Jovens japoneses desafiam padrões com moda sem gênero

2026/05/22 13:13
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Tóquio – O Japão vive uma expansão da moda sem gênero, marcada por gravatas femininas, ternos de corte masculino usados por mulheres e sombrinhas cada vez mais comuns entre homens. A chamada moda sem gênero, em japonês ジェンダーレスファッション, leva às ruas peças e acessórios que não seguem a separação tradicional entre masculino e feminino. Antes mais associada a locais como Harajuku, em Tóquio, a tendência avança para outras partes do país, impulsionada principalmente pela Geração Z e pela busca por individualidade.

A moda sem gênero é exatamente como o nome sugere: pessoas usando roupas, acessórios, cores e estilos que combinam com sua própria personalidade, sem se limitar ao que costuma ser classificado como masculino ou feminino. Alguns vão mais longe, com homens usando maquiagem leve, saias, bolsas e cores tidas como femininas, enquanto mulheres adotam, além de gravatas e ternos, peças mais largas, sapatos robustos e outros itens antes associados ao guarda-roupa masculino.

A tendência não significa necessariamente uma mudança na orientação sexual ou na identidade de gênero de cada pessoa. Muitos jovens japoneses querem vestir aquilo que combina com a própria personalidade, sem se preocupar se a peça veio da seção masculina ou feminina.

Isso foi apontado em um estudo do SHIBUYA109 lab. com jovens de (15) a (24) anos. A pesquisa mostrou que 71,7% disseram querer aproveitar a moda sem se prender ao gênero, 78,9% consideraram que vestir-se de forma genderless é uma escolha livre de cada pessoa, e 58,1% afirmaram que já aproveitam a moda sem se prender ao gênero.

País tem antecedentes

O uso de roupas e acessórios sem preocupação rígida com o gênero não é exatamente uma novidade no Japão. A cultura japonesa tem antecedentes históricos, como o teatro kabuki, em que homens interpretam papéis femininos. Mais recentemente, a moda sem gênero ganhou força nos grandes centros, nas redes sociais e nas lojas de rua ao longo da década de (2010).

Um estudo da Universidade de Kyoto mostrou que a expressão ジェンダーレス男子, algo como “garotos sem gênero” ou “rapazes genderless”, surgiu por volta de (2012) e passou a ganhar espaço na mídia japonesa por volta de (2015). O termo era usado para jovens homens que valorizavam “ser eles mesmos”, usando roupas femininas e masculinas, cabelo, maquiagem, unhas e um estilo mais delicado, sem necessariamente desejar se tornar mulheres.

Impulso da Geração Z

A tendência atual pode ser considerada uma nova fase desse movimento. O que começou com força em locais como Harajuku e nas redes sociais agora chega a grandes marcas, lojas de ternos, ambientes de trabalho, uniformes escolares e produtos usados no cotidiano.

Segundo a Jiji Press, a moda sem gênero envolve principalmente jovens da Geração Z, com cerca de (15) a (30) anos, que encontram roupas e acessórios em lojas que agora buscam atender à demanda por estilos menos presos ao gênero.

A Aoyama Trading, empresa japonesa de roupas formais, lançou em janeiro a gravata feminina Skinny Tie, disponível em (30) lojas da rede Youfuku no Aoyama e no site oficial. A peça é mais fina e mais curta do que uma gravata masculina, com (137) centímetros de comprimento e (4) centímetros de largura na ponta, pensada para combinar com blusas e jaquetas femininas. A empresa também menciona que mulheres passaram a encomendar ternos de estilo masculino e a incorporar peças antes vistas como masculinas.

A própria Aoyama fez uma pesquisa com (848) mulheres entre janeiro e fevereiro de (2025) e descobriu que cerca de 50% tinham interesse em moda de estilo masculino. O índice sobe para 53,4% entre mulheres de (20) anos ou menos. A tendência aparece ligada ao interesse por roupas com corte diferente, maior liberdade de composição e silhuetas que não marquem tanto o corpo.

Quanto às sombrinhas, o Ministério do Meio Ambiente do Japão já defendia desde (2019) seu uso para combater as consequências do forte calor no verão, citando que o item reduz o índice de calor e o estresse térmico do corpo. Uma pesquisa da fabricante Waterfront com mil pessoas entre (20) e (69) anos mostrou que 11,9% haviam usado sombrinha pela primeira vez em (2025). Metade desse grupo era formada por homens, com destaque para os homens na faixa dos (30) anos. O principal motivo citado foi a prevenção contra insolação, não a estética.

A influência da Geração Z também aparece nos uniformes escolares. A pesquisa do SHIBUYA109 lab. mostrou que 77,6% dos estudantes entrevistados achavam positivo que os uniformes apresentassem tanto saia quanto calça para todos os gêneros. Além disso, 50,5% disseram que em suas escolas as meninas já tinham a opção de usar calça, e 44,6% afirmaram que havia meninas usando calça no ambiente escolar.

Grandes marcas no mercado

Grandes empresas da moda, como a Uniqlo, também trabalham com campanhas e coleções que transmitem a ideia de roupas com menos fronteiras de gênero. Camisetas, blusões, camisas e calças largas aparecem como peças que podem ser usadas por diferentes públicos. Além das grandes marcas, empresas menores e independentes também vêm explorando a tendência.

Todo esse cenário não significa que os jovens japoneses estejam abandonando o que é masculino ou feminino. O movimento indica, antes, uma tentativa de ultrapassar limites tradicionais da moda. Não se trata apenas de homens se vestindo de mulher ou mulheres se vestindo de homem, mas de uma geração que quer se sentir livre para escolher o que vestir e usar.

Foto: Esta é uma imagem gerada por IA criada exclusivamente para fins ilustrativos. Não representa um evento ou pessoa real.

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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