Universidade de Aichi prepara primeiro transplante de útero do Japão

2026/10/30 09:45
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Aichi — A Universidade Fujita de Ciências da Saúde, localizada em Toyoake, anunciou no final de outubro que pretende realizar o primeiro transplante de útero do Japão, procedimento que poderá permitir a gravidez e o nascimento de filhos em mulheres que nasceram sem esse órgão. A instituição apresentou um projeto de pesquisa clínica ao seu comitê de avaliação ética e pretende realizar a primeira cirurgia durante o ano fiscal de 2027, caso receba as autorizações necessárias.

O projeto foi apresentado oficialmente no dia 26 de outubro e divulgado em uma entrevista coletiva realizada dois dias depois. O responsável pela pesquisa é o professor Iori Kisu, especialista em Ginecologia e Obstetrícia.

Segundo a universidade, a fase inicial deverá envolver três mulheres com idades entre 20 e 39 anos.

O objetivo é avaliar a segurança e a viabilidade de transplantar um útero doado por outra mulher, permitindo que a receptora tente engravidar por meio de técnicas de reprodução assistida.

A proposta ainda não foi aprovada e não representa a disponibilização do procedimento como tratamento regular no Japão.

Quem poderá participar da pesquisa?

O estudo será destinado inicialmente a mulheres que nasceram sem útero ou apresentam determinadas condições médicas que tornam impossível a gestação nesse órgão.

Entre as possíveis participantes estão pacientes com síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, conhecida como síndrome de Rokitansky.

Essa condição congênita provoca alterações no desenvolvimento do útero e de estruturas relacionadas ao sistema reprodutor feminino.

Em muitas pacientes, os ovários funcionam normalmente, permitindo a produção de óvulos. Mas a ausência do útero impede que a mulher desenvolva uma gravidez em seu próprio corpo.

O transplante procura oferecer uma possibilidade de gestação para algumas dessas pacientes.

Outras mulheres que perderam o útero por razões médicas também poderão ser consideradas em pesquisas semelhantes, dependendo dos critérios estabelecidos.

Como funciona o transplante?

O procedimento envolve a retirada do útero de uma doadora e sua implantação no corpo da receptora.

No projeto da Universidade Fujita, as doadoras deverão ser mulheres que possuem vínculo familiar com as pacientes, como mães ou outras parentes.

A cirurgia exige a conexão de vasos sanguíneos para permitir o funcionamento do órgão transplantado.

Depois da operação, a paciente precisará receber acompanhamento médico para verificar a circulação sanguínea, as condições do útero e possíveis sinais de rejeição.

Como ocorre em outros transplantes de órgãos, será necessário utilizar medicamentos imunossupressores para reduzir a possibilidade de o organismo rejeitar o tecido recebido.

Porém, a situação apresenta uma particularidade importante. O útero não é um órgão essencial para manter a vida da paciente, e o objetivo do transplante é permitir uma gestação.

Por isso, os riscos do procedimento precisam ser avaliados cuidadosamente em relação aos benefícios esperados.

Gravidez dependerá de fertilização in vitro

Mesmo depois de receber um útero, a paciente não engravidará automaticamente. O projeto prevê a utilização de técnicas de fertilização in vitro.

Antes do transplante, os médicos deverão coletar óvulos da paciente e realizar a fertilização com espermatozoides de seu parceiro. Os embriões resultantes serão preservados por congelamento.

Depois do transplante, a equipe médica acompanhará a recuperação da paciente e verificará se o órgão está funcionando adequadamente.

Somente depois dessa avaliação os médicos poderão considerar a transferência de um embrião para o útero transplantado.

Se ocorrer a implantação e a gestação evoluir, a paciente precisará receber acompanhamento especializado durante toda a gravidez. A possibilidade de gravidez bem-sucedida não é garantida.

Primeira cirurgia poderá ocorrer em 2027

A Universidade Fujita criou em junho de 2026 um grupo de trabalho para examinar as condições necessárias à realização da pesquisa. Os especialistas discutiram questões médicas, cirúrgicas e éticas relacionadas ao procedimento.

Em 26 de outubro, o projeto foi encaminhado ao comitê interno responsável pela avaliação das pesquisas clínicas.

Segundo o professor Kisu, a intenção é realizar a primeira cirurgia durante o ano fiscal de 2027, que começa em abril do próximo ano. O procedimento, porém, dependerá da aprovação do projeto e do cumprimento das exigências aplicáveis.

A seleção das participantes também deverá ocorrer somente depois da autorização.

Por enquanto, a universidade não anunciou a realização de transplantes nem a abertura definitiva de inscrições para pacientes.

Custo poderá chegar a 25 milhões de ienes

Outro aspecto importante é o elevado custo do procedimento. Segundo a equipe médica, cada transplante poderá custar entre 20 milhões e 25 milhões de ienes.

O valor inclui procedimentos médicos complexos, mas os detalhes da composição dos custos ainda precisam ser estabelecidos.

Também não foi definido quanto desse montante poderá ser pago pelas pacientes.

Como o transplante ainda está em fase experimental no Japão, não é possível apresentá-lo como tratamento regularmente coberto pelo sistema público de seguro de saúde.

A definição das condições financeiras dependerá da organização da pesquisa e das regras aplicáveis.

Portanto, o anúncio dos custos não significa que as participantes necessariamente terão de pagar integralmente os valores apresentados.

Doadoras saudáveis também enfrentarão riscos

Uma das principais questões éticas está relacionada à retirada do útero de mulheres saudáveis.

Diferentemente de transplantes realizados para salvar a vida de uma pessoa, a cirurgia da doadora nesse caso não oferece um benefício médico direto à própria mulher que cede o órgão.

A operação exige procedimentos complexos e pode apresentar riscos de sangramento, infecção e outras complicações cirúrgicas.

Também existe a necessidade de avaliar cuidadosamente a liberdade da decisão da doadora.

Quando o órgão é oferecido por uma familiar, os médicos precisam garantir que a escolha seja voluntária e não decorra de pressões emocionais ou familiares.

Essas questões fazem parte das discussões éticas internacionais sobre transplantes de útero.

Receptoras precisarão utilizar imunossupressores

Outro desafio é evitar que o organismo rejeite o útero transplantado. Para isso, as pacientes precisarão utilizar medicamentos que reduzem a atividade do sistema imunológico.

Esses medicamentos são utilizados em diferentes tipos de transplantes, mas exigem acompanhamento médico devido aos possíveis efeitos adversos.

Durante uma eventual gravidez, a equipe precisará avaliar a segurança do tratamento para a mãe e para o desenvolvimento do bebê.

O procedimento também poderá exigir cirurgias adicionais e acompanhamento prolongado.

Por isso, o transplante de útero não pode ser considerado equivalente a uma gestação convencional.

A pesquisa deverá avaliar não apenas a possibilidade de engravidar, mas também os riscos envolvidos em todas as etapas.

Primeiro nascimento ocorreu na Suécia em 2014

O transplante de útero já foi realizado em outros países. O primeiro nascimento de uma criança depois de um transplante desse tipo foi registrado na Suécia, em 2014.

Desde então, diferentes equipes médicas passaram a estudar a técnica e realizar procedimentos em programas clínicos especializados.

Os resultados internacionais demonstraram que a gravidez pode ser possível depois do transplante. A técnica continua exigindo recursos médicos avançados, profissionais especializados e acompanhamento rigoroso.

Os estudos também precisam avaliar as consequências de longo prazo para receptoras, doadoras e crianças nascidas depois desses procedimentos.

Japão começou a discutir autorização em 2021

Em julho de 2021, uma comissão da Associação Médica Japonesa apresentou um relatório considerando aceitável a realização de pesquisas clínicas limitadas sobre transplantes de útero.

A avaliação não representou autorização automática para a realização de cirurgias. O documento destacou a necessidade de critérios rigorosos de segurança, acompanhamento médico e avaliação ética.

A proposta apresentada pela Universidade Fujita segue essa linha de pesquisa.

A instituição pretende reunir informações sobre a viabilidade do procedimento no Japão antes que ele possa ser considerado uma alternativa terapêutica mais amplamente disponível.

Pesquisa poderá representar avanço científico em Aichi

A Universidade Fujita de Ciências da Saúde é uma instituição médica localizada em Toyoake, na província de Aichi, próxima à região metropolitana de Nagoya.

A possível realização do primeiro transplante de útero do país poderá colocar a instituição entre os centros japoneses envolvidos no desenvolvimento dessa técnica. O projeto ainda está em fase de avaliação.

Não existe garantia de que as cirurgias serão autorizadas no prazo pretendido nem de que os transplantes resultarão em gravidez ou nascimento.

A equipe médica deverá acompanhar os resultados e divulgar as informações obtidas durante a pesquisa conforme os procedimentos científicos aplicáveis.

Fontes: Kyodo, Jiji Press

Foto: Canva

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