Pássaros podem usar regras gramaticais para se comunicar, revela pesquisa japonesa

Tóquio – O naturalista japonês Toshitaka Suzuki acredita que a comunicação dos pássaros, e possivelmente de outros animais, obedece a regras de organização dos sons comparáveis a alguns princípios da gramática e da sintaxe utilizados na linguagem humana.
A convicção nessa possibilidade é tão forte que Suzuki fundou, em 2023, um laboratório na Universidade de Tóquio dedicado ao estudo da chamada “linguística animal”, uma área de pesquisa que procura compreender como os animais produzem, combinam e interpretam sinais de comunicação, publicou o Japan Today.
Para Suzuki, os pássaros não apenas chilreiam, mas utilizam sons que podem ser comparados a palavras, pois transmitem informações específicas e, em determinadas situações, são organizados segundo regras que modificam ou ampliam seus significados.
O pesquisador acredita que esse recurso não seja exclusivo dos pássaros, podendo estar presente também na comunicação de outras espécies animais.
A ave que levou Suzuki a investigar essa possibilidade é o shijukara (シジュウカラ, shijūkara), conhecido cientificamente como Parus minor, um pequeno pássaro que apresenta marcas pretas e brancas na cabeça e no pescoço. O pesquisador voltou a abordar o assunto em um artigo publicado na revista japonesa President, no final de outubro.
Ele reconhece que ainda serão necessários muitos estudos para compreender a extensão dessas capacidades. “Levei 20 anos apenas para esclarecer isso no caso dos shijukara. Uma única pessoa não consegue fazer tudo, e uma vida inteira também não é suficiente”, afirmou, segundo a reportagem.
Embora possa parecer um pesquisador que pensa fora da caixa, como se diz popularmente, a ideia de que os animais se comuniquem de maneira clara e consistente, utilizando recursos próprios de cada espécie, não é uma novidade.
Além dos mitos, das fábulas e dos contos de fadas que apresentam animais conversando com seres humanos, há antigas tradições religiosas que atribuem essa capacidade a determinadas pessoas. Uma delas envolve o rei bíblico Salomão, que, segundo a tradição islâmica, conseguia compreender a linguagem dos pássaros.
Talvez algumas pessoas considerem absurda a possibilidade de pássaros e outros animais utilizarem regras de organização dos sons semelhantes às que existem na linguagem humana.
Mas Suzuki procura demonstrar suas hipóteses por meio de experimentos científicos. Durante anos, ele gravou e analisou os chamados dos shijukara nas florestas de Karuizawa, na província de Nagano. Ao estudar essas gravações e observar o comportamento das aves, identificou padrões que permitem associar determinados sons a informações específicas.
O resultado pode ser apresentado como uma espécie de pequeno dicionário, com expressões que parecem engraçadas aos ouvidos humanos.
Suzuki representa por escrito alguns dos sons emitidos pelos pássaros e os significados que lhes atribui:
- “Peeppee”: cuidado!
- “Jijijiji”: reúnam-se!
- “Heeheehee”: falcão!
- “Jaajaa”: cobra!
- “Tsutsupee tsutsupee”: fora! Este território é meu!
É amplamente reconhecido que os animais se comunicam dentro de seus grupos, alertando sobre ameaças, procurando parceiros para o acasalamento, defendendo territórios e transmitindo outras informações importantes para sua sobrevivência. Mas será que existe alguma forma de gramática empregada nessas comunicações?
Suzuki cita o caso do som “jaajaa”, que não seria simplesmente um alerta genérico de perigo, mas uma informação específica sobre a presença de uma cobra. Já a aproximação de um predador diferente, como um falcão, provoca outro chamado, representado por “heeheehee”.
Para verificar se as aves realmente associavam o chamado à presença de uma cobra, o pesquisador reproduziu uma gravação desse som na floresta de Nagano. Ao mesmo tempo, utilizou um pequeno galho suspenso que lembrava a forma de uma cobra.
As aves reagiram ao chamado e se aproximaram para investigar o objeto. Entretanto, depois de perceberem que não se tratava de uma cobra, deixaram de demonstrar interesse e se dispersaram.
O experimento reforçou a interpretação de que os pássaros não estavam simplesmente reagindo a um som de alarme, mas associando aquele chamado a uma categoria específica de ameaça.
A investigação sobre a existência de regras semelhantes às da sintaxe também produziu resultados importantes.
Em um estudo publicado na revista científica Nature Communications, em 2016, Suzuki e outros pesquisadores demonstraram que os shijukara interpretam de maneira diferente determinados chamados quando eles são reproduzidos isoladamente ou combinados em uma sequência.
Um grupo de sons, identificado pelos cientistas como ABC, provoca um comportamento de vigilância. Ao ouvi-lo, os pássaros movimentam a cabeça e procuram identificar possíveis ameaças ao redor.
Outro chamado, identificado como D, estimula as aves a se aproximarem do local de onde parte o som.
Quando os pesquisadores reproduziram os dois chamados na sequência natural ABC-D, as aves combinaram os dois comportamentos: aproximaram-se da fonte sonora enquanto observavam os arredores em busca de perigo.
Entretanto, quando a ordem foi artificialmente invertida para D-ABC, a reação conjunta praticamente desapareceu. Os pássaros passaram a demonstrar menos vigilância e raramente se aproximaram do alto-falante.
Para os pesquisadores, isso indica que a ordem dos sons interfere na maneira como a mensagem é interpretada, um princípio fundamental da sintaxe.
Na linguagem humana, a posição das palavras também pode modificar o significado de uma frase. No caso dos shijukara, os experimentos sugerem que determinados chamados possuem significados próprios e que sua combinação, obedecendo a uma ordem específica, produz uma mensagem mais complexa.
Isso não significa que os pássaros possuam uma linguagem tão elaborada quanto a humana, com todas as suas possibilidades de expressão, abstração e construção de frases.
Entretanto, as pesquisas apresentam evidências de que alguns mecanismos básicos de organização da comunicação, antes considerados exclusivos dos seres humanos, também podem existir em outras espécies.
Suzuki reconhece que ainda há muito a descobrir, especialmente sobre a capacidade de outros animais de combinar sinais e interpretar mensagens. Para ele, uma coisa é estar pessoalmente convencido dos resultados; outra é conseguir convencer a comunidade científica por meio de evidências.
A continuidade dessas pesquisas poderá ajudar a esclarecer não apenas como os animais se comunicam, mas também como determinados mecanismos da linguagem surgiram e evoluíram ao longo da história das espécies.
Fontes: Japan Today, Nature Communications, Plos Biology
Foto: Canva







































