Universidade de Aichi prepara primeiro transplante de útero do Japão

Aichi — A Universidade Fujita de Ciências da Saúde, localizada em Toyoake, anunciou no final de outubro que pretende realizar o primeiro transplante de útero do Japão, procedimento que poderá permitir a gravidez e o nascimento de filhos em mulheres que nasceram sem esse órgão. A instituição apresentou um projeto de pesquisa clínica ao seu comitê de avaliação ética e pretende realizar a primeira cirurgia durante o ano fiscal de 2027, caso receba as autorizações necessárias.
O projeto foi apresentado oficialmente no dia 26 de outubro e divulgado em uma entrevista coletiva realizada dois dias depois. O responsável pela pesquisa é o professor Iori Kisu, especialista em Ginecologia e Obstetrícia.
Segundo a universidade, a fase inicial deverá envolver três mulheres com idades entre 20 e 39 anos.
O objetivo é avaliar a segurança e a viabilidade de transplantar um útero doado por outra mulher, permitindo que a receptora tente engravidar por meio de técnicas de reprodução assistida.
A proposta ainda não foi aprovada e não representa a disponibilização do procedimento como tratamento regular no Japão.
Quem poderá participar da pesquisa?
O estudo será destinado inicialmente a mulheres que nasceram sem útero ou apresentam determinadas condições médicas que tornam impossível a gestação nesse órgão.
Entre as possíveis participantes estão pacientes com síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, conhecida como síndrome de Rokitansky.
Essa condição congênita provoca alterações no desenvolvimento do útero e de estruturas relacionadas ao sistema reprodutor feminino.
Em muitas pacientes, os ovários funcionam normalmente, permitindo a produção de óvulos. Mas a ausência do útero impede que a mulher desenvolva uma gravidez em seu próprio corpo.
O transplante procura oferecer uma possibilidade de gestação para algumas dessas pacientes.
Outras mulheres que perderam o útero por razões médicas também poderão ser consideradas em pesquisas semelhantes, dependendo dos critérios estabelecidos.
Como funciona o transplante?
O procedimento envolve a retirada do útero de uma doadora e sua implantação no corpo da receptora.
No projeto da Universidade Fujita, as doadoras deverão ser mulheres que possuem vínculo familiar com as pacientes, como mães ou outras parentes.
A cirurgia exige a conexão de vasos sanguíneos para permitir o funcionamento do órgão transplantado.
Depois da operação, a paciente precisará receber acompanhamento médico para verificar a circulação sanguínea, as condições do útero e possíveis sinais de rejeição.
Como ocorre em outros transplantes de órgãos, será necessário utilizar medicamentos imunossupressores para reduzir a possibilidade de o organismo rejeitar o tecido recebido.
Porém, a situação apresenta uma particularidade importante. O útero não é um órgão essencial para manter a vida da paciente, e o objetivo do transplante é permitir uma gestação.
Por isso, os riscos do procedimento precisam ser avaliados cuidadosamente em relação aos benefícios esperados.
Gravidez dependerá de fertilização in vitro
Mesmo depois de receber um útero, a paciente não engravidará automaticamente. O projeto prevê a utilização de técnicas de fertilização in vitro.
Antes do transplante, os médicos deverão coletar óvulos da paciente e realizar a fertilização com espermatozoides de seu parceiro. Os embriões resultantes serão preservados por congelamento.
Depois do transplante, a equipe médica acompanhará a recuperação da paciente e verificará se o órgão está funcionando adequadamente.
Somente depois dessa avaliação os médicos poderão considerar a transferência de um embrião para o útero transplantado.
Se ocorrer a implantação e a gestação evoluir, a paciente precisará receber acompanhamento especializado durante toda a gravidez. A possibilidade de gravidez bem-sucedida não é garantida.
Primeira cirurgia poderá ocorrer em 2027
A Universidade Fujita criou em junho de 2026 um grupo de trabalho para examinar as condições necessárias à realização da pesquisa. Os especialistas discutiram questões médicas, cirúrgicas e éticas relacionadas ao procedimento.
Em 26 de outubro, o projeto foi encaminhado ao comitê interno responsável pela avaliação das pesquisas clínicas.
Segundo o professor Kisu, a intenção é realizar a primeira cirurgia durante o ano fiscal de 2027, que começa em abril do próximo ano. O procedimento, porém, dependerá da aprovação do projeto e do cumprimento das exigências aplicáveis.
A seleção das participantes também deverá ocorrer somente depois da autorização.
Por enquanto, a universidade não anunciou a realização de transplantes nem a abertura definitiva de inscrições para pacientes.
Custo poderá chegar a 25 milhões de ienes
Outro aspecto importante é o elevado custo do procedimento. Segundo a equipe médica, cada transplante poderá custar entre 20 milhões e 25 milhões de ienes.
O valor inclui procedimentos médicos complexos, mas os detalhes da composição dos custos ainda precisam ser estabelecidos.
Também não foi definido quanto desse montante poderá ser pago pelas pacientes.
Como o transplante ainda está em fase experimental no Japão, não é possível apresentá-lo como tratamento regularmente coberto pelo sistema público de seguro de saúde.
A definição das condições financeiras dependerá da organização da pesquisa e das regras aplicáveis.
Portanto, o anúncio dos custos não significa que as participantes necessariamente terão de pagar integralmente os valores apresentados.
Doadoras saudáveis também enfrentarão riscos
Uma das principais questões éticas está relacionada à retirada do útero de mulheres saudáveis.
Diferentemente de transplantes realizados para salvar a vida de uma pessoa, a cirurgia da doadora nesse caso não oferece um benefício médico direto à própria mulher que cede o órgão.
A operação exige procedimentos complexos e pode apresentar riscos de sangramento, infecção e outras complicações cirúrgicas.
Também existe a necessidade de avaliar cuidadosamente a liberdade da decisão da doadora.
Quando o órgão é oferecido por uma familiar, os médicos precisam garantir que a escolha seja voluntária e não decorra de pressões emocionais ou familiares.
Essas questões fazem parte das discussões éticas internacionais sobre transplantes de útero.
Receptoras precisarão utilizar imunossupressores
Outro desafio é evitar que o organismo rejeite o útero transplantado. Para isso, as pacientes precisarão utilizar medicamentos que reduzem a atividade do sistema imunológico.
Esses medicamentos são utilizados em diferentes tipos de transplantes, mas exigem acompanhamento médico devido aos possíveis efeitos adversos.
Durante uma eventual gravidez, a equipe precisará avaliar a segurança do tratamento para a mãe e para o desenvolvimento do bebê.
O procedimento também poderá exigir cirurgias adicionais e acompanhamento prolongado.
Por isso, o transplante de útero não pode ser considerado equivalente a uma gestação convencional.
A pesquisa deverá avaliar não apenas a possibilidade de engravidar, mas também os riscos envolvidos em todas as etapas.
Primeiro nascimento ocorreu na Suécia em 2014
O transplante de útero já foi realizado em outros países. O primeiro nascimento de uma criança depois de um transplante desse tipo foi registrado na Suécia, em 2014.
Desde então, diferentes equipes médicas passaram a estudar a técnica e realizar procedimentos em programas clínicos especializados.
Os resultados internacionais demonstraram que a gravidez pode ser possível depois do transplante. A técnica continua exigindo recursos médicos avançados, profissionais especializados e acompanhamento rigoroso.
Os estudos também precisam avaliar as consequências de longo prazo para receptoras, doadoras e crianças nascidas depois desses procedimentos.
Japão começou a discutir autorização em 2021
Em julho de 2021, uma comissão da Associação Médica Japonesa apresentou um relatório considerando aceitável a realização de pesquisas clínicas limitadas sobre transplantes de útero.
A avaliação não representou autorização automática para a realização de cirurgias. O documento destacou a necessidade de critérios rigorosos de segurança, acompanhamento médico e avaliação ética.
A proposta apresentada pela Universidade Fujita segue essa linha de pesquisa.
A instituição pretende reunir informações sobre a viabilidade do procedimento no Japão antes que ele possa ser considerado uma alternativa terapêutica mais amplamente disponível.
Pesquisa poderá representar avanço científico em Aichi
A Universidade Fujita de Ciências da Saúde é uma instituição médica localizada em Toyoake, na província de Aichi, próxima à região metropolitana de Nagoya.
A possível realização do primeiro transplante de útero do país poderá colocar a instituição entre os centros japoneses envolvidos no desenvolvimento dessa técnica. O projeto ainda está em fase de avaliação.
Não existe garantia de que as cirurgias serão autorizadas no prazo pretendido nem de que os transplantes resultarão em gravidez ou nascimento.
A equipe médica deverá acompanhar os resultados e divulgar as informações obtidas durante a pesquisa conforme os procedimentos científicos aplicáveis.
Fontes: Kyodo, Jiji Press
Foto: Canva








































