aceleração anunciada, esse período deverá cair para aproximadamente 43 anos.
Ueda afirmou que o aumento do ritmo das vendas deverá ter impacto “limitado” sobre o mercado financeiro.
Novo desafio para o Japão
Depois de quase 14 anos tentando elevar a inflação até 2%, o BOJ enfrenta agora praticamente o problema inverso: evitar que os preços se afastem excessivamente desse nível.
Ao mesmo tempo, economistas divergem sobre quanto da atual inflação pode realmente ser atribuída à política monetária do banco central. Alguns consideram que o longo período necessário para atingir a meta mostra que as medidas adotadas pelo BOJ tiveram influência limitada e que fatores externos acabaram sendo decisivos.
Também permanece a discussão sobre se uma meta de inflação de 2%, definida em um Japão marcado pela deflação há mais de uma década, continua adequada às atuais condições econômicas do país.
O desafio do banco central, portanto, não será apenas manter a inflação próxima desse percentual. Será necessário avaliar até que ponto os aumentos de preços estão sendo sustentados por salários, consumo e demanda doméstica, ou se continuam sendo impulsionados principalmente pela energia, pelo câmbio e pelos custos das importações.
Fonte: Kyodo
Foto: Canva








































