Linha de Apoio aos Latinos cuida da saúde mental da comunidade há 3 décadas

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Kanagawa – Se você estiver passando por dificuldades, sentindo-se isolado, sem alguém com quem possa desabafar, ligue para a Linha de Apoio aos Latinos (LAL). Com certeza, os voluntários que atendem ali ouvirão atentamente aos seus reclamos e angústias, sem julgamentos ou críticas. Os telefones são 0120-66-2488 ou 045-336-2488.

A LAL tem uma longa história no auxílio de pessoas das comunidades brasileira e latina no Japão. Mas tudo começou ainda na década de 1970, quando o Japão aceitou receber refugiados da Indochina, que ficava no atual Sudeste Asiático e foi chamada assim pelos colonizadores europeus graças à sua posição entre a Índia e a China. A região corresponde hoje aos países que formaram a colônia francesa: Vietnã, Laos e Camboja. A porta de entrada dos refugiados foi a província de Kanagawa, que já tinha um histórico de relações com estrangeiros.

Tudo parecia bem, até que, na década de 1980, um cambojano que veio para o Japão como refugiado matou sua esposa e filhos e tentou o suicídio, em razão dos profundos traumas sofridos em seu país, marcado por uma guerra civil sangrenta. O fato triste, porém, revelou que o Japão não estava preparado para lidar com esse tipo de situação.

Mais tarde, em 1990, o Japão abriu suas portas para os trabalhadores descendentes de japoneses, a fim de dar conta da produção nas fábricas diante de uma economia altamente aquecida, o que fez aumentar vertiginosamente o número de brasileiros e peruanos. Não demorou para os recém-chegados também manifestarem dificuldades de adaptação ao país.

Criação da LAL

Foi então que o governo da província de Kanagawa propôs à Yokohama Inochi no Denwa, organização sem fins lucrativos que oferece apoio telefônico aos japoneses em dificuldades, a criação de uma linha de atendimento aos trabalhadores brasileiros, latinos e outros que acabavam de chegar ao Japão.

Assim nasceu, em 1993, a LAL, para atendimento em português e espanhol. A entidade teve papel excepcional nos anos seguintes, como quando o país sofreu as consequências da crise financeira mundial em 2008, com muitos brasileiros e outros estrangeiros ficando desempregados. E mais recentemente, na pandemia de coronavírus, quando aumentou o isolamento social devido às regras que tentavam controlar ou reduzir a disseminação do vírus.

Ruth Fujii, 66, está no Japão há 30 anos e é coordenadora da LAL há cinco. Como é formada em arquitetura, veio trabalhar no Japão em sua área, inicialmente em projetos, mas passou também por bancos brasileiros e se aposentou no setor de Recursos Humanos de uma refinaria da Petrobrás. “Na época eu já conhecia a LAL. Mas somente em 2002 é que fiz o curso de voluntário. Por motivos profissionais, precisei me afastar, porque tive que mudar para Okinawa. Só retornei para a LAL em 2018, quando fui convidada para ser coordenadora”, relata.

A coordenadora conta que, no início da LAL, os primeiros estrangeiros que chegaram para trabalhar em fábricas tinham mais dúvidas sobre como matricular os filhos na escola japonesa, como ser atendido nos hospitais, além de questões sobre visto, passaporte e onde conseguir trabalho. “E os voluntários ajudaram com estas informações, que hoje são mais facilmente acessíveis”, diz.

Envelhecimento

Hoje, as necessidades de quem busca a LAL são bem diferentes, segundo Ruth. Alguns problemas persistem, como é o caso da discriminação contra estrangeiros. “Mas a preocupação maior das pessoas hoje é com o envelhecimento. Muitos dos que vieram trabalhar em fábrica não estavam acostumados com serviço pesado e por tantos anos. E hoje vemos as consequências disso, com os trabalhadores com problemas de saúde, dores lombares, mas também diabetes, pressão alta, sem mencionar o aspecto psicológico”, explica Ruth.

Muitos hoje ligam para pedir ajuda para lidar com problemas financeiros, jurídicos, questões burocráticas e auxílios públicos, como é o caso do Seikatsu Hogo, programa de assistência social que garante um sustento mínimo para quem não consegue manter uma vida digna por conta própria. “Mas há também problemas de solidão, de isolamento social, que pesam muito quando não se tem com quem conversar, o que também afeta a saúde física”, analisa Ruth.

Atendimento sem críticas ou julgamentos

Os voluntários da LAL também atendem pessoas que ligam pensando em suicídio, em razão de problemas financeiros, de saúde ou de origem social. “Elas se sentem sozinhas e não têm alguém com quem conversar. Então elas ligam e dizem que já pensaram em desistir da vida. Mas o fato de a pessoa ligar já é um bom sinal. É importante poder falar, ter alguém para ouvir o que temos para dizer, para trocar ideias. Nisso, a pessoa entenderá que não está sozinha. O nosso trabalho como voluntários é ouvir essas pessoas, sem perguntar nada, nem nome, idade ou onde vive. Não fazemos julgamento nenhum, nem criticamos ou emitimos opinião. Acaba sendo um bate-papo e isso abre espaço para a pessoa desabafar”, relata a coordenadora.

Ruth notou que, quando alguém liga para um atendimento em português ou espanhol, chega com a mente conturbada, tomada por pensamentos negativos, mas que, no decorrer da conversa, essas ideias ruins vão embora. “Quando a pessoa fala de seus problemas, ela precisa organizar os pensamentos e assim ela passa a refletir melhor, começa a enxergar as experiências negativas e a ter percepções, a trabalhar sua autoestima. Só de poder falar já alivia”, observa.

Requisitos para ser voluntário

A LAL conta hoje com 40 voluntários, que trabalham em turnos de três horas nos plantões, sendo 20 no atendimento em português e outros 20 em espanhol.

Para ser voluntário, Ruth explica que a pessoa precisa ter mais de 23 anos de idade e deve passar pelo curso preparatório gratuito, realizado uma vez por ano, iniciando em maio e terminando em março do ano seguinte, com aulas presenciais em Yokohama (Kanagawa).

O curso tem o título de “Crescimento pessoal e capacitação de novos voluntários”, no qual os candidatos a voluntários terão uma base para atender aos que procuram a LAL. “Para poder atender, o voluntário precisa se conhecer. O curso tem a parte teórica e a prática, e na teórica são dados conceitos de psicologia”, conta. Além disso, fazem simulações de atendimento telefônico, procurando entender o que a pessoa do outro lado da linha está sentindo.

“Quando notamos que a voz da pessoa revela que ela está se acalmando e com o diálogo está se sentindo mais aliviada, para nós, voluntários, isso é um prêmio. Estamos aqui para ouvir a pessoa, sem julgamento, nem críticas”, garante Ruth.

E os voluntários da LAL nem sempre ouvem lamentos ao telefone. “Algumas vezes a pessoa quer falar algo legal que aconteceu na vida dela, mas não tem para quem contar. Então nos liga. E se notarmos que ela está precisando de ajuda especializada, como ir ao hospital ou se precisa de remédio, indicamos a quem procurar”, finaliza.

Foto: Cedida/LAL

Serviço
Linha de Apoio aos Latinos – LAL
Atendimento gratuito

  • quartas-feiras, das 10h às 21h
  • sextas-feiras, das 19h às 21h
  • sábados, das 12h às 21h

Telefones
0120-66-2488 ou 045-336-2488 (não precisa reservar horário)
Informações: http://lal-yokohama.org/home/

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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