Tráfico no Japão: como brasileiros se tornam ‘mulas’ e arriscam tudo por dinheiro – Parte I

Tóquio – Você sabe como as mulas — pessoas que transportam drogas — são recrutadas no Brasil, quanto ganham para contrabandear cocaína para o Japão e o que acontece com elas se forem flagradas no aeroporto? Se não sabe, acompanhe esta matéria especial, em duas partes, com revelações exclusivas do intérprete judicial Luiz Sussumu Nakano, baseadas em informações obtidas pela polícia nos celulares dos presos.
O relatório da Alfândega de 2023 aponta que foram registrados 815 casos de contrabando, uma redução de 22% em relação ao ano anterior. No entanto, a quantidade de drogas ilícitas apreendidas aumentou 2,3 vezes, totalizando 2.406 quilos — ou 79% a mais que em 2022. Nos últimos oito anos, o Japão reteve mais de 1 tonelada de drogas contrabandeadas.
Em 2023, ainda segundo os dados da Alfândega, houve uma queda para 234 casos nas apreensões de narcóticos, mas a quantidade apreendida aumentou para 276 quilos em relação ao ano anterior. No caso específico da cocaína, foram relatados 67 casos de contrabando — um aumento de 2,4 vezes. E a quantidade de cocaína retida pelas autoridades japonesas cresceu 2,1 vezes, chegando a 103 quilos. As maiores apreensões dessa droga no país ocorreram em 2019 (639,9 kg) e 2020 (821,7 kg).
Já o relatório da Agência Nacional de Polícia de 2024 aponta que foram detidos 1.288 estrangeiros por ofensas relacionadas às drogas. Mas, entre estes, destacam-se brasileiros e vietnamitas como os grupos mais numerosos. Os vietnamitas lideraram este triste ranking no ano passado, com 245 presos, seguidos pelos brasileiros — repetindo o mesmo cenário registrado pelas autoridades em 2023.
Os brasileiros tiveram uma participação notável nos crimes relacionados às drogas, correspondendo a cerca de 9% a 10% dos casos anuais, segundo as estatísticas policiais.
Mesmo diante do forte combate ao contrabando de drogas de todos os tipos no Japão, mulas brasileiras se entregam a este universo marcado por ambição, manipulação, crueldade e aspectos repulsivos.
“Depois que o governo do Japão liberou o visto de turista para brasileiros, aumentaram os casos de mulas chegando com drogas nos aeroportos do país, especialmente a partir de abril de 2024. Claro, sempre existiram traficantes e mulas. O que mudou foi o modo de transportar a droga. Antes, escondiam-na em caixas de chocolate, depois em malas, outras vezes misturadas com roupas sujas. Em um caso, a droga era líquida. Uma brasileira do Tocantins trouxe cocaína pura dentro de um frasco de xampu”, relata Nakano.
Um exemplo notório do novo modo de transportar droga ocorreu em outubro de 2024, quando a Alfândega de Tóquio prendeu dois passageiros brasileiros que tentavam entrar no Japão com cocaína ocultada dentro do corpo — eram 696 gramas, engolidas em cápsulas, as quais foram apreendidas no Aeroporto de Narita.
Jovens, senhoras e até grávidas
Mas o início dessa travessia arriscada que as mulas fazem entre o Brasil e o Japão começa no interior de estados como Amazonas, Amapá, Tocantins, Acre, Rondônia e de estados do Nordeste. Segundo Nakano, nem sempre são os traficantes que recrutam as mulas nestes lugares; na maior parte das vezes são elas que se oferecem. Podem ser jovens, senhoras com cerca de 50 anos e até grávidas. Algumas são pessoas sem instrução formal, mas dispostas a arriscar tudo por dinheiro, sem considerar os perigos — tanto do envolvimento com traficantes quanto da prisão.
“Todas as mulas presas no Japão se ofereceram para esses criminosos, entrando em contato via WhatsApp. Já vimos mensagens como: ‘Ô, mano, vê aquela viagem pra mim. Eu vou folgar tal dia. Vê se agita essa viagem aí’. Ou seja, os traficantes não procuram os candidatos; são estes que os procuram”, explica Nakano.
Não faz muito tempo, uma emissora de TV japonesa fez uma reportagem no Aeroporto de Narita, em Chiba, onde Nakano estava de plantão. Foi revelado que os voos vindos da França são especialmente visados pelos traficantes. “Quase todo voo dessa rota tem um brasileiro contrabandeando drogas. Na ocasião, a mula não era jovem, mas uma senhora de 50 anos (que será identificada aqui pelo pseudônimo de Ana). Ao ser parada, ela debochava dos oficiais da Alfândega dizendo que não portava nada ilegal, até que pediram para passar pelo raio X. Então ela armou um escândalo ao perceber que seria pega”, relata.
Ana veio de Belém (PA) para São Paulo por conta própria para oferecer-se aos traficantes. Como não havia remessa imediata, esperou dois meses na capital. “Essa senhora queria muito vir ao Japão. E conseguiu. Achava que poderia permanecer no país o tempo que quisesse”, diz Nakano.
"As cápsulas já estão no intestino"
Quando a mula passa pelo controle do aeroporto, deve seguir a um hotel indicado pelos traficantes, onde encontrará outras mulas e o coletador da droga. “Enquanto traficantes mexicanos escondem drogas em máquinas, as mulas brasileiras as transportam em cápsulas ingeridas antes do embarque. Quando chegam ao Japão, após 30 horas de voo, a droga ingerida já está no intestino e leva de quatro a cinco dias para ser expelida”, segundo o intérprete.
Para evitar a perda das cápsulas, os traficantes dão até 10 comprimidos à mula, que paralisam o funcionamento do intestino. O medicamento, segundo Nakano, é destinado a gatos. O conteúdo de apenas uma cápsula é avaliado em ¥ 750 mil no mercado japonês.
O pagamento que a mula recebe pela primeira viagem varia entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Mas, antes de enviarem alguém ao Japão — uma rota de alto risco —, os traficantes fazem testes enviando a mula a países vizinhos do Brasil ou aos Estados Unidos e Canadá.
Nakano afirma que, entre as mulas presas no Japão, não há nenhuma que tenha sido forçada ou ameaçada. “Muitas querem vir ao Japão para comprar celular novo, pegar o dinheiro para trocar de moto ou se divertir. Para legitimar o visto de turista, os traficantes até fornecem o Japan Rail Pass e um ingresso para a Disney”, informa.
"O plano da mula não dará certo"
Ao voltar ao Brasil, a mula recebe o pagamento e é sondada para uma segunda viagem, com promessa de receber R$ 20 mil a R$ 30 mil. Caso recuse, os traficantes exigem o reembolso das despesas. “Por isso eles preferem pessoas de regiões distantes, onde a chance de evasão é menor”, explica o intérprete.
Segundo Nakano, caso o traficante esteja de bom humor, pode propor que a mula passe a recrutar outras, ganhando comissões.
Em 2024, duas grávidas foram presas no Japão. Uma delas, com seis meses de gestação, acreditava que não despertaria suspeitas. Ela foi condenada a sete anos. Seu filho nasceu na prisão, onde será criado por terceiros e alfabetizado em japonês. Só após a pena ela poderá retornar ao Brasil com a criança, que mal a conhece.
Essa jovem, do litoral paulista, conheceu o esquema em um salão de beleza e foi atraída pelo estilo de vida de uma mulher que havia ido à França e comprado um relógio muito bonito. Ela tentou a mesma sorte da colega, mas foi interceptada.
Entre as drogas mais apreendidas no Japão estão as metanfetaminas e a cocaína. Do Brasil, os traficantes visam mais a cocaína — e em sua forma mais concentrada: a pasta base. “Com 1 grama da pasta, faz-se até 13 gramas de cocaína própria para venda nas ruas”, conforme Nakano.
Mas o intérprete adverte: “O plano da mula nunca dá certo. Ela pode morrer se uma cápsula estourar. Mesmo que ganhe até R$ 30 mil, o conteúdo de duas cápsulas é suficiente para o traficante recuperar esse valor.”
E conclui: “Depois de tudo o que sabe que terá que passar e, ainda assim, quiser vir, venha. Mas esteja preparado para ficar preso por cinco anos, comendo arroz, missoshiru e nattou todos os dias. Na penitenciária, aprenderá japonês, pois, ao ser deportado, talvez só encontre trabalho em empresas japonesas.”
Foto: Banco de Imagens






































