O que é Hikikomori: a epidemia silenciosa que atinge jovens no mundo

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Tóquio – Um fenômeno comportamental que se acreditava ser típico do Japão é o Hikikomori, pessoas que se isolam totalmente da sociedade. Mas agora estudos mostram que milhares de jovens estão trocando a convivência com outras pessoas pela solidão de seus quartos, seja nos Estados Unidos, Coreia do Sul, Espanha, Itália, França, Brasil e Austrália. Entenda o fenômeno, suas consequências e o que se pode fazer para evitá-lo.

Durante décadas, os Hikikomori foram tratados pelos países do Ocidente como um detalhe cultural exótico do Japão, devido à rigidez das regras sociais locais. Mas o fenômeno rompeu fronteiras, fazendo com que profissionais de saúde mental se deparem com um sinal de ruptura nas estruturas da sociedade moderna, e não apenas com crises individuais de ansiedade, publicou o Japan Inside.

Pesquisas realizadas no mundo apontam que em Singapura o índice de Hikikomori chega a 20,9% da população. Nos Estados Unidos é de 2,7% e em Hong Kong, 1,9%. No Japão, considerando a população geral, o índice é de 1,2%. Mas entre jovens estudantes, ela pode chegar a 26,6%.

Os estudos mostram que Hikikomori não é uma doença japonesa, mas uma estratégia assimilada por seus adeptos de enfrentar uma sociedade que se tornou acelerada, fluida e instável, baseada não na família, mas na extrema individualização.

Jens Peter Eckardt, do JMA Journal, escreveu: "O Hikikomori é uma epidemia silenciosa oculta como um transtorno da sociedade moderna em muitos países... é provavelmente o primeiro sinal de uma ruptura maior na sociedade moderna em geral."

As três fases

A Associação Hikikomori Italia analisou as fases desse distúrbio, que são três, indicando como a pessoa se altera conforme se aprofunda o seu isolamento.

Na fase 1, que antecede o problema, a pessoa recusa compromissos sociais. Gradualmente ela abandona atividades em grupo, muitas vezes motivada pela pressão social.

A fase 2 vem com uma ruptura total com a escola ou o trabalho. A pessoa tem contato apenas com seus familiares e através de interações virtuais, que é onde o Hikikomori passa a habitar.

No terceiro estágio há o isolamento total. A pessoa corta laços inclusive com seus pais e se afasta mesmo de comunidades virtuais. Essa fase é de maior vulnerabilidade, com alto risco de psicopatologias graves e pensamentos suicidas.

Na Itália, os casos registrados no Sul envolvem pessoas com explosões de raiva contra mães superprotetoras, enquanto no Norte o isolamento ocorre por condições econômicas e pressões de status social.

Marcas biológicas

Os estudos apontam que o Hikikomori não deve ser rotulado como preguiça, mas deixa marcas biológicas que a ciência pode mensurar.

Por exemplo: exames em homens com Hikikomori têm níveis mais baixos de ácido úrico, enquanto as mulheres apresentam níveis reduzidos de colesterol HDL-C.

O isolamento prolongado também é detectado nos níveis de acilcarnitina e arginina.

A internet, de alguma forma, atende as necessidades mínimas dos Hikikomori de interação, sem o risco de se exporem. Mas seu uso descontrolado também pode ter consequências, como ocorreu com um jovem italiano de 18 anos, que sofreu um ataque epilético pela privação de sono e inversão do ritmo circadiano. O mundo virtual para ele era a sua realidade.

Superar barreiras

Um estudo na Coreia do Sul mostrou que, apesar de a maioria dos jovens que vivem isolados saberem que precisam de ajuda profissional, ao mesmo tempo precisam enfrentar grandes obstáculos.

O transtorno os impede de ir até o consultório, funcionando como uma barreira física. E outro ponto é a dependência financeira, já que eles não trabalham e não têm como custear um tratamento autônomo.

Há especialistas que acreditam que o sistema de saúde não deve esperar pelos jovens saindo de seus quartos, mas levar o tratamento até eles por meio de atendimento online e também com visitas domiciliares.

Os estudos que basearam este texto foram realizados no Japão, Coreia do Sul, Itália, Dinamarca e no Brasil.

Foto: Esta é uma imagem gerada por IA criada exclusivamente para fins ilustrativos. Não representa um evento ou pessoa real

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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