Japão e EUA fazem primeira intervenção conjunta no câmbio em 15 anos

Tóquio – Japão e Estados Unidos realizaram uma operação coordenada de compra de ienes com o objetivo de conter a recente desvalorização da moeda japonesa, que atingiu o menor nível em 40 anos em relação ao dólar. Foi a primeira intervenção conjunta dos dois países no mercado de câmbio em 15 anos.
A operação ocorreu na sexta-feira (31), durante as negociações em Nova York. Na segunda-feira (3), os dois governos alertaram que poderão voltar a intervir caso os movimentos desordenados da moeda continuem.
A intervenção foi realizada depois que o iene caiu para 163,99 por dólar em 23 de julho, o nível mais baixo registrado desde 1986, informou a Kyodo.
Desde que Sanae Takaichi assumiu o cargo de primeira-ministra, em outubro de 2025, adotando uma política de ampliação dos gastos públicos e flexibilização monetária, a moeda japonesa perdeu mais de 10 ienes em relação ao dólar.
A queda ocorreu em meio a especulações de que a situação fiscal do Japão, já considerada a pior entre as economias avançadas, poderá se deteriorar ainda mais diante das dúvidas sobre como o governo financiará suas políticas expansionistas.
Em julho, o rendimento dos títulos do governo japonês com vencimento em dez anos atingiu 2,900%, o maior nível em quase três décadas. A alta ocorreu depois que muitos investidores tentaram reduzir suas posições em títulos públicos japoneses de longo prazo, cujos preços vinham apresentando tendência de queda.
Outro fator de preocupação surgiu no fim de junho, quando a minuta do primeiro plano de política econômica do governo Takaichi foi interpretada como uma tentativa de desencorajar o Banco do Japão a elevar os juros. Isso aumentou o temor de que o banco central não conseguisse responder adequadamente à alta dos preços.
Nesta segunda-feira, a ministra das Finanças, Satsuki Katayama, emitiu um comunicado afirmando que a ação conjunta com os Estados Unidos foi adotada para conter “a volatilidade excessiva e os movimentos desordenados do iene japonês nos últimos meses”.
Katayama acrescentou que o Ministério das Finanças permanece atento e mantém estreita comunicação com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
“Não hesitaremos em realizar uma nova intervenção conjunta”, afirmou.
Após os alertas de Katayama e do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, sobre a possibilidade de novas ações para impedir uma queda maior do iene, a moeda japonesa avançou por alguns momentos para a faixa inferior de 155 por dólar, ante a faixa superior de 157 registrada na manhã de segunda-feira.
As intervenções cambiais coordenadas entre países geralmente são reservadas para situações de emergência. O Japão, no entanto, tem enfrentado dificuldades para conter a desvalorização do iene, que eleva os custos das importações, ameaça acelerar ainda mais a inflação e pressiona os rendimentos dos títulos públicos japoneses de longo prazo.
Analistas disseram que os Estados Unidos também estariam preocupados com a possibilidade de a alta dos juros de longo prazo no Japão provocar um aumento das taxas norte-americanas antes das eleições de meio de mandato do Congresso, previstas para o segundo semestre.
A última intervenção conjunta entre Japão e Estados Unidos ocorreu em março de 2011, com o objetivo de conter a valorização do iene após o forte terremoto e o tsunami que atingiram o nordeste do Japão.
O desastre desencadeou, na usina nuclear de Fukushima Daiichi, a pior crise nuclear do mundo desde o acidente de Chernobyl, em 1986.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse no domingo que Washington havia realizado uma intervenção de compra de ienes a pedido do Japão e que a ação beneficiaria economicamente seu país.
“Estamos sempre ao lado do Japão. O Japão tem sido muito bom conosco, com exceção, é claro, de Pearl Harbor”, declarou Trump a jornalistas.
Ele se referia ao ataque aéreo surpresa realizado pelo Japão, em 1941, contra uma base naval norte-americana no Havaí, episódio que levou os Estados Unidos a entrarem na Segunda Guerra Mundial.
As autoridades japonesas também intervieram no mercado cambial entre abril e maio deste ano para conter a forte desvalorização do iene, levando a moeda à faixa de 155 por dólar. O efeito, porém, foi de curta duração.
Na quinta-feira (30), o Japão voltou a intervir no mercado, cerca de quatro horas depois de Takaichi prometer reduzir o imposto sobre o consumo de alimentos e bebidas sem indicar as fontes de financiamento da medida.
Segundo estimativas citadas pela Kyodo, o governo japonês teria gastado entre 6 trilhões e 7 trilhões de ienes nessa operação. Na sexta-feira, o Banco do Japão decidiu manter a taxa básica de juros em torno de 1,0%.
O presidente da instituição, Kazuo Ueda, no entanto, sinalizou a possibilidade de novos aumentos, citando riscos de aceleração da inflação e os efeitos negativos da desvalorização do iene sobre os preços ao consumidor.
Foto: Canva






































