Ter um cão pode reduzir em 48% o risco de demência em idosos

Tóquio – Viver com um cão pode estar associado a uma redução de quase metade do risco de desenvolvimento de demência incapacitante entre idosos. É o que indica um novo estudo realizado no Japão com 11.224 pessoas e acompanhamento de aproximadamente 7,5 anos.
Os resultados mostram que idosos que atualmente vivem com cães apresentaram risco 48% menor de desenvolver demência incapacitante em comparação com aqueles que nunca tiveram um cão. A pesquisa foi publicada em julho de 2026 na revista International Journal of Environmental Research and Public Health e teve seus resultados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos Ambientais do Japão em 18 de agosto.
Os pesquisadores analisaram dados de homens e mulheres idosos selecionados em 2016 por meio de amostragem estratificada e aleatória. Os participantes foram classificados em três grupos: pessoas que tinham cães no momento da pesquisa, antigos tutores e pessoas que nunca haviam tido um cão. Durante o período de acompanhamento, foram registrados os casos de demência incapacitante e as mortes.
Na análise inicial, os atuais tutores apresentaram uma razão de chances de 0,53 para o desenvolvimento de demência incapacitante em relação às pessoas que nunca tiveram cães. Isso corresponde a uma redução de aproximadamente 47% nas chances de ocorrência da doença. Entre os antigos tutores, a diferença foi pequena e não apresentou a mesma associação protetora.
Os cientistas também aplicaram uma análise por variáveis instrumentais, método estatístico utilizado para investigar com maior rigor uma possível relação causal e reduzir a influência de determinados fatores de confusão. Nessa análise, os atuais tutores apresentaram uma razão de chances de 0,52, equivalente a um risco aproximadamente 48% menor de demência incapacitante em comparação com quem nunca teve um cão.
O resultado reforça evidências anteriores obtidas no Japão. Estudos anteriores já haviam relacionado a convivência com cães a uma menor incidência de demência entre idosos, mas a nova pesquisa amplia o período de acompanhamento e utiliza métodos adicionais para avaliar se a associação pode representar um possível efeito protetor.
Apesar dos resultados, os pesquisadores são cautelosos. O estudo aponta uma possível relação protetora, mas não afirma de forma definitiva que adotar ou manter um cão impedirá o desenvolvimento de demência.
Um dos pontos investigados é que os benefícios podem estar relacionados não apenas à presença do animal, mas aos hábitos associados à convivência com ele. Cuidar de um cão pode estimular caminhadas, atividade física regular, saídas de casa e contato com outras pessoas, fatores que podem contribuir para a manutenção da saúde física, social e cognitiva durante o envelhecimento. O próprio Instituto Nacional de Estudos Ambientais destaca que pesquisas futuras deverão avaliar de forma mais específica comportamentos como passear com o cão e participar de interações na comunidade.
Uma revisão sistemática publicada em março de 2026 no American Journal of Medicine reforça a necessidade de cautela. Os pesquisadores analisaram seis estudos sobre a relação entre animais de estimação e saúde cognitiva. Dois encontraram uma associação protetora entre a convivência com animais, especialmente cães, e o desenvolvimento de demência, enquanto outro não identificou uma associação estatisticamente significativa.
A revisão também observou que ter cães ou gatos, especialmente quando a convivência com o cão incluía caminhadas, esteve associado em alguns estudos a um declínio cognitivo mais lento. Os autores concluíram que o tipo de animal e os comportamentos ligados à convivência podem ser mais relevantes para a saúde cognitiva do que simplesmente possuir um animal de estimação.
Menor risco de morte também foi observado
O novo estudo japonês encontrou ainda uma associação entre a convivência atual com cães e menor mortalidade. Os tutores atuais apresentaram razão de chances de 0,63 para morte durante o período analisado em comparação com pessoas que nunca haviam tido cães. Entre antigos tutores, o resultado foi de 0,88.
Na análise destinada a investigar uma possível relação causal, entretanto, a redução da mortalidade entre os atuais tutores não alcançou significância estatística. Por isso, os pesquisadores não consideram possível afirmar que viver com um cão seja responsável diretamente por uma redução do risco de morte.
Impacto pode chegar aos gastos públicos
Além dos efeitos relacionados à saúde, o trabalho avaliou pela primeira vez o possível impacto econômico de uma expansão da convivência entre idosos e cães.
Em um cenário no qual mais idosos passassem a viver com cães, os pesquisadores estimaram que as despesas públicas japonesas com assistência médica e cuidados de longa duração poderiam ser reduzidas em aproximadamente 592 bilhões de ienes ao longo de quatro anos.
A análise encontrou ainda pequenos ganhos nos anos de vida ajustados pela qualidade, conhecidos pela sigla QALY. Sob a perspectiva do sistema público, a convivência com cães foi considerada economicamente favorável porque combinou redução estimada das despesas médicas e de cuidados de longa duração com melhora nesse indicador de qualidade de vida.
A conclusão muda quando todas as despesas particulares necessárias para manter os animais são incluídas. Nesse cenário, os pesquisadores calcularam um custo incremental de 6.744.174 ienes por QALY em comparação com a situação em que não há um cão no domicílio. O estudo também estima que o aumento da convivência com cães poderia representar cerca de 4,63 trilhões de ienes em despesas adicionais para a sociedade ao longo de quatro anos quando os gastos particulares relacionados aos animais são considerados.
Os resultados acrescentam novas evidências a uma área que ganha importância diante do envelhecimento da população. Segundo os pesquisadores, compreender melhor como os hábitos criados pela convivência com cães influenciam atividade física, interação social e saúde poderá contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção da demência e promoção de um envelhecimento saudável.
Embora ainda sejam necessários novos estudos para estabelecer com maior precisão os mecanismos envolvidos, a pesquisa japonesa sugere que a relação entre idosos e cães pode ter consequências que vão além da companhia, alcançando a saúde cognitiva, a qualidade de vida e até os gastos dos sistemas públicos de saúde e cuidados de longa duração.
Foto: Canva







































