Suspensão do imposto sobre alimentos no Japão pode gerar crise fiscal

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Tóquio – A eleição no Parlamento japonês já passou, foi realizada no domingo (8), e agora resta saber se a promessa da primeira-ministra Sanae Takaichi de suspender o imposto sobre consumo para alimentos por dois anos será cumprida. E se for de fato, as autoridades no comando do país terão muitos outros problemas para resolver.

Esse imposto foi criado em 1989 inicialmente com uma taxa de 3%. Desde então, só aumentou, chegando aos atuais 10% para a maioria dos produtos e 8% para alimentos. E o fim desses 8% serviu de chamativo dos políticos japoneses para atrair os eleitores que não aguentam mais o peso do aumento do custo de vida.

Enquanto o professor Harada Yutaka, da Escola de Negócios NUCB, diz que o fim do imposto aumentará o consumo, outros especialistas como Chotaro Morita, estrategista-chefe da All Nippon Asset Management, duvidam que o corte do imposto seja suficiente para aliviar o peso da alta dos preços, publicou a NHK.

Morita resumiu o cenário, dizendo que o primeiro corte de imposto sobre consumo da história poderá melhorar a confiança do público, mas causará um aumento da inflação. "Um corte de impostos seria contrário aos esforços para conter a alta dos preços", disse.

A questão não é apenas suspender ou zerar o imposto sobre consumo, mas encontrar uma outra fonte de receita para cumprir seu objetivo, que é financiar programas de seguridade social.

Segundo o Ministério das Finanças, se o imposto de 8% sobre o consumo de bens de primeira necessidade, como alimentos, for reduzido a zero, a receita cairia em cerca de 5 trilhões de ienes, levantando preocupações sobre a saúde fiscal do país. É preciso lembrar que o Japão detém a maior dívida entre os países do G7, cuja relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB) gira em torno de 230%.

Mas Harada não vê problema em lidar com um déficit de 5 trilhões de ienes na arrecadação do imposto. Ele justifica:

"Almejar um crescimento de 3%, apoiado por políticas monetárias e fiscais, poderia gerar recursos fiscais adicionais de cerca de 10 trilhões de ienes, ou 65 bilhões de dólares, por ano."

Mas a questão que fica é quem assumirá a retomada da cobrança do imposto depois do período de dois anos?

Reforço da Keidanren

Após a eleição na Câmara dos Representantes, no Parlamento, Yoshinobu Tsutsui, presidente da Federação Empresarial do Japão, a poderosa Keidanren, disse que “é fundamental uma discussão profunda sob a perspectiva do setor privado" e solicitou que as opiniões das empresas também sejam levadas em conta, noticiou a TBS News.  

"Considerando plenamente que o imposto sobre o consumo tem sido posicionado por muito tempo como uma importante fonte de recursos estáveis para a seguridade social, é fundamental que as diversas vozes sob a perspectiva do setor privado também sejam devidamente coletadas e que se realize uma discussão profunda (sobre a redução do imposto)."

O presidente Tsutsui ressaltou que, entre as empresas do setor de alimentação fora do domicílio, ouvem-se vozes preocupadas com a sobrecarga, expressando sua expectativa de que o debate se aprofunde.

Preocupações do exterior

As críticas à medida de cortar o imposto sobre consumo vieram até de outros países, destacando que a perda de uma receita tributária gigantesca, como a que é gerada pelo shohizei, deterioraria as finanças públicas, publicou o Yomiuri.

Uma das críticas veio da agência de notícias americana Bloomberg à coalizão entre Partido Liberal Democrático (PLD) e Partido da Inovação do Japão, que prometeu isentar o imposto por dois anos. "Se o Japão possui uma reserva de 5 trilhões de ienes, poderia utilizá-la de forma muito mais eficaz do que para um ganho político temporário", publicou, citando investimentos em Inteligência Artificial (IA), semicondutores e gastos com defesa.

Para o jornal francês Les Échos, diante de sua dívida acumulada de 230% do PIB, o Japão precisa manter o imposto sobre o consumo como uma das fontes de receita estáveis. O temor é de que, após dois anos, será difícil convencer os eleitores a voltarem a pagar o percentual do imposto, e ninguém terá coragem de tomar esta decisão no governo.

Existe um precedente relacionado a isso. Em 2022, a primeira-ministra Liz Truss do Reino Unido anunciou um corte de impostos em larga escala, o que resultou na queda de títulos, ações e da moeda. O fato ficou conhecido como "Choque Truss". O jornal da Bélgica, De Standaard, resumiu o quadro: "A senhora Takaichi está enfrentando o seu 'momento Truss'".

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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