Queda da população ameaça sobrevivência de templos centenários no Japão

2026/09/18 09:02
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Tóquio – Alguns templos budistas centenários estão enfrentando dificuldades para se manter em meio às mudanças da sociedade japonesa. Alguns fecham as portas, outros são colocados à venda ou permanecem sem um sacerdote residente. Mas quais são os motivos por trás desse fenômeno?

No Japão, existem cerca de 77 mil templos budistas, mas as pressões financeiras e a redução do número de famílias ligadas a essas instituições fizeram com que aproximadamente 17 mil deles já não tenham um sacerdote residente em tempo integral. O problema é especialmente grave nas áreas rurais, onde a população diminui rapidamente, segundo a Deutsche Welle.

Um exemplo é um templo construído há cerca de 370 anos na Península de Chita, no centro do Japão. Com estrutura de madeira, telhado curvo, salão com tatames e altar ricamente decorado, o imóvel preserva diversas características da arquitetura tradicional japonesa.

O templo tem cerca de 350 metros quadrados e está à venda por 482 milhões de ienes. O preço inclui serviços incomuns no mercado imobiliário: a desmontagem da construção por artesãos especializados em patrimônio cultural e o transporte para qualquer ponto do Japão. No novo local, a estrutura poderá ser restaurada e até transformada em uma residência de dois ou três quartos.

Assim como esse templo, outros estão sendo vendidos, fechados ou permanecem abandonados, muitas vezes sem recursos suficientes para a manutenção dos edifícios.

Um caso diferente é o templo Ganshu-ji, em Odawara, na província de Kanagawa, a cerca de 80 quilômetros de Tóquio. O local estava abandonado, mas há cerca de uma década foi assumido por Tomomi Iwayama, que se tornou abade e conseguiu fazer crescer novamente a comunidade ligada ao templo.

Segundo Iwayama, o Ganshu-ji ficou 70 anos sem um abade devido às dificuldades para mantê-lo em funcionamento. Mesmo em Odawara, cidade com cerca de 200 mil habitantes, ele afirma que colocar as finanças do templo novamente em equilíbrio foi uma tarefa difícil.

Um dos principais problemas enfrentados pelos templos é o mesmo que atinge diversas áreas da sociedade japonesa: a queda da população. Nas comunidades que estão perdendo moradores, diminui também o número de famílias vinculadas aos templos. Como consequência, cai a procura por funerais, cerimônias memoriais e outros rituais que tradicionalmente ajudam a financiar essas instituições.

Uma das soluções encontradas por Iwayama foi oferecer espaços no cemitério administrado pelo templo. E também o “cemitério inteligente”. Nele, as famílias utilizam um cartão para que um sistema automatizado retire do columbário a urna com as cinzas do parente que será homenageado.

Nas áreas rurais, as dificuldades podem ser ainda maiores. Diante da falta de oportunidades de trabalho e estudo em pequenas cidades e vilarejos, muitos jovens se mudam para os grandes centros urbanos. Alguns retornam apenas ocasionalmente, principalmente durante cerimônias familiares, visitas aos túmulos e períodos tradicionais, como o Obon.

O problema também aparece quando o sacerdote-chefe de um templo envelhece ou se aposenta e os filhos não desejam sucedê-lo. Sem alguém para assumir suas funções e com uma comunidade cada vez menor para sustentar as despesas, alguns templos acabam ficando sem sacerdote e, posteriormente, podem fechar.

Esse cenário não ocorre apenas nos locais mencionados pela Deutsche Welle. Um estudo da Universidade de Shizuoka sobre templos de Hayakawa, uma pequena cidade montanhosa da província de Yamanashi, constatou que alguns deles estão sem sacerdote residente desde a década de 1960. Eles continuam sendo cuidados por moradores e por sacerdotes responsáveis por mais de um templo, mas o envelhecimento e a redução da população tornam cada vez mais difícil manter os edifícios e arrecadar dinheiro para eventuais reparos.

Outro estudo, publicado em 2026, analisou comunidades de Sakugi, na cidade de Miyoshi, província de Hiroshima. A pesquisa mostrou que filhos de moradores que deixaram a região ainda retornam para funerais, cerimônias memoriais, visitas aos túmulos e celebrações do Obon. Entretanto, a continuidade dessa ligação não está garantida: muitos não sabem se no futuro assumirão os túmulos, altares budistas e a relação mantida por seus pais com o templo da comunidade.

Mas os japoneses estão simplesmente deixando de ser religiosos?

Iwayama não acredita que essa seja a única explicação. Para ele, ainda existe interesse pelo budismo no Japão. O que está mudando é a maneira como as pessoas se relacionam com os templos.

Segundo o abade, a vida moderna está fortemente ligada à tecnologia, enquanto o budismo também pode oferecer uma maneira de refletir sobre a própria vida. Embora tenha diminuído a procura por funerais e outros rituais tradicionais, há pessoas interessadas em atividades como aulas de culinária, meditação e encontros promovidos pelos templos.

O jornalista e escritor americano Jake Adelstein, que está se preparando para se tornar sacerdote no templo Zenshoin, no distrito de Toshima, em Tóquio, também acredita que a situação não pode ser explicada apenas por uma suposta perda de religiosidade. Para ele, a diminuição da população e as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias também têm peso importante.

Adelstein afirma que a taxa anual de manutenção de um túmulo pode chegar a 100 mil ienes, enquanto cerimônias memoriais e outros rituais representam despesas adicionais para as famílias.

A possibilidade de atrair facilmente uma nova geração de jovens para a vida sacerdotal também enfrenta obstáculos. Segundo Adelstein, os templos muitas vezes proporcionam pouca renda, ao mesmo tempo em que a formação necessária para assumir suas funções exige grande dedicação. Em algumas regiões, templos já passaram a compartilhar o mesmo sacerdote como forma de continuar funcionando.

O próprio Zenshoin também busca ampliar sua ligação com a comunidade. O templo começou a oferecer aulas de culinária vegetariana e sessões de meditação zen, iniciativas que podem atrair pessoas que normalmente não procurariam o local apenas para participar de cerimônias religiosas.

Para Adelstein, embora seja difícil formar novos abades e a situação financeira de muitos templos seja complicada, essas instituições ainda desempenham um papel importante na sociedade japonesa.

O problema, portanto, não parece estar apenas na religião. O desaparecimento de templos está diretamente ligado a transformações mais amplas enfrentadas pelo Japão: menos habitantes, comunidades rurais cada vez menores, famílias espalhadas pelo país, mudanças na forma de realizar funerais e homenagear os antepassados e uma nova geração que já não mantém necessariamente a mesma relação que seus pais e avós tinham com os templos budistas.

Foto: Canva

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