Japão entra na estação das chuvas e acende alerta para calor extremo

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Tóquio – O Japão se prepara para enfrentar a estação chuvosa, conhecida como tsuyu (梅雨), que ocorre geralmente entre o início de junho e meados de julho na maior parte do arquipélago, com exceção de Hokkaido. O principal risco à saúde humana neste período não é apenas o aumento gradual da temperatura, mas sim a altíssima umidade do ar combinada à falta de aclimatação do corpo ao calor.

O calor natural nesta época do ano já não é tratado apenas como um fator climático, mas como algo com consequências socioeconômicas. O verão deste ano não será apenas a estação mais quente do ano, mas um desafio estrutural que exigirá preparação técnica e muita resistência doméstica.

O problema começa com o atropelo que o verão deu na primavera no mês de maio, fazendo com que os termômetros adiantassem o enredo do que virá, com temperaturas acima de 30°C, como ocorreu em cidades como Kyoto e Osaka. A sensação de calor prematuro foi o prenúncio de um sistema de alta pressão persistente, que criou uma barreira térmica sobre o Japão, causando vários problemas em toda parte.

A Associação de Meteorologia do Japão (JWA) indica que o período de chuvas teve um início precoce em Okinawa e Amami, em maio, com o restante do país enfrentando o início mais tardio do que o normal, influenciado pelo deslocamento do tufão nº 6, que atingiu o país no meio da semana passada e alterou a posição da frente estacionária no início deste mês. Veja:

Cronograma previsto para o início das chuvas:

• Kyushu Sul: Início de junho.
• Kansai, Tokai, Kanto-Koshin e Shikoku: Meados de junho.
• Hokuriku e Tohoku (Sul e Norte): Final de junho.

Os meteorologistas alertam que o risco deste ano não é o volume total de chuvas, mas a intensidade concentrada delas. Eles costumam usar a expressão chuvas de guerrilha (guerilla gouu), que são capazes de saturar sistemas de drenagem em minutos.

Calor extremo e Super El Niño

Além do sistema de alta pressão do Pacífico, entra em cena o que parece ser um Super El Niño, com este fenômeno meteorológico ganhando força no segundo semestre deste ano, mas com 70% de chances de se desenvolver plenamente neste verão.

O clima no Japão sofre a influência do Oceano Índico, com a intensificação dos ventos alísios na costa de Sumatra, que cria o chamado Dipolo do Oceano Índico. No Japão, isso gera o kokusho-bi, como a Agência Meteorológica do Japão anunciou recentemente, que é a denominação para dias de calor cruel, com máximas de 40°C.

Esse forno que se tornará o Japão deverá prevalecer até o outono, afetando colheitas de arroz e sobrecarregando a rede elétrica, com ventiladores e aparelhos de ar-condicionado funcionando a toda força.

Impacto na economia

O calor extremo do verão japonês não se resume apenas a cuidados com a saúde e a evitar ficar ao sol nos horários de pico. Ele pode afetar o bolso e até a segurança operacional do país.

Junho inicia com o aumento nos preços de mais de 1.000 produtos alimentícios, num cenário prejudicado pela instabilidade climática, que acaba afetando a produção agrícola.

Alguns setores sofrem mais com os problemas de saúde de seus trabalhadores. Dois deles são o de construção civil e o de logística. No ano passado, ambos registraram 1.803 casos de insolação, fazendo com que as empresas aplicassem pausas obrigatórias baseadas no índice Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), ou Índice de Bulbo Úmido.

Outro ponto preocupante é o consumo de energia elétrica. O uso ininterrupto de ar-condicionado para afastar os 40°C elevará os custos operacionais a patamares históricos, exigindo que as famílias revisem seu planejamento financeiro mensal.

Como sobreviver a isso tudo?

Com a umidade superando os 80%, o conforto doméstico exigirá o uso de tecnologias. A umidade é o combustível para o mofo (kabi) e doenças de pele.

Veja algumas dicas de sobrevivência:

Secagem interna (heyaboshi): a dica é usar detergentes específicos, projetados para neutralizar odores de secagem em ambientes fechados.

Controle de ar: é recomendado o uso de circuladores para mover o ar nos ambientes. Existem produtos para desodorizar tecidos que mantêm sofás e cortinas longe do cheiro de umidade.

Cuidado nos armários: a sugestão é usar absorvedores de umidade (joshitsuzai) de alta capacidade em sapateiras e armários de roupas.

Problemas do calor e umidade

As autoridades de saúde alertam que o suor não evapora eficientemente em ambientes muito úmidos, o que impede a regulação natural da temperatura corporal. Isso gera um pico de casos de intermação (熱中症, netchusho) antes mesmo do verão pleno começar. Por isso, os cuidados principais envolvem hidratação preventiva (água e sódio), controle rigoroso do ambiente interno e o uso de roupas tecnológicas respiráveis.

As recomendações dos órgãos oficiais sobre os cuidados com a saúde estão em três pilares:

Hidratação com reposição de sódio: Beber líquidos regularmente, mesmo sem sentir sede. Quando há muita transpiração, é essencial consumir bebidas que contenham sal ou sódio (como isotônicos) para evitar a hiponatremia.

Aclimatação gradual (jundan): O corpo precisa de tempo para se acostumar ao calor. Exercícios leves e banhos mornos no início da estação ajudam o organismo a se preparar para o suor eficiente.

Atenção ao sono: Noites abafadas prejudicam a recuperação do organismo, aumentando o risco de intermação no dia seguinte. O uso de ar-condicionado ou ventiladores à noite é explicitamente recomendado.

O Japão utiliza o índice Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), ou Índice de Bulbo Úmido, que calcula o estresse térmico considerando temperatura, umidade e radiação. O risco dispara quando a umidade está alta, mesmo em dias nublados de 25°C a 28°C.

É indicado o uso de ar-condicionado no modo desumidificador (除湿, joshitsu) para combater a umidade interna, reduzindo drasticamente a sensação térmica e impedindo a proliferação de mofo (kabi), comum na estação.

Produtos recomendados

O mercado japonês é altamente especializado em produtos para o tsuyu. Os principais itens são:

Roupas tecnológicas de secagem rápida: Linhas de roupas íntimas e camisetas feitas de materiais sintéticos que absorvem o suor e secam rapidamente (como a linha AIRism da Uniqlo ou marcas vendidas na rede Workman). Materiais naturais como algodão retêm a umidade e devem ser evitados na pele.

Produtos de resfriamento corporal imediato: Lenços umedecidos refrescantes corporais (com mentol), sprays de resfriamento para camisas (Shirt Cool) e lenços de pescoço com gel congelável que resfriam as artérias.

Desumidificadores e absorventes de umidade: Aparelhos desumidificadores elétricos para secar roupas dentro de casa e sachês absorventes de umidade baseados em carvão vegetal ou cloreto de cálcio para armários e frentes de porta.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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