Por que até a polícia e os bombeiros têm mascotes no Japão?

Tóquio – Um detalhe curioso da cultura japonesa é a presença de mascotes em praticamente todo lugar. Eles estão em prefeituras, polícias, corpos de bombeiros, associações, empresas e eventos. O que pode parecer apenas uma brincadeira também funciona como uma ferramenta de comunicação, usada para aproximar instituições da população e transmitir mensagens de forma mais amigável.
Para um estrangeiro recém-chegado ao Japão, pode parecer estranho encontrar um boneco sorridente em uma delegacia, repartição pública, campanha sobre impostos, folheto de prevenção a terremotos ou prefeitura. Para os japoneses, porém, esses personagens muitas vezes exercem uma função bastante séria.
O uso é tão disseminado que, em 2014, no auge do antigo Yuru-Chara Grand Prix, a competição nacional recebeu 1.699 inscrições, sendo 1.168 de personagens regionais e 531 de empresas. No ano seguinte, foram 1.727 participantes, dos quais 635 pertenciam à categoria empresarial.
Esses números representam apenas os personagens inscritos no concurso, e não o total de mascotes existentes no Japão. Não existe um levantamento oficial que reúna todos eles, mas os registros disponíveis mostram que são milhares espalhados pelo país.
Os primeiros
A febre dos mascotes não começou nos anos 2000. Um exemplo conhecido é Pipo-kun (ピーポくん), mascote da Polícia Metropolitana de Tóquio, criado em 17 de abril de 1987.
A própria polícia explica que ele nasceu com o objetivo de fortalecer o vínculo entre a instituição e a população, sob o conceito de uma polícia próxima e confiável. O nome combina as palavras inglesas “people” e “police”, simbolizando uma ponte entre os moradores de Tóquio e a Polícia Metropolitana.
Ou seja, o personagem não foi criado simplesmente como enfeite. Polícias de outras províncias também possuem seus próprios mascotes.
Outro exemplo está em Nagoya, na província de Aichi. O Corpo de Bombeiros do distrito de Showa criou Tamagorou (たまご犬のたまごろう), um cão em formato de ovo destinado, principalmente, a despertar nas crianças o interesse pela prevenção de incêndios e desastres.
Até o formato do personagem transmite uma mensagem. Segundo o Corpo de Bombeiros, o ovo lembra o número zero e representa o objetivo de chegar a “zero” mortes provocadas por incêndios e calamidades.
O termo yuru-chara
Os mascotes já existiam muito antes de a expressão se popularizar, mas o fenômeno ganhou identidade própria com o ilustrador e crítico cultural Jun Miura, que difundiu o termo “yuru-chara” (ゆるキャラ), abreviação de “yurui mascot character”, ou “mascote descontraído”.
A expressão começou a ganhar força no início dos anos 2000. Em 23 de novembro de 2002, foi realizado em Tóquio o “Yuru-Chara Show”, que reuniu 25 personagens. Em janeiro de 2003, Miura iniciou uma série em uma revista semanal dedicada a esses mascotes.
O sentido de yurui não corresponde simplesmente a “fofo”. A palavra transmite também ideias como descontraído, informal, relaxado e até um pouco desajeitado. Muitos desses personagens parecem propositalmente estranhos, e justamente aí está parte do charme.
Depois, surgiu um personagem que ajudou a transformar essa curiosidade em um fenômeno nacional: Hikonyan (ひこにゃん), da cidade de Hikone, na província de Shiga.
Ele nasceu oficialmente em 13 de abril de 2006 como personagem de divulgação das comemorações dos 400 anos da construção do Castelo de Hikone. Sua popularidade cresceu rapidamente e, em 2008, Hikone realizou pela primeira vez o Yuru-Chara Matsuri, encontro que reuniu personagens de várias partes do Japão.
A própria cidade considera Hikonyan um dos pioneiros da popularização moderna dos personagens regionais.
Pouco depois, surgiu, talvez, o caso de maior sucesso comercial: Kumamon (くまモン).
O personagem foi criado em 2010 como parte da estratégia de promoção da província de Kumamoto relacionada à abertura completa da linha Kyushu Shinkansen. A proposta era despertar a curiosidade das pessoas por meio do personagem e, a partir dele, ampliar o interesse pela própria província.
A estratégia produziu resultados impressionantes.
Um levantamento do Banco do Japão estimou que, entre novembro de 2011 e outubro de 2013, Kumamon gerou um impacto econômico de aproximadamente ¥ 124,4 bilhões para Kumamoto. Além disso, a exposição do personagem em jornais e emissoras de televisão representou um efeito publicitário estimado em mais de ¥ 9 bilhões.
Mas existe efeito psicológico?
Em qualquer evento, a chegada de um mascote enorme e com movimentos desajeitados costuma chamar, imediatamente, a atenção. E existem pesquisas científicas que ajudam a explicar parte desse efeito.
Pesquisadores da Universidade de Hiroshima estudaram a influência do chamado kawaii sobre o comportamento humano. Em experimentos publicados em 2012 na revista científica PLOS ONE, participantes que observaram imagens consideradas muito fofas apresentaram melhora posterior em tarefas que exigiam atenção e precisão.
Em uma tarefa de habilidade motora fina, o desempenho aumentou, em média, 43,9% depois que os participantes observaram imagens de filhotes, contra 11,9% entre aqueles que viram imagens de animais adultos.
Em outro experimento, envolvendo uma tarefa de busca visual, a melhora foi de 15,7% após a observação das imagens consideradas mais fofas, contra apenas 1,4% no grupo que viu animais adultos.
Isso não significa, naturalmente, que observar um mascote aumente, automaticamente, a concentração. O estudo não avaliou mascotes como os utilizados por governos e empresas, mas imagens de animais.
O pesquisador Hiroshi Nittono, responsável pelo estudo, explicou, posteriormente, que a percepção de kawaii também pode ser influenciada pela distância psicológica existente entre uma pessoa e determinado objeto ou personagem.
Segundo ele, alguém pode não considerar um mascote especialmente fofo ao vê-lo pela primeira vez. Mas, conforme conhece seu perfil, sua personalidade e as histórias ligadas a ele, essa distância diminui e a percepção de kawaii pode aumentar.
Isso ajuda a entender por que tantos mascotes japoneses recebem nome, aniversário, personalidade, hobbies, comidas favoritas, histórias pessoais e até relações familiares.
Eles deixam de funcionar apenas como desenhos ou logotipos e passam a ser apresentados como verdadeiros personagens, capazes de criar uma relação mais próxima entre uma instituição, uma cidade ou uma empresa e o público.
Foto: Reprodução/YouTube








































