Veja como a qualificação em solda abriu as portas do mundo para esta brasileira

Austrália – Manu Barão morou 20 anos no Japão, tempo em que conquistou 20 licenças na área de solda, desbravando um setor majoritariamente masculino e enfrentando todo tipo de discriminação. Mas ela superou as dificuldades, montou uma escola e formou 700 novos soldadores. Agora ela decidiu colher os frutos de tanto esforço, trabalhando desde o final de janeiro em sua área em Sydney, na Austrália, onde o salário é mais atraente e o ritmo de vida é mais suave do que no Japão. Manu separou um tempo para contar a sua história ao Portal Japão, para mostrar que a qualificação de fato abre portas em qualquer lugar do mundo.
A Austrália não está apenas se mostrando como um mundo novo para Manuela Ondina Fontana Thomaz Barão, a Manu Barão, 45 anos, mas está servindo como contraponto para as dificuldades que ela encontrou quando morava no Japão. “Antes só se via anúncios procurando por soldadores. Depois que comecei a trabalhar na área e a formar soldadoras, a situação mudou”, diz. “Empresas parceiras preferem contratar soldadoras, porque elas tendem a trabalhar mais sério, sem faltar por ressaca. Como sabem que as condições para elas são difíceis, valorizam as oportunidades que têm”, acrescenta.
Mas não é só isso. Ela conta que quando sua empresa Manu Barão Treinamentos já tinha 7 anos, ela foi a um grande banco para abrir uma conta empresarial. “A atendente colocou tantos empecilhos, queria saber se eu falava bem japonês, entre outras coisas. Nunca havia sido tão humilhada antes. Na Austrália, no meu segundo dia, fui muito bem recebida em um banco, por uma atendente vietnamita e uma gerente iraquiana, mesmo sem dominar totalmente o inglês”, relata.
A decisão de se mudar para a Austrália também foi influenciada pela forma como o governo japonês vem lidando com os estrangeiros. “Apesar de o país necessitar de trabalhadores estrangeiros, não está fazendo melhorias suficientes para eles. Mesmo estando aqui agora, venho mantendo contato com brasileiros no Japão e tenho notado as dificuldades que a comunidade vem passando”, diz.
Emprego como soldadora

Manu Barão com algumas das turmas de novos soldadores (Foto: Cedida)
A lista de qualificação de Manu Barão nos três processos JWES JIS são estes: MIG MAG SA3 F P, MIG MAG INOX MA F V, TIG INOX TNF P, ELETRODO A2 FVH, TIG aço carbono T 1F P e ainda Conbination TIG + Eletrodo C2 FP. Embora as licenças que obteve no Japão não sejam válidas na Austrália, a longa experiência de Manu já lhe garantiu emprego em duas empresas, fora os serviços extras que faz. Em um emprego ela trabalha por três dias e no outro por dois dias. Os extras ficam por conta da recuperação de peças soldadas, onde ganha um pouco mais. “Entrei aqui sem ter as certificações próprias da Austrália, realizando um trabalho mais simples, mas estou ganhando praticamente o dobro da hora trabalhada que eu recebia no Japão”, explica.
O custo de vida em Sydney é mais alto, mas tem mais oportunidades de trabalho, segundo ela, que já está buscando certificações australianas. E o ambiente na cidade é muito mais alegre e menos preconceituoso. “Já fiz amizade com alguns australianos”, diz. “Outro dia, uma moça que eu não conhecia me sorriu e desejou ‘Happy Valentine’s Day’”, lembra.
Como chegou ao país há pouco mais de 20 dias, Manu se perdeu em uma estação de trem e pediu ajuda para uma moça que passava. A jovem perguntou de onde ela era, e a soldadora respondeu “Brasil”, esperando que ela fizesse fechasse a cara ou se afastasse, como já ocorreu no Japão. “Mas não. Ela disse que ama o Brasil e acabou me ajudando”, conta.
Na verdade, Manu Barão ainda não definiu se a Austrália será a sua nova morada. Mas ela não está perdendo tempo, pois já procurou uma empresa local para ver a possibilidade de montar um centro de treinamento, um lugar que forme bons profissionais mais rapidamente do que os já existentes no país. A sua empresa no Japão está sendo tocada pelos dois filhos, Thomaz, de 25, e Guilherme, de 26 anos, que foram justamente formados por ela. “O meu filho mais velho conseguiu o tanto de licenças que tenho em apenas cinco anos. E eu levei 20 anos, por não ter as informações que passo hoje para os alunos”, afirma.
Início foi difícil no Japão

A relação de Manu com a solda começou quando se separou do marido e, para sustentar os dois filhos, partiu para trabalhar com solda e ficar longe das horas extras nas linhas de produção das fábricas. Com as licenças que vinha conquistando, conseguiu trabalhos em Ehime, Hiroshima, Yamaguchi, Okayama, Chiba e finalmente Aichi. E quando Manu visitou a mãe convalescente no Brasil, no período em que esteve lá conseguiu trabalho na área. “A questão aqui é a qualificação. Não é o salário que te sustenta, mas é o que você faz de melhor. O seu sustento são as suas habilidades. Ninguém segura o nosso povo brasileiro, mas quem for trabalhar nessa área precisa ter determinação”, esclarece.
Entre os novos soldadores que formou no Japão estão brasileiros, árabes, espanhóis, filipinos, vietnamitas e japoneses. “Tem gente que veio para conhecer o mundo da solda e passaram a se dedicar mesmo, conseguindo bons trabalhos. Outros não seguiram a profissão. Por isso que digo que se você não se identifica, busque outra área onde possa se desenvolver melhor”, aconselha.
Um sonho a realizar

Obviamente que não foi tão simples chegar na Austrália e já encontrar um emprego. Ela teve que provar a experiência que acumulou no Japão, apresentando documentos, os certificados, os recibos de pagamento e até fotografias. “Sei que tem soldadores brasileiros aqui, mas são poucos. Então quero abrir uma escola aqui para dar a oportunidade de mais brasileiros trabalharem com solda. Eu comecei a buscar qualificação nesse setor porque estava na zona de conforto, mas não gostei muito dela. Hoje eu quero mudar a realidade dos brasileiros”, afirma.
Segundo Manu Barão, embora a especialização em solda seja bastante técnica, ao mesmo tempo ela é humana. “Uma mulher que ganhava por ano 3 milhões de ienes, após se tornar soldadora passou a ganhar 7 milhões de ienes anuais, resultando em uma melhoria para a vida dela e de sua família. Eu quero fazer isso na Austrália”, finaliza.
Fotos: Cedidas
Manu Barão







































