Paulo Hashisaka mostra como licenças profissionais transformam carreiras no Japão

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Gunma – Paulo Hashisaka, 44 anos, vive no Japão há 25 anos e alcançou um patamar profissional que poucos conseguiram no país. Ele pode escolher onde trabalhar e definir seus rendimentos. Paulo não contou com sorte ou herança, mas seguiu uma estratégia que muitos estrangeiros no país deveriam considerar: a conquista de licenças e especializações para se destacar no mercado de trabalho a ponto de receber propostas profissionais vantajosas. Graças às suas qualificações, Paulo tornou-se professor na escola profissionalizante Kato, em Ota (Gunma), onde ensina alunos estrangeiros e japoneses a conquistarem novas oportunidades. O Portal Japão conversou com Paulo para que sua trajetória sirva de exemplo para quem deseja trilhar caminhos semelhantes.

Paulo nasceu como Paulo Henrique Ferreira dos Santos Hashisaka, filho de Nerli Ferreira dos Santos Hashisaka e de Isalto Hashisaka. “Eu tinha 19 anos de idade e meu pai me enviou do Japão uma carta com um bilhete contendo três palavras: chikin, bifu e toire. Eu não sabia do que se tratava. Só fui saber quando embarquei para o Japão”, recorda.

Era o ano 2000. No avião, durante a refeição, a comissária perguntou: “Chikin soretomo Bifu?”. Foi nesse momento que Paulo lembrou do bilhete escrito pelo pai. O fato curioso é que ele não entendia "chicken", de frango, mas sim "tiquim", uma redução de "tiquinho", que significa pouco. “Na hora percebi que se tratava de frango. Depois veio a refeição com bife e, em seguida, precisei usar o toire. Foi assim que comecei a aprender japonês, ainda no voo”, relata.

Aprender japonês

O desejo de aprender e praticar a língua japonesa era tão intenso que ele não permaneceu por muito tempo no primeiro emprego, onde convivia com muitos brasileiros. Conseguiu transferência para outra fábrica, dividindo o espaço com sua mãe e as colegas dela. Também não se demorou nessa função até conseguir uma vaga em uma fabricante de computadores. O plano inicial de Paulo era economizar dinheiro durante três anos, retornar ao Brasil e custear a faculdade de medicina. Além disso, não pretendia passar seus dias no Japão apenas realizando horas extras.

Durante sua permanência no país, ele adotou a disciplina de aprender uma palavra japonesa por dia, especialmente verbos. “Eu copiava a palavra em hiragana, katakana e kanji. Durante o dia, formava frases e perguntava aos colegas japoneses se estavam corretas. Como perceberam meu interesse, eles mesmos passaram a me ensinar vocabulário novo. Eu copiava os escritos de placas e pedia explicações ao meu chefe. Estudei tanto que hoje consigo ler livros sem dificuldade”, explica.

Operar empilhadeira

Sua primeira licença foi para operar empilhadeira, obtida em 2003. Esse foi o marco inicial de sua mudança profissional. “Um dia, meu chefe disse que eu deveria começar a ensinar os funcionários que chegavam, como brasileiros, latinos e até japoneses. Achei o pedido estranho, pois não me via como professor”, conta. Paulo questionou o motivo e ouviu do superior que ele possuía talento para o ensino. “Você nasceu para ensinar. Você consegue ler as pessoas e tem prazer em fazer de tudo para que elas entendam”, disse o chefe Kimura. “Eu não me percebia dessa forma. Às vezes é necessário que alguém aponte o talento que possuímos”, reconhece.

Contudo, Paulo mantinha o foco nos estudos e concluiu cursos de Design 3D, Computer-Aided Design (CAD) e outros. Já casado com Angélica Yamagishi Hashisaka e com a responsabilidade de sustentar os filhos Giovanna, Guilherme e Gabriel, ele trabalhava como motorista temporário fazendo entregas em Tóquio após as aulas. “Eu iniciava o trabalho à noite e terminava às 4h. Dormia um pouco e recomeçava o dia indo para os cursos”, lembra. O esforço rendeu resultados e ele passou a prestar serviços para diversas empresas japonesas.

Em um determinado momento, Paulo foi convidado a retornar para a fábrica do senhor Kimura. Ele aceitou por um período, mas comunicou ao chefe que buscaria novos rumos. Em 2016, uma amiga que editava uma revista solicitou que ele assumisse a publicação, pois ela retornaria ao Brasil para tratar da saúde. “Mudei o nome da revista para Impacto, pois queria que o conteúdo influenciasse as pessoas positivamente. Tudo o que eu aprendia de bom, eu publicava, inclusive os ensinamentos que obtive em cursos com Tony Robbins nos Estados Unidos, em 2015”, recorda. Paulo relata que sempre buscou entender o funcionamento da mente humana. Ele entendeu na prática o que é determinação quando decidiu obter a habilitação japonesa de condução sem intermediários, contrariando conselhos de amigos que sugeriam caminhos mais simples. “Após três meses, consegui a carteira”, afirma.

Trabalhar como professor

Antes de se tornar professor no centro de treinamento Kato, Paulo não trabalhava nesta empresa. “Eles me convidaram a iniciar esse centro junto com eles, que me conheceram através de um amigo que era funcionário lá”, explica. Então a empresa solicitou que ele obtivesse novas licenças para lecionar. Atualmente, ele possui licenças para operar empilhadeira, esmerilhadeira, máquinas de construção de grande porte e de demolição, solda, elevador traseiro de caminhão, amarração, guindaste de teto operado do solo, guindaste móvel, plataforma de trabalho aéreo e caminhões caçamba de grande porte, além de certificações em harnês de segurança e segurança no trabalho. Ele também foi aprovado no N2 do Teste de Proficiência em Língua Japonesa (JLPT) e prestará o exame para o nível N1 neste ano.

A escola pertence à Kato, então Paulo fundou sua própria empresa, a PH Cursos no Japão, para prestar serviços e ministrar aulas. Ele compartilha o ambiente docente com profissionais japoneses, incluindo ex-engenheiros. “Um deles comenta com satisfação que obtive uma das minhas licenças na primeira tentativa, enquanto ele precisou de três. Foi ele quem me levou para o local da prova em Chiba. Quando saiu o resultado, os outros professores confirmaram na internet e comemoraram comigo”, recorda.

Vantagens das licenças

Ao analisar sua trajetória, Paulo observa que quem possui licenças no Japão deixa de depender do acaso e ganha autonomia. “Consigo escolher onde trabalhar. Tenho gratidão pelos locais onde passei, mas sempre busco evolução. Saí do nível de reconhecimento e passei para o de recompensa, sendo remunerado de forma justa pelo que faço”, afirma.

O conselho de Paulo para os trabalhadores no Japão é o investimento em licenças e especializações. “Para se sobressair e obter melhores salários, é preciso seguir um caminho que exige esforço extra. Com uma licença, o ganho aumenta. Já recebi propostas de salário diário muito altas, que chegariam a mais de 1 milhão de ienes por mês. Estudar para conquistar uma licença é um investimento que muda a vida. Foque no estudo, ensine para aprender mais e inspire outras pessoas. Compartilhar é multiplicar”, finaliza.

Foto: Cedida

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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