Ciberataques batem recorde no Japão: o que está por trás da onda

2026/11/06 19:40
Técnica observa gráficos de tráfego em monitores numa sala de operações de segurança, à noite
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Em outubro de 2026, os sites protegidos pela empresa japonesa de segurança Cyber Security Cloud registraram cerca de 475 milhões de ataques, o maior número já registrado pela empresa. Segundo a agência Kyodo, que divulgou o dado em 5 de novembro, é 2,5 vezes o volume de outubro de 2025. E o número chega no meio de uma sequência de vazamentos que não sai do noticiário japonês.

Moro no Japão há 30 anos e, em TI, já sou quase um dinossauro. Mesmo assim, confesso que a sequência de notícias deste outono me assustou. Por isso, em vez de só repassar o número, resolvi juntar as peças: o que entra nessa conta, quem está atacando, onde a IA aparece e o que dá para fazer.

Para quem tem pressa

  • O volume de ataques disparou. Os 475 milhões de outubro superam em cerca de 21 milhões o recorde anterior, de setembro de 2026. Do lado da polícia, os casos de ransomware no primeiro semestre também foram os mais altos já registrados.
  • A maior parte é "bater na porta". Mais da metade do que se conta como ataque é varredura automática atrás de falhas. Não é invasão, mas é o que vem antes dela.
  • A IA está barateando o ataque. A polícia japonesa já prendeu quem criou ransomware com ajuda de IA, e uma ferramenta de ataque com IA foi encontrada na infraestrutura de quem mirou empresas japonesas.

Como chegamos aqui?

A curva é o que mais chama a atenção. Pela contagem da Cyber Security Cloud citada pela Kyodo, os ataques ficaram entre 100 e 299 milhões por mês de janeiro de 2025 a maio de 2026. Em junho de 2026, pularam para a casa dos 400 milhões. O relatório trimestral da empresa detalha o que veio depois: cerca de 290 milhões em julho, 330 milhões em agosto e 450 milhões em setembro. No dia 26 de setembro foram cerca de 21,42 milhões de ataques num só dia, o equivalente a uns 248 por segundo.

Enquanto isso, os vazamentos foram aparecendo um atrás do outro:

  • A SourceNext, de software, informou em 15 de outubro que um invasor usou de forma indevida uma API (a "porta" pela qual os sistemas trocam dados) de informações de membros e levou dados de 22.519.960 registros de clientes.
  • O app oficial da rede de churrascarias Yakiniku King (焼肉きんぐ) teve 10.788.963 cadastros vazados, de um total de 10.808.784 usuários. O acesso indevido foi detectado em 2 de outubro.
  • A transportadora Sagawa Express (佐川急便) falou em até 53,23 milhões de registros de etiquetas de envio vazados, de 21 de junho a 30 de setembro, pelo serviço de rastreamento de encomendas. A empresa avisa que há muita duplicidade e que o número "não indica a quantidade de pessoas" (tradução livre).

Somando tudo, a conta é assustadora. Segundo a Impress Watch, num documento distribuído na reunião da Comissão de Proteção de Informações Pessoais (PPC) de 28 de outubro, os dados pessoais vazados entre 1º de abril e 16 de outubro de 2026 chegaram a cerca de 260 milhões de pessoas, em contagem que soma vários serviços e repete a mesma pessoa. E outubro já respondia por cerca de 40% dos comunicados de vazamento do ano fiscal.

E teve o caso da GMO, que contamos em detalhe aqui no Portal Japão: invasão de servidores de clientes, contas de corretora operadas por terceiros e um pedido de resgate de US$ 50 milhões, recusado pela empresa. A GMO chegou a pedir ao governo que aplicasse a nova lei de defesa cibernética ativa, o que seria o primeiro caso. Retomo esse assunto mais abaixo.

Mas o que conta como "ataque"?

Aqui vale parar um pouco, porque "475 milhões de ataques" assusta, mas precisa de contexto.

A Cyber Security Cloud vende um WAF (firewall de aplicação web: um filtro que fica na frente do site e barra pedidos suspeitos) chamado 攻撃遮断くん (Kōgeki Shadan-kun, algo como "o bloqueador de ataques", tradução livre). Segundo a Kyodo, a empresa protege cerca de 20 mil sites, a maioria de empresas japonesas. O número é a soma das tentativas suspeitas que os filtros da empresa registraram. Ou seja, é a amostra de uma empresa, não o total do país.

No terceiro trimestre, a divisão foi esta, pelo relatório da empresa:

  • Varredura na web (Web scan), 53,1%. Robôs que passam pela internet inteira testando se o site tem alguma falha conhecida ou algum arquivo de configuração exposto. O próprio relatório avisa que essa conta inclui pedidos de exploração que não resultaram em invasão.
  • Injeção de SQL, 10,3%. O invasor esconde um comando no campo de um formulário para mexer no banco de dados que fica por trás do site. Se der certo, pode levar a vazamento de dados pessoais. Esse tipo subiu de cerca de 26,38 milhões em julho para 47,28 milhões em setembro, cerca de 1,8 vez.
  • Cross-site scripting (6,6%) e acessos com identificação falsa de navegador (6,5%), entre outros.

Gosto de pensar na varredura como alguém que passa pela rua testando a maçaneta de todas as portas. A maioria está trancada. O problema é que ele testa milhões de portas por dia, e basta uma aberta.

Ilustração de um corredor com muitas portas fechadas e figuras testando as maçanetas; só uma porta está entreaberta
A maior parte dos "ataques" contados é varredura automática atrás de uma porta aberta. Imagem ilustrativa gerada por IA

A janela entre a correção e o ataque

Um exemplo do próprio mês ajuda a entender a velocidade disso. Em 22 de setembro de 2026 saiu a correção de uma falha grave no WordPress, sistema muito usado para criar sites e blogs. No dia da publicação, a Cyber Security Cloud viu 17 endereços IP atacando essa falha. Em 27 de setembro, eram 5.212, cerca de 300 vezes mais. Em sete dias, foram 11.466 endereços de 153 países.

A lição que a empresa tira é direta: os atacantes mandam o ataque para todo mundo, sem nem verificar se o site atende às condições da falha. Quem pensa "meu site não deve ser alvo" está fazendo a conta errada.

E a polícia, o que vê?

O relatório semestral da Agência Nacional de Polícia (警察庁, Keisatsuchō), publicado em setembro de 2026, confirma a tendência por outro ângulo:

  • As tentativas de busca por falhas captadas pelos sensores da polícia chegaram a 13.687 por dia por endereço IP, alta de 50,7% em um ano, a maior parte vinda do exterior.
  • Foram 123 casos de ransomware (o programa que sequestra os arquivos e cobra resgate) no primeiro semestre de 2026, recorde desde que a contagem começou, no segundo semestre de 2020.
  • Pequenas e médias empresas são cerca de 60% das vítimas de ransomware.
  • Em cerca de metade dos casos, a porta de entrada foi o equipamento de VPN, aquele que permite ao funcionário acessar a rede da empresa de fora, explorado por falha sem correção ou senha vazada.

E a IA nessa história?

A Kyodo escreveu que a automação de ataques por IA de alto desempenho "pode estar" por trás do aumento (tradução livre). Repare no "pode". Vamos ao que já está documentado.

Casos com prisão. O relatório da polícia traz dois. Um funcionário de empresa de 19 anos viu no noticiário que uma fabricante de bebidas tinha sido atacada por ransomware e resolveu fazer o seu para ganhar dinheiro. Em fevereiro de 2026, juntou código gerado com IA e montou o programa. Foi preso em junho. No outro, um estudante de 15 anos usou um programa de ataque ajustado com IA generativa para cancelar o cadastro de cerca de 46.800 contas de um serviço de streaming de vídeo.

O ataque que se adapta. Entre 18 de setembro e 8 de outubro, a Cyber Security Cloud observou um atacante que, em cerca de 40 minutos, usou 326 endereços IP e fez mais de 1.200 acessos tentando roubar dados de um site. O detalhe é o comportamento: era volume demais para uma pessoa, mas sem a regularidade de uma ferramenta comum. Quando uma tentativa falhava, ele mudava de tática. Por isso a empresa suspeita de um agente de IA (programa que decide sozinho o próximo passo). Mas ela mesma deixa claro que é uma dedução pelo comportamento, sem vestígio que prove o uso de IA.

Do lado de cá, a ferramenta tem nome. Ao investigar invasões contra empresas japonesas, a GMO Cybersecurity by IERAE, empresa de segurança do grupo GMO, encontrou na infraestrutura do atacante o ARTEX, um sistema de IA que faz testes de invasão (pentest, o ataque simulado e autorizado que empresas contratam para achar as próprias falhas) de forma autônoma. Ou seja, uma ferramenta feita para defender, usada para atacar. Aquela infraestrutura mirava cerca de 20 empresas japonesas. E, entre as empresas que a GMO identificou como alvo, oito já tinham anunciado vazamento em setembro e outubro.

Lá fora, a IA já fez quase todo o trabalho. Em novembro de 2025, a Anthropic, criadora do Claude, contou ter interrompido uma campanha de espionagem que atribui, "com alta confiança", a um grupo patrocinado pelo Estado chinês. Segundo a empresa, os atacantes manipularam a ferramenta Claude Code para tentar invadir cerca de 30 alvos, como grandes empresas de tecnologia, instituições financeiras e órgãos de governo, e conseguiram em alguns casos. A IA executou de 80% a 90% da campanha, com intervenção humana só em alguns pontos de decisão. No pico, fazia milhares de requisições, muitas vezes várias por segundo. A própria Anthropic registra um limite: a IA às vezes inventava credenciais ou dizia ter roubado informação que, na verdade, era pública.

E o governo japonês já assume o risco. Em 5 de novembro, o Escritório Nacional de Cibersegurança (国家サイバー統括室, Kokka Saibā Tōkatsu-shitsu) disse ser "alta a possibilidade" de que os atacantes usem IA para investigar e invadir os alvos (tradução livre). Segundo o órgão, a IA permitiu combinar falhas que, sozinhas, tinham sido avaliadas como de risco baixo, e com o ataque em grande escala ficando mais fácil, empresas de qualquer tamanho viraram alvo.

A polícia resume bem o risco: com a IA generativa, a barreira cai e mesmo quem não tem conhecimento técnico avançado passa a conseguir atacar. Isso se soma a um modelo que já existia, o RaaS (ransomware como serviço), em que um grupo aluga o programa e a estrutura para quem quiser atacar e fica com parte do resgate.

Quem ganha, quem perde?

Quem ataca ganha escala. Com RaaS, robôs de varredura e agora IA, um grupo pequeno consegue testar milhões de portas por dia. E a correção publicada vira, em poucos dias, um manual de ataque, como mostrou o caso do WordPress.

Pequenas e médias empresas perdem mais. São a maioria das vítimas de ransomware e, em geral, as que têm menos gente para atualizar equipamento de VPN no mesmo dia em que sai a correção.

O cliente paga sem ter feito nada. Quem tinha cadastro no app da churrascaria ou mandou uma encomenda pela transportadora entrou na estatística sem escolher. E dado vazado não volta: e-mail e telefone expostos viram matéria-prima para golpes.

As empresas de segurança, claro, vendem mais. Vale ter isso em mente ao ler os números: quem divulga a contagem de ataques é uma empresa que vende proteção contra eles. Isso não torna o dado falso, e ele bate com o que a polícia e a PPC mostram. Mas é bom saber de onde vem.

Minha leitura

Sinceramente, o número que mais me preocupa não é o de 475 milhões. É o de cinco dias: o tempo entre a correção do WordPress sair e os ataques se multiplicarem por 300. O atacante está cada vez mais rápido, e tenho a impressão de que muita empresa japonesa ainda atualiza sistema como quem marca reunião: com aprovação, carimbo e data no calendário. No caso da GMO, o próprio presidente do grupo admitiu que a correção de um problema já apontado pelos especialistas internos não foi profunda nem rápida o suficiente.

Sobre a IA, eu fico no meio do caminho, e assumo. Não acho que ela tenha inventado um tipo novo de ataque. Varredura, injeção de SQL e senha vazada são velhas conhecidas. O que muda é o custo: o que antes exigia um especialista agora sai mais barato, mais rápido e em maior volume. Para quem defende, isso quer dizer que fazer o básico bem feito, e rápido, nunca valeu tanto. E o próprio governo admite que, em vários dos vazamentos, foi justamente o básico que não estava bem feito, na empresa ou no fornecedor contratado por ela.

E tem um lado que me incomoda como morador. O Japão que eu admiro pela engenharia ainda guarda dados de dezenas de milhões de clientes de um jeito que permite que saiam numa única invasão. Não é falta de tecnologia. É prioridade.

E eu com isso?

Se você é usuário:

A Agência de Promoção de Tecnologia da Informação (IPA), ligada ao governo japonês, publicou em 26 de outubro um guia para quem teve dados vazados. O resumo:

  • Se a senha vazou, troque na hora no serviço afetado, e também em qualquer outro onde você usava a mesma senha.
  • Use senhas longas, complexas e diferentes em cada serviço.
  • Ative a verificação em mais de uma etapa (código por SMS, app autenticador) ou a passkey (chave de acesso que substitui a senha) onde houver.
  • Trate e-mail e SMS que chegam do nada como golpe e ignore.
  • Apague as contas que você não usa mais.

Para quem mora no Japão, o governo reuniu num site especial os canais de consulta e os alertas dos órgãos públicos sobre o assunto.

Se você tem uma empresa ou um site:

  • Atualize o equipamento de VPN e tudo o que fica exposto à internet assim que sair correção. A polícia japonesa recomenda também cuidar das senhas de acesso, manter backup e registros (logs) e ter um plano de continuidade para o caso de ataque, e avisar a polícia rápido se acontecer.
  • Treine quem atende o telefone. Desde o outono de 2024, a polícia vê criminosos que ligam para empresas fingindo tratar da renovação do internet banking, pedem um e-mail e depois mandam a mensagem falsa. O alvo são as contas bancárias da empresa.
  • Quem usa WordPress deve estar na versão 7.1.2 ou nas versões corrigidas 7.0.6, 6.9.9 ou 6.8.10. A falha atinge da 4.7.0 até a 7.1.1.
  • Não conte com "não somos alvo". O ataque chega para todos, sem filtro.

O que observar

Três frentes, com data:

  • O pacote de emergência. Em 6 de novembro, o governo aprovou um "pacote de medidas de emergência", segundo a agência Jiji. O texto reconhece que, em muitos vazamentos, as medidas básicas não eram suficientes, e diz que a IA criou uma época em que as brechas são exploradas "em pouco tempo e em grande escala" (tradução livre). Entre as medidas estão acelerar o estudo do bloqueio de sites que publicam dados vazados e enviar às empresas atacadas um "time de socorro cibernético" com especialistas do governo e do setor privado. No mesmo dia, o governo decidiu usar cerca de ¥10 bilhões da reserva do orçamento, para reforçar a segurança, dos quais cerca de ¥2 bilhões para checar com IA as falhas dos sistemas do próprio governo. O pacote saiu de uma reunião de ministros sobre cibersegurança, grupo cujo primeiro encontro, em 26 de outubro, foi convocado pela premiê Takaichi justamente por causa dos vazamentos.
  • A defesa cibernética ativa. Desde 1º de outubro de 2026, a lei permite que o governo acesse servidores usados em ataques e pare ou apague os programas maliciosos, e obriga as empresas de infraestrutura essencial a comunicar incidentes. Já o uso de dados de comunicação para detectar servidores de ataque só entra em vigor no outono de 2027. Ainda não se sabe se o governo vai atender o pedido da GMO.
  • Os próximos números. A contagem da Cyber Security Cloud subiu mês a mês de julho a outubro. Vale acompanhar se novembro e dezembro seguem a mesma linha ou se outubro foi o pico da onda.

Fontes

Um jovem senhor nascido em 1982, que vive no Japão desde 1996. Como muitos dekasseguis, passou boa parte da vida em fábricas dos mais variados setores. Na Hitachi, consertou PCs de clientes e liderou linha de produção. Na Hamanako Denso, foi operador de máquinas. Com a bagagem acumulada nesses anos, o domínio do japonês e os conhecimentos técnicos, fundou a Aliena LLC, empresa de tecnologia que atende clientes brasileiros e japoneses.

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