Retomada dos ataques entre EUA e Irã eleva riscos para viagens e preços no Japão

2026/07/14 15:11
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Oriente Médio — Os Estados Unidos realizaram novos ataques contra instalações iranianas nesta terça-feira (14), atingindo sistemas de defesa costeira, bases de mísseis e drones e estruturas marítimas em áreas como Bandar Abbas, Bushehr, Chabahar, Jask e Konarak. O governo americano afirma que pretende reduzir a capacidade do Irã de atacar navios comerciais no Estreito de Ormuz. Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores do Japão mantém alertas devido à rápida deterioração da segurança regional. Mas quais poderão ser os impactos caso o conflito continue?

Até o momento, não há indicação de desabastecimento de combustíveis no Japão. Entretanto, o petróleo internacional já subiu, enquanto o fornecimento de nafta e de petróleo provenientes do Oriente Médio havia sido fortemente reduzido nos meses anteriores. Uma crise prolongada poderá aumentar os preços dos combustíveis, das passagens aéreas, dos alimentos, das embalagens e de diversos produtos industriais. O subsídio mantido pelo governo japonês deve retardar o impacto sobre o preço da gasolina, mas não elimina os custos econômicos da crise.

O governo iraniano respondeu com ataques contra instalações e interesses ligados aos Estados Unidos e seus aliados na região. Dois petroleiros vinculados aos Emirados Árabes Unidos foram atingidos no Estreito de Ormuz, causando a morte de um tripulante e deixando oito feridos. Também foram registrados ataques ou interceptações de mísseis no Bahrein e na Jordânia.

A retomada do conflito anulou os poucos avanços diplomáticos obtidos em junho, quando as partes assinaram um acordo. Durante esse período, os navios voltaram a circular pelo Estreito de Ormuz, levando muitos analistas a acreditar que haveria uma recuperação da produção e da distribuição de petróleo.

Consequências imediatas

O preço do barril de petróleo disparou. O Brent, utilizado como referência internacional, ultrapassou US$ 83 por barril na segunda-feira (13) e superou US$ 84 nas negociações desta terça-feira (14).

Foi o maior salto percentual diário desde 2020, embora a cotação ainda permaneça abaixo dos quase US$ 120 registrados no auge da crise iniciada em fevereiro.

Entre as outras consequências imediatas estão o aumento dos riscos para petroleiros e navios comerciais, a possibilidade de suspensão de voos para países do Golfo e o encarecimento dos seguros marítimos e aéreos.

Há também o risco de ampliação do conflito para países que abrigam forças americanas, como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Catar e Jordânia.

Nas bolsas de valores poderá haver aumento da volatilidade, pressão sobre as moedas de países importadores de energia, como o Japão, e adiamento de investimentos e contratos no Oriente Médio.

O Ministério das Relações Exteriores do Japão mantém alertas para Irã, Israel, Emirados Árabes Unidos, Omã, Catar, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein, Jordânia, Iraque, Líbano e territórios palestinos.

O governo recomenda que os viajantes acompanhem a situação dos voos e as informações de segurança, evitem instalações militares e não fotografem bases, ataques ou estruturas danificadas, pois essas ações podem resultar em detenção pelas autoridades locais.

O conflito também poderá afetar passageiros que utilizam os grandes aeroportos da região em viagens entre Japão, Brasil e Europa, além de ampliar os aumentos de preços observados desde o início da crise.

Bloqueio no Estreito de Ormuz

O governo dos Estados Unidos anunciou a retomada do bloqueio aos portos iranianos, e não um bloqueio indiscriminado de todos os navios que atravessam o Estreito de Ormuz.

O presidente Donald Trump afirmou que outros países continuariam tendo acesso ao estreito, mas que os Estados Unidos cobrariam uma compensação equivalente a 20% do valor das cargas pela proteção e segurança oferecidas aos navios.

Não foram apresentados detalhes jurídicos ou operacionais sobre essa cobrança. Especialistas observam, porém, que uma taxa desse tipo poderia contrariar as normas tradicionais de liberdade de navegação.

Mesmo sem um fechamento formal e completo do estreito, ataques, minas, drones e ameaças podem afastar armadores. As empresas poderão decidir não atravessar a região caso considerem que o risco de perder um navio, a carga ou a tripulação supera o lucro da viagem.

Antes da nova escalada, a circulação estava começando a se recuperar. Entre 29 de junho e 5 de julho, passaram pelo estreito, em média, 32 navios por dia, diante de uma média de 15,3 embarcações por dia em junho. A retomada dos ataques coloca essa recuperação em dúvida.

Quais riscos o Japão corre?

Com base no volume de reservas divulgado pelo governo e nas liberações de petróleo já anunciadas, o risco de uma falta generalizada e imediata de gasolina, diesel ou querosene no Japão parece limitado. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de aumentos de preços ou de dificuldades de abastecimento caso o conflito se prolongue.

O governo vinha afirmando que o país mantinha, no início de 2026, reservas de petróleo equivalentes a cerca de oito meses de consumo, considerando os estoques governamentais e privados e as reservas conjuntas mantidas com países produtores.

Recentemente, o governo liberou cerca de 8,5 milhões de quilolitros, volume equivalente a aproximadamente um mês de consumo. Posteriormente, anunciou uma segunda liberação, de cerca de 5,8 milhões de quilolitros.

Essas reservas permitem manter as refinarias funcionando enquanto o Japão busca petróleo em países que não dependem do Estreito de Ormuz, como Estados Unidos, Brasil, Canadá, México e produtores africanos.

No curto prazo, o cenário mais provável não é a falta de gasolina nos postos, mas:

  • aumento dos custos de importação;
  • pressão sobre as reservas nacionais;
  • necessidade de comprar petróleo mais caro e proveniente de regiões mais distantes;
  • aumento do custo do transporte marítimo;
  • possibilidade de restrições ou pedidos de economia caso a crise se prolongue por vários meses.

A margem de segurança do Japão continua relevante, mas já é menor do que no início da crise, pois parte dos estoques começou a ser utilizada.

Ainda não é possível afirmar que o reinício do conflito tenha provocado consequências nos preços cobrados pelos postos japoneses nos últimos dois dias. O impacto costuma aparecer com algum atraso, pois o petróleo precisa ser comprado, transportado, refinado e distribuído. A cotação do iene também interfere no valor final.

O governo mantém um programa emergencial de subsídios para limitar o preço médio da gasolina comum a aproximadamente ¥170 por litro. Antes da implantação da medida, o preço médio havia alcançado ¥190,8 por litro em 16 de março. Em 1º de junho, estava em ¥169,5 por litro, principalmente devido ao subsídio.

O levantamento referente a segunda-feira (13) será publicado pela Agência de Recursos Naturais e Energia nesta quarta-feira (15). Somente depois dessa divulgação será possível verificar a tendência mais recente nos postos.

Mesmo assim, o levantamento provavelmente ainda não refletirá integralmente a disparada do petróleo provocada pelos ataques desta semana.

Caso a cotação internacional permaneça acima de US$ 80 ou volte a se aproximar de US$ 100, o governo japonês terá duas opções principais: elevar o valor do subsídio pago às distribuidoras ou permitir que parte do aumento seja repassada ao consumidor.

O subsídio evita uma alta imediata nos postos, mas transfere o custo para o orçamento público.

E a nafta?

A situação da nafta é mais delicada do que a da gasolina, pois o produto é amplamente utilizado pela indústria petroquímica.

A nafta serve como matéria-prima para a fabricação de etileno, propileno, resinas, plásticos, borracha sintética, tintas, solventes, fibras, embalagens e diversos componentes industriais.

O fornecimento do produto já havia sido afetado no mercado japonês. Somente em maio, as importações japonesas de nafta provenientes do Oriente Médio caíram 95,3% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

A redução total das importações, considerando todas as regiões, foi menor, de 9,1%, porque empresas japonesas conseguiram adquirir o produto de fornecedores alternativos.

Caso o Japão precise buscar nafta em mercados mais distantes, haverá custos maiores com frete e seguro, além de dificuldades relacionadas à disponibilidade do produto. Outros países, como China e Coreia do Sul, também dependem da importação de nafta e disputarão os mesmos fornecedores.

Entre os produtos que poderão ser afetados por uma eventual escassez de nafta estão:

  • embalagens de alimentos e bebidas;
  • sacolas e filmes plásticos;
  • peças de automóveis;
  • eletrodomésticos;
  • materiais utilizados na construção civil;
  • roupas e fibras sintéticas;
  • produtos médicos descartáveis;
  • fraldas e produtos de higiene;
  • fertilizantes e insumos agrícolas;
  • componentes eletrônicos e materiais utilizados na produção de semicondutores.

O impacto não será imediato. Primeiro, atingirá as empresas responsáveis pela importação e distribuição do produto. Em seguida, poderá chegar aos fabricantes e, finalmente, ser repassado aos consumidores.

Outros possíveis efeitos no Japão

Alimentos

O diesel mais caro aumenta o custo do transporte rodoviário. O óleo combustível afeta os navios de pesca e as embarcações comerciais.

A nafta e outros derivados de petróleo também são utilizados na fabricação de fertilizantes, embalagens, estruturas para estufas agrícolas e materiais de conservação. Isso poderá elevar os preços de verduras, frutas, peixes, alimentos congelados e produtos importados.

Entregas e comércio eletrônico

As transportadoras poderão revisar tarifas ou acrescentar sobretaxas. As empresas de entrega enfrentarão custos maiores com diesel e manutenção, enquanto as embalagens plásticas e os materiais de proteção também poderão encarecer.

Aviação

O preço do querosene de aviação é diretamente afetado pela cotação do petróleo. As companhias aéreas poderão aumentar as sobretaxas de combustível, reduzir voos para o Oriente Médio ou modificar rotas para evitar áreas consideradas perigosas.

Eletricidade e gás

A exposição japonesa ao gás natural liquefeito (GNL) é menor do que a dependência do petróleo. Aproximadamente 10% do GNL importado pelo Japão vem do Oriente Médio.

Em março, as empresas de eletricidade e gás mantinham quase quatro milhões de toneladas do produto em estoque, quantidade equivalente a cerca de um ano das importações de GNL que normalmente passam pelo Estreito de Ormuz.

Dessa forma, uma falta imediata de gás ou eletricidade é considerada menos provável. Entretanto, uma corrida mundial por cargas alternativas de GNL poderá elevar os preços no mercado internacional e pressionar as contas de energia nos meses seguintes.

Iene e inflação

O Japão precisa comprar petróleo em dólares. Caso o conflito fortaleça a moeda americana e enfraqueça o iene, o país sofrerá um efeito duplo: petróleo mais caro no mercado internacional e custo maior na conversão para a moeda japonesa.

Esse cenário poderá dificultar o controle da inflação e reduzir o poder de compra das famílias.

Indústria automobilística

A indústria automotiva depende de resinas, borrachas sintéticas, tintas, solventes, componentes plásticos e transporte marítimo.

Uma interrupção prolongada poderá provocar atrasos na produção e aumento dos preços das peças, mesmo que as montadoras continuem tendo acesso a petróleo e eletricidade.

Foto: Reprodução/LiveNow fromFox

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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