Coreia do Norte fica com até 90% do salário de trabalhadores no exterior

Tóquio – A Coreia do Norte pode ter obtido até US$ 800 milhões em 2025 com o trabalho de cidadãos enviados ao exterior, principalmente para a China e a Rússia, segundo relatório divulgado pela Equipe Multilateral de Monitoramento de Sanções (MSMT), grupo formado por 11 países, entre eles Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, publicou a Kyodo.
O levantamento estima que entre 35,6 mil e 101,28 mil trabalhadores norte-coreanos estavam em pelo menos 17 países no fim de 2025. Eles teriam gerado entre US$ 450 milhões e US$ 800 milhões durante o ano. Segundo o relatório, o governo norte-coreano fica com cerca de 80% a 90% dos rendimentos obtidos pelos trabalhadores.
Dessa forma, os norte-coreanos enviados ao exterior se tornaram uma importante fonte de moeda estrangeira para o país. Segundo o MSMT, parte dos recursos é utilizada para financiar prioridades do governo, incluindo seus programas nuclear e de mísseis balísticos, em violação às resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A equipe afirmou ainda que as autoridades norte-coreanas mantêm uma “supervisão abrangente” sobre todas as etapas do envio de trabalhadores ao exterior. A movimentação dessas pessoas e o contato com indivíduos de fora são rigorosamente controlados, inclusive para evitar deserções.
O relatório aponta ainda que trabalhadores podem sofrer restrições de movimento e enfrentar ameaças de represálias contra familiares que permanecem na Coreia do Norte caso decidam abandonar seus postos.
Financiamento de programas militares
No caso norte-coreano, o MSMT afirma que os recursos gerados pelos trabalhadores enviados ao exterior contribuem para financiar programas nuclear e de mísseis balísticos de Pyongyang.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas determinou, por meio da Resolução 2397, que os países-membros repatriassem trabalhadores norte-coreanos que obtivessem renda no exterior até o fim de 2019. O objetivo era reduzir uma das fontes de moeda estrangeira do país.
Apesar disso, o relatório divulgado agora afirma que pelo menos 17 países ainda abrigavam trabalhadores norte-coreanos.
Na China, o MSMT estima que havia entre 20 mil e 70 mil trabalhadores no fim de 2025. O relatório também aponta aumento na utilização de vistos de curta duração, treinamento, educação e travessia de fronteira, mecanismos que teriam facilitado a entrada de novos trabalhadores.
Cerca de 10 mil novos norte-coreanos teriam entrado na China entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, segundo o levantamento.
Na Rússia, estavam entre 15 mil e 30 mil trabalhadores norte-coreanos. Eles atuavam em diferentes setores, incluindo construção, indústria, construção naval e defesa.
Alguns teriam sido empregados inclusive em fábricas responsáveis pela produção de drones militares utilizados pela Rússia em meio à guerra na Ucrânia.
O relatório aponta ainda que mais de 98% dos vistos concedidos pela Rússia a norte-coreanos em 2025 foram classificados como vistos de estudante. Segundo o MSMT, essa categoria estaria sendo utilizada em alguns casos para permitir atividades remuneradas.
Trabalhadores de TI
Entre os norte-coreanos enviados ao exterior há também profissionais de Tecnologia da Informação (TI). Esse setor permite que parte deles trabalhe remotamente para empresas estrangeiras, o que dificulta a identificação de sua verdadeira nacionalidade e de sua ligação com organizações norte-coreanas.
Segundo o relatório, trabalhadores norte-coreanos atuam ainda em construção, processamento de produtos, saúde, restaurantes e outros setores.
O documento afirma que os trabalhadores enviados ao exterior chegam a cumprir jornadas de 12 a 18 horas por dia, durante seis ou sete dias por semana.
Segundo o MSMT, entre 80% e 90% dos rendimentos são apropriados pelas autoridades norte-coreanas. Em alguns casos, os valores exigidos dos trabalhadores ultrapassariam seus próprios ganhos, fazendo com que terminassem endividados com o governo.
O relatório também descreve mecanismos utilizados para enviar o dinheiro à Coreia do Norte. Entre eles estariam instituições financeiras submetidas a sanções internacionais, transporte de dinheiro em espécie, veículos diplomáticos, malas diplomáticas e viajantes ligados a empresas norte-coreanas.
A Coreia do Norte rejeita acusações de que seus cidadãos enviados ao exterior sejam submetidos a trabalho forçado. Representantes do país já classificaram denúncias semelhantes apresentadas em organismos internacionais como tentativas de prejudicar a imagem do governo.
O MSMT, por sua vez, afirma que grande parte das informações utilizadas no levantamento foi obtida por meio de depoimentos de trabalhadores norte-coreanos atuais ou antigos, além de informações fornecidas pelos países integrantes do grupo e fontes abertas.
Além de Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, integram a Equipe Multilateral de Monitoramento de Sanções Austrália, Reino Unido, Canadá, França, Alemanha, Itália, Nova Zelândia e Países Baixos.
Semelhança com médicos cubanos
O modelo descrito no relatório sobre os trabalhadores norte-coreanos apresenta algumas semelhanças com o sistema de exportação de mão de obra utilizado por Cuba, inclusive durante a participação de médicos cubanos no Mais Médicos, programa criado no Brasil em 2013, durante o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Na ocasião, grande parte dos médicos cubanos não recebia diretamente do governo brasileiro o valor integral destinado às bolsas. O arranjo envolvia o governo brasileiro, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e o governo de Cuba.
O Tribunal de Contas da União (TCU) registrou que o dinheiro destinado às bolsas era transferido à Opas, que repassava os recursos ao governo cubano. Parte significativa do valor não chegava diretamente aos médicos.
Em análise realizada pelo TCU, foi registrado que mais de 75% de determinados valores destinados às bolsas dos profissionais cubanos ficavam sob controle do governo de Cuba. Um dos votos apresentados no Tribunal classificou como grave a retenção dos recursos destinados à remuneração dos profissionais.
O próprio TCU, no entanto, também concluiu que o Mais Médicos apresentou resultados relevantes na ampliação do atendimento à população e observou que parte das questões envolvendo a remuneração dos cubanos dizia respeito às relações entre Cuba e a Opas.
Veja alguns pontos de comparação:
| Aspecto | Médicos cubanos no exterior | Trabalhadores norte-coreanos |
| Trabalhadores enviados pelo Estado | Sim | Sim |
| Governo de origem recebe/controla parte da remuneração | Sim | Sim |
| Trabalhador não recebe integralmente o valor pago pelo país contratante | Documentado | Documentado no relatório citado |
| Geração de divisas para o governo | Sim | Sim |
| Controle sobre os trabalhadores no exterior | Há denúncias documentadas | Relatório descreve controle rigoroso |
| Restrições e sanções em caso de abandono | Há relatos e normas contestadas | Relatório descreve medidas para evitar deserções |
| Objetivo declarado | Cooperação e exportação de serviços profissionais | Trabalho no exterior e geração de receitas |
| Destinação alegada dos recursos para programas nuclear/mísseis | Não | Sim, segundo o grupo de monitoramento |
Durante décadas, Cuba transformou a exportação de serviços profissionais, principalmente na área médica, em uma importante fonte de divisas. Em relatório de 2024, o Departamento de Estado dos Estados Unidos citou estimativas de especialistas segundo as quais esse tipo de exportação rendia entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões por ano ao governo cubano.
O próprio documento norte-americano também registrou dados oficiais de Cuba segundo os quais a exportação de serviços médicos gerou US$ 4,9 bilhões em 2022, dentro de um total de US$ 7 bilhões obtidos com exportações de serviços.
Cuba rejeita acusações de trabalho forçado em suas missões internacionais e sustenta que a participação dos profissionais é voluntária. Há também participantes que relatam que as missões proporcionam remuneração superior à disponível no próprio país.
Fontes: Kyodo News, Equipe Multilateral de Monitoramento de Sanções (MSMT), Tribunal de Contas da União (TCU), Departamento de Estado dos Estados Unidos e Nações Unidas.
Foto: Canva
A capital da Coreia do Norte, Pyongyang







































