Bióloga brasileira revoluciona tratamento de lesões medulares

2026/02/20 09:29
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Rio de Janeiro – O nome da bióloga brasileira Tatiana Coelho de Sampaio tem repercutido nas redes sociais. E não é para menos: a descoberta dela tem permitido que pessoas que sofreram lesões na medula espinhal recuperem movimentos do corpo, que antes eram tratados pela medicina como irreversíveis. Até agora, o tratamento criado por ela devolveu o movimento corporal para pelo menos seis pacientes que sofrem de tetraplegia e paraplegia. Mas o fato tem um lado triste: o Brasil perdeu a patente internacional de uma proteína usada no tratamento.

Tatiana é professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e liderou a pesquisa que visava estimular a regeneração de neurônios danificados. Especialistas e membros da comunidade científica dizem que ela é uma potencial candidata ao Prêmio Nobel de Medicina, segundo o Diário do Comércio.

A professora vem estudando esse tratamento há quase três décadas, coordenando o desenvolvimento da polilaminina, proteína experimental que atua diretamente no local da lesão medular e funciona como uma espécie de cola biológica, favorecendo a reconexão dos neurônios rompidos.

Proteína extraída da placenta humana

A polilaminina é uma molécula baseada em proteínas extraídas da placenta humana, que desempenham papel fundamental no desenvolvimento do sistema nervoso. Ao aplicar com uma injeção no local da lesão na medula espinhal, a substância cria um ambiente favorável para o crescimento dos axônios e a reconstrução dos circuitos nervosos.

Tatiana explicou que quando uma pessoa mexe o dedão do pé, são precisos apenas dois neurônios: um que está no cérebro e vai comunicar com o segundo, que está na medula espinhal, dentro da coluna. Um segundo neurônio sai da coluna e vai até o dedão do pé, levando a informação para que se mexa.

“Quando ocorre uma lesão, a comunicação entre os dois neurônios é interrompida. O que a gente descobriu aqui foi uma maneira de fazer com que essa conexão se restabeleça”, explica. A bióloga descobriu que é possível recriar em laboratório a proteína polilaminina, extraindo as proteínas de placentas.

O estudo contou com a participação de pesquisadores, médicos, fisioterapeutas e alunos da UFRJ, no estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Para o neurocirurgião Marco Aurélio de Lima, que participou do estudo, o resultado que o tratamento vem obtendo é inédito. “Se buscarmos hoje, não vamos encontrar nenhum estudo com medicação atuando na regeneração medular que conseguiu isso”.

O tratamento vem sendo desenvolvido em parceria com o laboratório brasileiro Cristália e já teve a fase 1 dos testes necessários aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), etapa que confere a segurança e os primeiros sinais de eficácia do método.

Pacientes recebem o tratamento

Sabe-se que pelo menos 16 pacientes brasileiros conseguiram na Justiça o direito de receber a aplicação experimental. Desses, cinco tiveram recuperação parcial dos movimentos, resultado surpreendente em casos de lesão medular grave.

Um dos casos é o de Luiz Fernando Mozer, de 37 anos, que ficou tetraplégico após sofrer um acidente de moto. Após 48 horas da aplicação da proteína, ele retomou a sensibilidade e conseguiu contrair os músculos das coxas.

Um homem de 35 anos sofreu queda de moto e conseguiu movimentar o pé e já tem sensibilidade nas pernas graças ao tratamento de Tatiana. Bruno Drumond de Freitas, de 31 anos, conseguiu voltar a andar após ter se tornado tetraplégico. Outros ainda, como Diogo Barros Brollo, de 35 anos, e uma jovem de 24 anos, também apresentaram melhora.

Em razão disso, Tatiana vem concedendo entrevistas sobre seu trabalho, mas ao mesmo tempo tem mantido sua vida discreta, longe das redes sociais. Ela tem 59 anos de idade, dois filhos e é responsável por uma jovem órfã do Maranhão.

“Prefiro a vida real. Viver sempre será minha primeira opção”, declarou ao comentar sua decisão de se manter distante do ambiente digital.

O fato é que a descoberta da ação da polilaminina no tratamento vem sendo considerado por especialistas como uma das maiores inovações da medicina brasileira nas últimas décadas. A pesquisa coloca o Brasil no centro do debate científico mundial a respeito da regeneração neural, com resultados tão impactantes.

Agora, o desafio é avançar para as próximas fases, que devem comprovar a eficácia em maior escala. Segundo a equipe, o investimento necessário para que o medicamento chegue ao mercado gira em torno de R$ 28 milhões, segundo o TNH1.

Brasil perdeu a patente

Tatiana acrescentou que o Brasil perdeu a patente internacional da polilaminina durante o governo de Dilma Rousseff, quando ocorreram cortes de recursos na UFRJ. A falta de verba, segundo ela, nos anos 2015 e 2016, inviabilizou o pagamento de taxas para manter a patente no exterior.

A bióloga resumiu o quadro: “A (patente) internacional foi perdida. Parou de pagar, nunca mais recupera. Não pode refazer, não pode reapresentar. Podem copiar à vontade”, disse.

A patente nacional, por sua vez, só foi mantida porque a própria pesquisadora arcou temporariamente com os custos. “Eu paguei do meu bolso por um ano para não perder”, relatou.

Foto: Reprodução/Divulgação

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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