“Eu não seria um ser humano completo se não tocasse shamisen” – Matheus Bitencourt 

2025/06/09 15:10
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Aomori – Ele é natural de São Paulo, morou em Caucaia do Alto, distrito de Cotia, na Grande São Paulo, e em suas veias corre uma mescla de sangue português, italiano e francês. Mas decidiu aprender a tocar o “tsugaru shamisen”, um instrumento tradicionalíssimo da província de Aomori. Matheus Bitencourt Oliveira, 28, ou mais conhecido pelo nome artístico de Shibutani Matheus, tem conquistado aplausos e admiração com sua arte no Japão, tocando e cantando canções folclóricas japonesas com a alma, mas que agora também quer atingir o coração dos brasileiros.

Matheus contou que foi na adolescência que tudo começou, graças à sua admiração pela cultura japonesa. “Gosto muito dos detalhes das culturas, e a do Japão é um prato cheio, por sua riqueza. Então, os meus pais acharam estranho eu querer estudar japonês, mas como não desisti, eles me matricularam em uma escola em Vargem Grande Paulista (Região Metropolitana de São Paulo).” Foi quando ele observou que sua ligação com o Japão não era ao acaso, mas um chamado de sua alma. “Eu participava das atividades na região, jogando beisebol ou tocando wadaiko. Certa vez, um professor trouxe para a aula de taikô um shamisen, um instrumento de três cordas típico de Okinawa”, lembra.

Impacto do tsugaru shamisen

Sua admiração pelo shamisen foi tamanha que, mesmo sendo raro de encontrar e caro seu estudo no Brasil, Matheus foi atrás de quem poderia ensinar-lhe a arte de tocar aquele instrumento. “Quando ouvi o shamisen ser tocado pela primeira vez, eu tive dois sentimentos: é o som da minha alma, eu preciso tocar e quero tocar. E se eu não tocar esse som, não serei um ser humano completo, porque não cumprirei a minha missão no mundo. O segundo sentimento foi de que eu não iria conseguir, porque achava impossível”, relata.

Nas suas buscas, ele acabou encontrando o professor Yuzo Akahori, que dava aula de shamisen em um espaço na Associação Yamagata Kenjin do Brasil, na capital paulista. “Na época, eu tinha 15 anos e comecei a tocar música folclórica japonesa (Nihon no minyō). Mas chegou um momento em que eu precisei estudar sozinho, porque era difícil ir para São Paulo. Assistia aos vídeos do YouTube, copiava as canções. Posso dizer que, enquanto nas redondezas de casa as pessoas ouviam funk no último volume, eu ficava trancado em casa tocando tsugaru shamisen e cantando canções folclóricas japonesas. Eu chegava a tocar por oito horas seguidas. Mas não sentia cansaço. Eu o fazia com tanto prazer que mal sentia a hora passar”, disse.

Shamisen típico de Aomori

O shamisen é um instrumento muito antigo que, segundo Matheus, já existia em outros países, e mais tarde ganhou espaço no folclore de Okinawa. Depois, foi trazido para a região de Osaka, onde sofreu adaptações. O instrumento que o brasileiro toca é originário de Tsugaru, cidade de Aomori, daí o nome do instrumento e do estilo de tocar, “tsugaru shamisen”, que respeita a tradição do folclore local, mas que permite adaptações, desde que não sejam exageradas. O tsugaru shamisen foi criado por Nitaro Akimoto em 1890, e é bastante comum nas províncias do nordeste do Japão.

Matheus começou a se destacar no domínio do instrumento e foi convidado a participar de vários festivais, como o Tanabata Matsuri e outros. Mas o ponto alto de sua carreira foi em 2021, durante a pandemia do coronavírus, quando ele participou de um campeonato de shamisen com músicos da América Latina via online. Ele contou que a competição era dividida em três modalidades: a de folclore japonês, da qual não participou; a de música moderna, categoria na qual os candidatos podiam trabalhar mais a criatividade, e na qual conquistou a segunda colocação; e a de solo de tsugaru shamisen, ficando em terceiro lugar.

“Esses resultados mostraram que eu estava no caminho certo. Tanto é que começaram a chover convites para tocar em vários lugares, até que a Associação Aomori Kenjin do Brasil se interessou por mim, porque eu divulgava a cultura da província”, disse. Tanto é que a vice-presidente da Associação, Hiromi Coppede, e o designer Hiroyuki Akaishi foram os responsáveis por apresentar Matheus para aquele que seria o seu futuro mestre, Kazuo Shibutani. “Eu já tinha um profundo amor por Aomori, então conseguir vir para o Japão em julho de 2023 para tocar em diversas províncias, até que fui para Aomori, onde me tornei discípulo de Shibutani, o mestre que me recebeu de braços abertos, que é como um pai para mim, e quem me concedeu o nome artístico de ‘Shibutani Matheus’”, relatou.

Instrumento arrojado

Depois de um retorno ao Brasil, Matheus conseguiu voltar para o Japão, chegando em fevereiro deste ano, para uma apresentação no Kameido Umeyashiki, um complexo comercial no distrito de Koto, em Tóquio, mas tradicionalíssimo nas artes musicais japonesas. Agora, ele reside em Hirosaki (Aomori). Após o longo aprendizado, Matheus assegura que pode tocar qualquer música folclórica de várias partes do Japão. “Graças ao professor Yuzo Akahori, eu tenho um repertório vasto de músicas folclóricas japonesas, o que me permite executar as canções de qualquer lugar do Japão. E, para mim, essa é uma alegria muito grande, porque posso tocar aquelas músicas que os japoneses ouviam dos seus avós. Tocar essas canções para eles é algo que me deixa profundamente emocionado”, garante.

O brasileiro costuma dizer que o tsugaru shamisen é mais arrojado que outros do gênero, por ser diferente fisicamente, mas por permitir que o músico toque com uma liberdade quase teatral no palco. “Eu devo respeitar o estilo tsugaru shamisen, mas também posso variar. Em Aomori, até os jovens são tradicionalistas, não admitindo inovações. Então, fora dali, meu mestre permitiu ir além. Você tem parâmetros, o formato da música, que devem ser respeitados. Até porque, ao participar de campeonatos, você tem que tocar com maestria. Porém, em certo pontovocê pode tocar como quiser, explorar a parte do shamisen que quiser”, explica o músico, que é fã de estrelas japonesas como Chisato Yamada, Nobuto Yamanaka e Etsuro Ono, além de seu mestre Kazuo Shibutani.

‘Gosto de samba’

Mas Matheus não foge de suas origens, buscando no passado alguns ídolos dos tempos em que a música brasileira passava longe do que se vê hoje. “Eu tenho grande apreço pelo Sérgio Bittencourt, daquela canção ‘Naquela mesa’ (executada por grandes nomes da música, como Nelson Gonçalves, Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolim). Ele era um grande sambista. Além disso, Sérgio Bitencourt e Jacob do Bandolim foram primos do meu avô, José Bitencourt Oliveira. E, claro, também gosto de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes”, conta.

O músico acrescentou que também cresceu ouvindo moda de viola, com aquelas duplas cantando música sertaneja raiz. “As músicas eram verdadeiros poemas. O que percebo hoje é que o Brasil jogou fora gente que era genial e colocou no lugar uma molecada que não tem nada a ver, que toca funk, por exemplo. Tudo bem, eu entendo, cada um tem seu gosto. Mas você não deve jogar o ouro da sua terra e dar uma coroa de louros a quem acabou de chegar com nada. Isso é uma grande inversão de valores que ocorre no nosso país”, critica.

Curiosamente, o músico vê possibilidade de inserir o tsugaru shamisen em canções sertanejas atuais, para quem sabe tornar o instrumento e o estilo musical mais acessíveis aos brasileiros. Um passo nesse sentido foi dado por Shibutani Matheus ao participar da 3ª Feira de Pequenas e Médias Empresas em Hamamatsu (Shizuoka), no dia 1º deste mês. “Quando me convidaram para participar, eu avisei que era um estilo muito tradicional, que é bonito, chamativo, mas achava que não iria agradar. Mesmo assim, me falaram para vir. E, para minha surpresa, a recepção foi além da minha expectativa. O público elogiou minha apresentação e demonstrou interesse em divulgar o meu trabalho. Saí da feira com convites para participar de coletâneas artísticas, com a possibilidade de me apresentar em Osaka. Com isso, deverei adaptar algumas músicas que agradem também aos ouvidos dos brasileiros”, disse.

Matheus revelou que seu principal objetivo hoje é herdar o legado de seu mestre Kazuo Shibutani e se tornar o maior músico de tsugaru shamisen no mundo. “Mas também quero ser uma ponte entre o Brasil e o Japão, para quem quiser estudar e tocar tsugaru shamisen”, finalizou.

Fotos: Matheus Bitencourt Oliveira/Cedidas

Serviço
Perfis e vídeos de Matheus Bitencourt Oliveira
 
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Facebook: https://www.facebook.com/matheus.bitencourt.18007
Instagram: https://www.instagram.com/shibutani_matheus/

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