Mercado reage à reeleição de Lula com queda da Bolsa e alta do dólar

São Paulo – A economia brasileira começou a semana sob forte turbulência nos mercados financeiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato.
Na segunda-feira (26), primeiro dia de negociações depois do segundo turno das eleições presidenciais, a Bolsa brasileira registrou uma das maiores quedas dos últimos anos, enquanto o real perdeu valor diante do dólar e os juros futuros subiram.
O movimento refletiu principalmente uma rápida mudança de posição dos investidores. Nas semanas anteriores à eleição, parte importante do mercado havia passado a apostar na vitória de Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno na liderança e chegou ao segundo turno com vantagem em algumas pesquisas e mercados de previsão.
Com a vitória de Lula, por 51,8% dos votos contra 48,2% de Flávio, investidores começaram a desmontar essas posições logo na abertura dos negócios.
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, chegou a cair mais de 10%, provocando o acionamento do chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando ocorre uma queda muito acentuada.
Foi a primeira utilização desse sistema na Bolsa brasileira desde março de 2020, período marcado pelo início da pandemia de Covid-19.
Ao longo do dia, a queda chegou a superar 15% em determinados momentos. No fechamento, o Ibovespa acumulou perda próxima de 14%, maior recuo diário desde março de 2020.
Dólar dispara
A reação também foi intensa no mercado de câmbio.
O real chegou a perder mais de 11% de seu valor diante do dólar durante as negociações, uma das maiores desvalorizações intradiárias da moeda brasileira já registradas.
Parte das perdas foi recuperada durante o dia, mas a moeda brasileira ainda terminou sob forte pressão. Segundo dados compilados no mercado, o dólar ficou ao redor de R$ 5,50 na segunda-feira.
A desvalorização do real pode ter consequências para a população caso seja mantida por um período prolongado.
Um dólar mais caro aumenta o custo de produtos importados e de matérias-primas cotadas internacionalmente. Combustíveis, componentes eletrônicos, medicamentos, produtos químicos, fertilizantes e diversos itens utilizados pela indústria podem ficar mais caros.
Isso não significa que os preços subirão imediatamente na mesma proporção da alta do dólar. A duração do movimento cambial será determinante para saber se haverá impacto mais significativo sobre a inflação.
Por que o mercado reagiu dessa forma?
Depois do primeiro turno, ações brasileiras subiram e o real ganhou força. Na sexta-feira anterior ao segundo turno, a Bolsa acumulava avanço de quase 7% em relação ao período anterior à primeira votação, enquanto o real havia se valorizado aproximadamente 5% frente ao dólar.
Investidores associavam uma eventual administração de Flávio Bolsonaro à expectativa de redução de gastos públicos, desregulamentação da economia e medidas consideradas mais favoráveis ao mercado.
Quando Lula venceu, essas apostas precisaram ser rapidamente revertidas.
Por isso, parte da queda registrada na segunda-feira representa a devolução dos ganhos observados durante as semanas em que o mercado passou a precificar uma troca de governo.
Contas públicas serão principal preocupação
Passado o impacto imediato da eleição, a principal preocupação dos investidores deverá voltar-se para as contas públicas.
A dívida bruta brasileira supera 82% do Produto Interno Bruto e aumentou mais de 10 pontos percentuais durante o atual mandato de Lula. Além disso, apenas uma pequena parcela do orçamento federal pode ser livremente ajustada, porque grande parte dos gastos é determinada por leis e obrigações constitucionais.
Outro problema é o custo dos juros.
A taxa Selic está atualmente em 13,75% ao ano, apesar dos cortes iniciados pelo Banco Central em março. Mais da metade da dívida pública federal está vinculada diretamente à Selic, o que significa que juros elevados aumentam significativamente as despesas do governo com o pagamento da dívida.
Em agosto, a dívida pública federal atingiu R$ 9,293 trilhões. Somente naquele mês, os juros acrescentaram R$ 88,4 bilhões ao estoque da dívida.
O próximo governo de Lula, portanto, terá de conciliar programas sociais e investimentos públicos com a necessidade de impedir que o endividamento continue crescendo em ritmo elevado.
Inflação continua sendo problema
Outro desafio será controlar os preços.
O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central na segunda-feira, elaborado antes do resultado do segundo turno, mostrou que economistas consultados pela instituição esperam inflação de 5,19% em 2026.
O número está acima do limite superior da meta de inflação, atualmente de 4,5%.
Para 2027, a previsão subiu ligeiramente, de 4,32% para 4,34%.
A persistência da inflação também limita a velocidade de redução dos juros.
O mercado esperava antes da eleição mais dois cortes de 0,25 ponto percentual na Selic até dezembro, levando a taxa dos atuais 13,75% para 13,25% ao ano.
A forte desvalorização do real, entretanto, poderá tornar esse processo mais complicado caso pressione os preços internos.
O que acontece agora
Depois da reação inicial do mercado, a atenção deverá se concentrar nas primeiras decisões de Lula para o novo mandato, que começará em janeiro de 2027.
Investidores estarão especialmente atentos à composição da equipe econômica, à permanência ou eventual substituição do ministro da Fazenda e à apresentação de medidas para controlar o crescimento da dívida pública.
Também será observado se o governo manterá as atuais regras fiscais ou proporá mudanças.
Durante a campanha, Lula defendeu a ampliação de programas sociais e benefícios à população, ao mesmo tempo em que sua equipe afirmou que pretende preservar as regras fiscais e buscar melhora gradual das contas públicas.
A reação registrada imediatamente após a eleição mostra que o mercado cobrará rapidamente sinais mais concretos sobre como essas duas prioridades serão conciliadas.
Para a população, o efeito mais importante não deverá ser a queda da Bolsa em si, mas o comportamento do dólar, da inflação e dos juros nos próximos meses.
Se a desvalorização da moeda for temporária, o impacto sobre o cotidiano tende a ser limitado. Caso o dólar permaneça significativamente mais alto, poderá aumentar a pressão sobre preços e dificultar novos cortes da Selic, mantendo mais caros empréstimos, financiamentos, cartões de crédito e compras parceladas.
Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil







































