Da fábrica ao microfone: brasileiro constrói projeto de comunicação no Japão

Shizuoka – Quando Carlinhos Vilaronga aparece na internet com um microfone na mão e os fones de ouvido posicionados, pode ter certeza de que vem coisa boa, com assunto de qualidade. Ele é o criador da produtora Nabecast Podcasts & Multimedia e, por meio do Mochiyori Podcast, realiza um trabalho de valor inestimável, levando temas importantes relacionados à saúde física e mental para a comunidade brasileira no Japão.
Nos mais de 140 programas que já realizou no Mochiyori Podcast, Carlinhos, que reside em Kosai, na província de Shizuoka, comanda os encontros como o bom comunicador que é, sempre amparado por profissionais de saúde do Brasil e do Japão.
Mas, para chegar ao que são hoje a Nabecast e o Mochiyori Podcast, é preciso voltar no tempo, até a cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, onde ele foi viver com a família, vinda de Salvador, capital da Bahia e sua cidade natal.
Ele conta que, algum tempo depois, seu pai foi diagnosticado com câncer e acabou falecendo. Carlinhos tinha cerca de 10 anos na época. Em consequência dessa dolorosa perda, sua mãe entrou em depressão. "Esses fatos marcaram minha infância e pré-adolescência, ou seja, tiveram impacto na minha formação como indivíduo", conta.
Ainda na adolescência, Carlinhos fazia parte de uma comunidade cristã evangélica, na qual participava de várias atividades, como teatro, coral, banda, voluntariado e iniciativas sociais.
Foi também na adolescência, aos 16 anos, que ele se apaixonou por uma sansei, aquela que viria a ser sua futura esposa e mãe de seus dois filhos. Os anos passaram, os dois se casaram, tiveram o primeiro filho no Brasil e decidiram vir para o Japão em dezembro de 2003, onde a família da esposa já residia.
Carlinhos, hoje com 47 anos, soma 23 anos de Japão, residindo na cidade de Kosai, na província de Shizuoka. Durante todo esse período, trabalhou em diferentes fábricas da montadora Suzuki, em cidades como Hamamatsu, Kosai e Toyokawa. Nos últimos dez anos, atua como operador de empilhadeira no centro de distribuição de peças da fabricante em Kosai.
Ele conta que a produtora Nabecast Podcasts & Multimedia e o Mochiyori Podcast nasceram muito antes de receberem esses nomes.
"Eu sempre fui tagarela, comunicativo, curioso e reflexivo. Quando eu era criança, queria saber como as coisas funcionavam. Me tornei um produtor de conteúdo digital, algo que faço um pouco por hobby, como processo terapêutico criativo e por vocação pessoal, uma tentativa de entender qual é o meu lugar neste planeta. Isso tem mais a ver com uma trajetória pessoal do que com uma profissão", conta.
"Meu último emprego no Brasil me deu uma boa experiência na área de comunicação. Trabalhei na central de atendimento de uma fabricante de eletrodomésticos. Eu fazia parte da equipe de suporte técnico aos atendentes que recebiam as ligações dos clientes. Estudei eletroeletrônica e, na época, precisava dominar os manuais das lavadoras de roupa e de louça para poder ajudar os atendentes e sanar as dúvidas dos clientes", relata.
Estudar teologia

No Japão, Carlinhos integra uma comunidade de fé japonesa que abriga um grupo de brasileiros. Como sempre teve grande desejo de estudar, seus colegas de comunidade o incentivaram a ingressar em um curso livre de teologia, voltado à preparação de pessoas que desejam atuar no ambiente religioso, como voluntárias ou até mesmo como sacerdotes.
"Como esse pessoal me ajudou a pagar metade do curso ao longo de cinco anos, em troca propus que marcássemos encontros para tomar café com bolacha, enquanto eu transmitia o que havia aprendido", explica.
A partir dali, começaram os encontros regados a café com bolacha, nos quais Carlinhos levava suas anotações e compartilhava com os colegas os conhecimentos adquiridos.
Para melhorar a qualidade dessas reuniões, começou a enviar aos participantes uma gravação com uma introdução aos temas que seriam abordados. Na época, os podcasts já ganhavam espaço. "Então comecei a editar os áudios com trilha sonora e vinheta e acabei criando algo que mais parecia um programa de rádio, que eu enviava em um grupo criado no Facebook", conta.
As reuniões duraram cerca de um ano, até que, por diversos fatores, o grupo se desfez. Carlinhos, porém, decidiu que não deveria parar. Foi então que começou a estudar como funcionavam os podcasts da época. Descobriu que o termo não se referia exatamente a um formato de programa, mas a um sistema de distribuição de conteúdo.
Reuniu todas as gravações que havia feito e as colocou em uma plataforma apropriada. A partir daí, passou a considerar a possibilidade de tratar não apenas de assuntos religiosos, mas também de saúde mental, relacionamentos, ecologia, depressão, sexualidade, entre outros temas.
"Como eu não domino todos esses assuntos, comecei a procurar pessoas para entrevistar. Posteriormente, também disponibilizei o conteúdo no Spotify, que já abrigava podcasts, quando a pandemia de Covid-19 estava começando", recorda.
O bom trabalho de Carlinhos Vilaronga se espalhou e, segundo ele, ajudou a abrir caminho para que também passasse a atuar como prestador de serviços. Surgiu, inclusive, uma parceria com o Instituto Alvo, instituição de educação no Brasil dirigida por um amigo seu e voltada, entre outras atividades, ao treinamento de lideranças.
Dali foi um pulo para que o nome de Carlinhos aparecesse em uma conversa no Instituto Maria da Penha, também no Brasil.
"Uma pessoa que entrevistei conhecia a vice-presidente do Instituto Maria da Penha, que falou que queria fazer um podcast. Essa pessoa disse que me conhecia e passou meu contato, explicando que eu era do Japão. A vice-presidente não acreditou, achando que fosse uma piada o fato de alguém no Japão fazer um podcast. Quando ela me ligou, não deve ter notado nada de estranho, porque o código do Japão é +81, enquanto o DDD de Recife, de onde ela ligou, é 81."
"Ficamos meses trocando ideias, eu explicando como tudo funcionava. Até que a responsável falou em levar a equipe para o meu estúdio para a gravação. Eu disse que tudo bem, que poderiam pegar um avião para vir até aqui, embora fossem gastar um bom dinheiro, mas eu os receberia com café e bolo. Ela não entendeu. Então expliquei que moro no Japão. Ela achou que era brincadeira, mas, no fim, iniciei meu voluntariado com o Instituto Maria da Penha", relata.
Nasce a Nabecast
Como Carlinhos não queria assinar a prestação de serviços como pessoa física, pensou em criar um nome fantasia. A ideia surgiu a partir de um trabalho que realizou na gravação de um DVD de uma banda independente japonesa em Shibuya, Tóquio.
"Eu fui operador de câmera naquele dia e ajudei a fazer a arte do DVD que foi vendido no Japão. Como era inverno, os integrantes da banda reuniram os amigos, músicos e outros profissionais que contribuíram para a gravação, e aquele encontro festivo terminou com o consumo de nabe."
Nabe (鍋) significa "panela" em japonês, mas, na culinária, o termo costuma se referir ao nabemono (鍋物), conjunto de pratos preparados e servidos em uma panela grande, geralmente colocada no centro da mesa. É uma comida muito associada às estações frias do ano.
A panela fica sobre um fogareiro portátil e os ingredientes cozinham no caldo enquanto as pessoas comem, acrescentando novos itens aos poucos. Entre os ingredientes podem estar hakusai, a acelga chinesa, negi, cogumelos, tofu, carnes, frango, peixe, frutos do mar, entre outros. O caldo varia bastante conforme o tipo de nabe e a região.
"Naquele dia, percebi o sentimento gostoso de sonhar com algo e ter amigos que acreditam, apoiam e celebram nossas conquistas. Por isso dei o nome de Nabecast à minha produtora, acrescentando Podcasts & Multimedia, inspirado no trabalho do locutor e empresário Leo Lopes, que há muitos anos ensina pessoas a produzir podcasts", conta.
Além do trabalho com o Instituto Maria da Penha, por meio da Nabecast Podcasts & Multimedia, Carlinhos participou de projetos relacionados a podcasts em um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco e em outro da Universidade Católica de Pernambuco.
A Nabecast Podcasts & Multimedia se tornou uma produtora por meio da qual Carlinhos presta serviços. Mas, graças às sugestões de pessoas que acompanhavam seu trabalho, ele criou o Mochiyori Podcast, voltado principalmente à saúde mental, um tema de interesse geral.
O termo Mochiyori, em japonês, significa algo como "cada um leva um prato", expressão que combina bem com o espírito do podcast.
"E, como projeto autoral que é, sua linha editorial trata de saúde mental, bem-estar e desenvolvimento humano. Eu fico como âncora, sempre entrevistando algum profissional que compartilha um pouco de seu conhecimento sobre o tema abordado no episódio", afirma.
Crise dos 40
Na época, Carlinhos tinha 38 anos e, segundo ele, estava entrando na chamada crise dos 40, período em que começou a se questionar sobre os sonhos que ainda não havia realizado e o patrimônio que não tinha conquistado.
"Cheguei a ficar mal. Perguntava a mim mesmo o que eu havia feito com a minha vida ao decidir vir para o Japão. Já estava me sentindo velho. Tudo mudou quando, por meio do podcast, conheci pessoas com 60 anos fazendo pós-doutorado e outras com 70 anos viajando por vários países. A interação com essas pessoas me ajudou a perceber que a vida não havia acabado, que é possível estudar e realizar coisas novas mesmo depois dos 40", relata.
Ele continua: "No trabalho com o Instituto Maria da Penha, cheguei a participar da produção de episódios de podcasts que tiveram a participação, por exemplo, da ex-modelo Luiza Brunet, da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, e da ativista de direitos humanos Kim Phuc Phan Thi. Não tenho formação em comunicação ou jornalismo, mas tenho estudos em teologia, que abrangem filosofia, sociologia, história e arte. Esses estudos me deram uma visão panorâmica de vários temas e flexibilidade para formular boas perguntas e participar dessas conversas", recorda.
A oportunidade de adquirir novas perspectivas por meio das interações com os entrevistados e o acompanhamento terapêutico de um psicólogo ajudaram Carlinhos a superar a crise dos 40 e a lidar melhor com histórias do passado, como a morte do pai e a depressão da mãe, além de desafios do presente, como casamento, paternidade e a vivência como imigrante.
"É por isso que eu valorizo tanto a terapia quanto os podcasts. A produção de conteúdo digital também acabou se tornando uma oportunidade de negócio. Os trabalhos realizados como prestador de serviços geram recursos que posso investir em equipamentos ou na minha formação. E assim o projeto vai se tornando autossustentável. Isso está me fazendo bem", garante.
Mochiyori Podcast

O trabalho realizado por Carlinhos está presente em várias mídias sociais, nas quais os números de seguidores também variam. Ele acredita, porém, que entre 50 e 100 pessoas estejam realmente engajadas em suas transmissões.
Isso inclui os encontros presenciais que o comunicador realiza uma vez a cada estação do ano, em parceria com a organização sem fins lucrativos Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão (Sabja), que indica um profissional para participar.
O último encontro presencial foi realizado em 26 de setembro, na edição de outono, em Toyohashi, na província de Aichi, com a participação do psicólogo Irineu Jo, para falar sobre prevenção ao suicídio.
Apesar da divulgação, o encontro em Toyohashi reuniu um grupo reduzido, em torno de 20 a 25 pessoas. Carlinhos confessa que, inicialmente, ficou decepcionado, pois esperava ver mais gente interessada em aprender sobre um tema difícil, mas importante.
"É um encontro com financiamento coletivo, isto é, cada um ajuda com um valor para pagarmos o local e as despesas. Mas tem café, pãozinho e os parceiros levam brindes. O pastor japonês da minha comunidade de fé me autorizou a fazer esse trabalho, que é mostrar que as pessoas são amadas, que nos importamos com elas. Então meu sonho era ter ali umas 80 pessoas. Até pensei em desistir", confessa.
No decorrer do encontro, que durou três horas, ele percebeu, porém, que o número de presentes era suficiente. Havia pessoas que já haviam tentado suicídio, outras que pensavam no assunto e também aquelas que haviam perdido familiares dessa forma.
Ao final do encontro, Carlinhos viu todos saindo sorridentes e agradecidos por terem tido espaço para falar e aprender.
As partes mais sensíveis dos relatos, naturalmente, não integram a gravação do podcast. E foi justamente nesse momento que Carlinhos percebeu que valia a pena continuar realizando os encontros presenciais com os ouvintes do Mochiyori Podcast. Um dos participantes resumiu a experiência: "Cara, é maravilhoso isso aqui. Que legal que você tá fazendo."
Carlinhos conta que seu filho mais velho, de 23 anos, costuma ajudá-lo em alguns vídeos, enquanto o filho mais novo observa tudo com paciência. A esposa prefere não aparecer, mas gosta de colaborar de outras maneiras.
"Nesses encontros presenciais, ela sempre faz um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. O pessoal gosta tanto do bolo que uma das ouvintes brincou dizendo que, se minha esposa não estiver lá e não levar o bolo, ela não participa (risos). Sem falar que minha esposa ama os bastidores desses encontros e gosta de interagir com as pessoas, de abraçá-las", relata.
No Mochiyori Podcast, já foram tratados temas como depressão, transtorno bipolar, Transtorno do Espectro Autista, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), violência doméstica, abuso sexual infantil e desenvolvimento pessoal, entre outros. Até agora, são 144 episódios.
O sucesso do Mochiyori Podcast, segundo Carlinhos, pode ser resumido em algumas palavras: acolhimento, escuta, diálogo, leveza e responsabilidade.
"Acolhimento, porque, quando olho para a minha história, percebo o quanto aquilo que a gente vive nos impacta por dentro. Isso porque temos dores, traumas, complexos. É acolhimento nesse sentido. É escuta, porque muitos temas são sugeridos pelos ouvintes. Eu escuto o que eles pedem. É diálogo, porque aqui não tem lacração nem treta. É diálogo mesmo. A leveza vem da tentativa de trazer bom humor, um vocabulário acessível, dentro de um ambiente emocionalmente agradável. E a responsabilidade também entra, porque ela é necessária na produção de conteúdo", ensina.
Curso de marketing
Com os recursos que passou a obter com seu trabalho como comunicador na Nabecast Podcasts & Multimedia, Carlinhos conseguiu pagar o curso de tecnólogo em marketing na Universidade de Araraquara (Uniara), na modalidade de Ensino a Distância (EAD), realização de um sonho antigo.
Agora, está encarando uma pós-graduação em Psicologia da Comunicação e Marketing.
Além disso, o reconhecimento de seu profissionalismo rendeu a Carlinhos Vilaronga convites para atuar como mestre de cerimônias (MC) em eventos, como o Pulse Japan 2025 e o ECHO Music Festival 2026, este último agendado para novembro.
"São oportunidades de aprender a ser mestre de cerimônia, de falar com o público com uma dinâmica diferente", diz.
Há também a Agenda Cultural, que Carlinhos insere na programação quando surge alguma dica interessante, como um bom livro, filme, série, documentário ou lugar para conhecer.
"Às vezes aparece um evento com o qual me identifico. Então, uma maneira de apoiar o evento e também divulgar meu trabalho é fazer transmissões ao vivo para a série que chamo de Agenda Cultural. Mas isso acontece sem periodicidade definida", explica.
O plano de Carlinhos é continuar na onda dos podcasts, sempre levando em conta o apoio da família. "Eu até brinco que, no dia em que a família disser chega, não haverá mais Nabecast", afirma.
Seu sonho é que a família consiga adquirir um imóvel onde todos possam morar com conforto, com espaço para o estúdio do podcast e também para uma cafeteria acolhedora, de preferência aos pés de uma montanha ou à beira de um lago.
"A ideia é que as pessoas possam ir lá para tomar um café, receber sorrisos e ter contato com a natureza", diz.
E, como bom cristão que é, Carlinhos deixa uma mensagem:
"Nos evangelhos, Jesus usa a expressão 'vida abundante', que significa uma vida plena, completa. Claro que no mundo existem muitos problemas. Mas tenho a convicção de que essa vida plena é possível, independentemente das dificuldades que tenhamos no cotidiano. O objetivo do meu projeto de comunicação por meio dos podcasts e das redes sociais é justamente apontar caminhos para que a comunidade de ouvintes e suas famílias possam desfrutar de uma vida abundante e satisfatória", finaliza.
Quer conhecer o trabalho de Carlinhos Vilaronga? Aqui você encontra todos os canais do Nabecast Podcasts & Multimedia e do Mochiyori Podcast: https://www.nabecast.jp/bio
Fotos: Cedidas








































