Cientistas da Universidade de Tóquio descobrem como o cérebro apaga memórias ruins

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Tóquio – A ideia de apagar lembranças dolorosas, que por muito tempo pertenceu apenas à ficção científica, começa a ganhar contornos reais com o avanço das pesquisas sobre o funcionamento do cérebro. Cientistas da Universidade de Tóquio e de outras instituições têm descoberto que esquecer não é um processo passivo, mas sim uma ação ativa do próprio organismo, que reorganiza informações para manter o equilíbrio mental.

Durante anos, acreditou-se que as memórias simplesmente desapareciam com o tempo. Hoje, a visão é diferente. O cérebro atua como um editor, decidindo o que manter e o que descartar. Esse processo exige energia e envolve mecanismos complexos que estão sendo cada vez mais compreendidos.

Uma das descobertas mais importantes dos cientistas japoneses mostra que o cérebro possui uma espécie de sistema de limpeza. Ele atua diretamente nas conexões entre os neurônios, enfraquecendo ou eliminando aquelas que sustentam determinadas lembranças. Em termos simples, é como se o cérebro desmontasse, peça por peça, a estrutura que mantém uma memória ativa.

Outra descoberta relevante indica que, para alterar ou apagar uma lembrança, ela precisa primeiro ser reativada. Esse momento funciona como uma janela de oportunidade. Quando a memória vem à tona, ela se torna temporariamente instável, podendo ser modificada. A pesquisa da Universidade de Tóquio mostra que, nesse instante, o cérebro decide se a lembrança será reforçada ou enfraquecida.

O ambiente também tem um papel importante nesse processo. Estudos sugerem que fatores externos, como a luz, podem influenciar a manutenção das memórias. Em experimentos com animais, a ausência de luz levou à perda de lembranças associadas a experiências negativas. Em outra linha de pesquisa, cientistas conseguiram usar luz para interferir diretamente na atividade de neurônios, reduzindo a força de determinadas memórias.

Há ainda um outro fator que explica por que algumas lembranças parecem impossíveis de apagar. Certas memórias ficam protegidas por uma espécie de camada de defesa no cérebro, o que dificulta qualquer alteração. No entanto, pesquisadores já conseguiram remover essa proteção em laboratório, tornando essas lembranças novamente acessíveis à mudança.

Com base nessas descobertas, começa a surgir um novo campo de tratamento que busca atuar diretamente sobre memórias traumáticas. A proposta envolve identificar a lembrança, torná-la instável e, em seguida, aplicar intervenções para enfraquecê-la ou eliminar seu impacto. Técnicas como estímulos magnéticos, uso de medicamentos e até simulações em realidade virtual já estão sendo estudadas com esse objetivo.

Alguns medicamentos conhecidos também estão sendo avaliados nesse contexto. Há substâncias que reduzem a carga emocional das lembranças, outras que dificultam a regravação da memória após sua reativação, e ainda aquelas que estimulam a formação de novas conexões no cérebro, ajudando a substituir circuitos antigos.

Apesar dos avanços, a possibilidade de apagar memórias levanta preocupações. Especialistas discutem até que ponto mexer nas lembranças pode afetar a identidade de uma pessoa. Afinal, experiências difíceis também fazem parte da construção individual e influenciam decisões, comportamentos e aprendizados ao longo da vida.

A ciência avança rapidamente nesse campo, mas ainda há um longo caminho até que essas técnicas sejam aplicadas de forma segura e ampla, já que testes em humanos estão em fase inicial. Enquanto isso, o debate segue aberto: até que ponto devemos interferir no que lembramos e no que esquecemos.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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