O maior acidente nuclear da história completa 40 anos e ainda deixa marcas

2026/04/24 09:01
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Ucrânia – Quando o relógio marcou 1h23 do dia 26 de abril de 1986, o mundo testemunhou o maior acidente nuclear já registrado. Uma explosão na Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, que na época era parte da União Soviética, lançou uma nuvem radioativa na atmosfera. Não houve alarme. Os moradores da cidade de Pripyat, nas proximidades, só foram avisados para evacuar cerca de 36 horas depois. E as autoridades soviéticas só reconheceram oficialmente o acidente dois dias depois, após pressão internacional.

A explosão ocorreu no reator número 4 da usina, durante um teste de segurança que simulava uma falha no fornecimento de energia. A equipe pretendia avaliar se as turbinas poderiam continuar gerando eletricidade por alguns segundos até o acionamento dos geradores de emergência. No entanto, o procedimento foi conduzido em condições inadequadas, com sistemas de segurança desativados e o reator operando em nível instável. Falhas humanas, somadas a problemas estruturais do modelo RBMK, levaram a um aumento descontrolado de potência, seguido por duas explosões que destruíram o núcleo do reator.

Com o impacto, o reator ficou completamente exposto. Um incêndio teve início e durou dias, liberando grandes quantidades de material radioativo na atmosfera. Bombeiros foram enviados imediatamente ao local, sem saber do nível extremo de radiação. Muitos atuaram diretamente sobre o foco do incêndio e acabaram gravemente contaminados.

A liberação de material radioativo durou entre nove e dez dias. A nuvem contaminada se espalhou rapidamente, atingindo Belarus, Rússia e diversas regiões da Europa. A primeira detecção fora da União Soviética ocorreu na Suécia, onde uma usina nuclear registrou níveis anormais de radiação, o que levou à pressão internacional por explicações.

Rastro de morte e destruição

Para conter a radiação, uma grande operação foi montada. Helicópteros lançaram areia, chumbo, boro e argila sobre o reator destruído na tentativa de reduzir a liberação de partículas radioativas. Centenas de milhares de trabalhadores, conhecidos como “liquidadores”, foram mobilizados para atuar na limpeza e no controle da contaminação. Ainda em 1986, foi construído um sarcófago de concreto para isolar o reator. Décadas depois, uma nova estrutura de confinamento, mais moderna, foi concluída em 2016.

No impacto imediato, dois trabalhadores morreram na noite do acidente. Nas semanas seguintes, 28 pessoas morreram em decorrência da síndrome aguda da radiação. Já os efeitos de longo prazo são mais difíceis de quantificar. Organismos internacionais estimam que milhares de mortes adicionais por câncer estejam associadas à exposição, embora haja divergências entre estudos.

Milhares de pessoas adoeceram. Um dos efeitos mais evidentes foi o aumento de casos de câncer de tireoide, especialmente entre crianças expostas à radiação. Também foram registrados problemas cardiovasculares e impactos psicológicos significativos nas populações afetadas.

Cidade de Pripyat

Antes do acidente, a região ao redor da usina era densamente habitada. Além dos moradores de Pripyat, havia dezenas de vilarejos próximos. Ao todo, mais de 100 mil pessoas viviam na área diretamente afetada.

A evacuação tardia foi conduzida pelas autoridades locais, com apoio de militares e da polícia, utilizando cerca de 1.200 ônibus para o transporte dos moradores. No domingo (27), o aviso foi feito por alto-falantes na cidade, informando que a evacuação seria por “alguns dias”. As pessoas levaram apenas documentos, itens essenciais e comida. O pânico foi evitado, mas os moradores nunca mais puderam retornar.

A retirada durou poucas horas, mas a população não sabia exatamente o que havia ocorrido. A evacuação prosseguiu nos dias e semanas seguintes em outras áreas ao redor da usina, totalizando cerca de 350 mil pessoas deslocadas.

A demora do governo soviético em ordenar a evacuação fez com que muitos moradores fossem expostos à radiação sem qualquer orientação de proteção.

Zona de exclusão

Foi criada uma zona de exclusão com raio de aproximadamente 30 quilômetros, que permanece com acesso restrito até hoje. A cidade de Pripyat segue abandonada, com prédios, escolas e hospitais preservados como no momento da evacuação. Apesar da radiação, a natureza voltou a ocupar o espaço, com aumento da fauna selvagem.

Atualmente, ainda há pontos com níveis elevados de contaminação, exigindo monitoramento constante. Algumas áreas são consideradas seguras para visitas curtas, mas o risco permanece em regiões específicas.

Antes do acidente, o programa nuclear soviético operava sob forte sigilo, e falhas estruturais eram pouco divulgadas. Durante o episódio, a combinação de erro humano e limitações técnicas levou à explosão. Depois, o desastre provocou mudanças profundas na política nuclear mundial, com revisão de protocolos de segurança e maior transparência.

Chernobyl foi classificado como nível 7 na escala internacional de eventos nucleares, o mais alto existente. Décadas depois, apenas o acidente de Fukushima, em 2011, atingiu o mesmo nível, embora com características diferentes.

Quase quatro décadas depois, Chernobyl segue como símbolo dos riscos da energia nuclear mal gerida e das consequências duradouras de um acidente dessa magnitude.

Foto: Reprodução/IAEA

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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