Japão faz campanha para contratação correta de estrangeiros em junho

2026/05/29 13:08
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Tóquio – O Japão realizará em junho uma campanha nacional para promover o emprego adequado de estrangeiros (適正な外国人雇用, tekisei na gaikokujin koyō). A ação foi anunciada pela Agência de Serviços de Imigração do Japão em 20 de maio e será realizada sob a bandeira da expressão usada pelo governo para definir uma sociedade de convivência ordenada entre japoneses e estrangeiros (秩序ある共生社会, chitsujo aru kyōsei shakai).

A campanha ocorre de 1 a 30 de junho e tem como foco principal empregadores, associações empresariais, órgãos públicos e governos locais. A imigração informou que pretende distribuir materiais informativos, pedir cooperação a entidades relacionadas, enviar servidores para palestras e promover ações regionais de orientação.

A medida não deve ser tratada como uma nova lei trabalhista nem como uma mudança automática nas penalidades. O ponto central é que o governo japonês está reforçando a mensagem de que a aceitação de mão de obra estrangeira deve caminhar junto com mais controle, documentação correta e respeito às regras de contratação.

A campanha ganha importância porque o Japão depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros. Segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, o país tinha 2.571.037 trabalhadores estrangeiros em outubro de 2025, o maior número desde o início da série, com alta de 11,7% em relação ao ano anterior. O número de estabelecimentos que empregam estrangeiros também chegou a 371.215, outro recorde.

Esse crescimento ajuda a explicar por que o tema deixou de ser apenas trabalhista e passou a ocupar espaço político. Em janeiro de 2026, o governo discutiu medidas para a aceitação de estrangeiros e a construção de uma sociedade de convivência ordenada. Na ocasião, a pauta foi ligada tanto à necessidade de mão de obra em setores com falta de trabalhadores quanto à preocupação com violações de regras, segurança e percepção de injustiça entre a população japonesa.

Para empresas, a campanha serve como alerta. Quem contrata estrangeiros precisa verificar se o status de residência permite o trabalho, conferir documentos como o cartão de residência, respeitar as leis trabalhistas, registrar corretamente a contratação e comunicar a entrada ou saída do trabalhador ao Hello Work quando aplicável. O Ministério do Trabalho orienta que o empregador confirme, no momento da contratação, se o estrangeiro pode exercer a atividade dentro do status de residência que possui.

Isso afeta grandes empresas, fábricas, empreiteiras, restaurantes, comércios, prestadores de serviço e pequenos negócios administrados por estrangeiros. Para empresas brasileiras no Japão, o tema é especialmente sensível, porque muitas contratam brasileiros, peruanos, filipinos, vietnamitas e outros trabalhadores estrangeiros em áreas como indústria, alimentação, limpeza, transporte, construção, cuidado de idosos e serviços locais.

O risco para o empregador não está apenas na contratação de uma pessoa sem autorização de trabalho. Também pode haver problema quando a função exercida não combina com o status de residência, quando há intermediação irregular, falta de controle documental, jornada incompatível, ausência de contrato claro, salário abaixo do combinado ou tratamento diferente em relação a trabalhadores japoneses.

Para os trabalhadores estrangeiros, incluindo brasileiros, a campanha pode ter dois efeitos. O primeiro é positivo: mais orientação pode reduzir abusos e esclarecer direitos. O segundo exige atenção: empresas podem passar a cobrar mais documentos, revisar contratos, verificar validade do zairyū card e exigir regularização de informações.

O emprego adequado tratado na campanha não significa apenas combater o trabalho irregular. Também envolve contratação transparente, salário correto, jornada legal, seguro social quando aplicável, ambiente de trabalho seguro, respeito ao contrato e informação em idioma compreensível. Para o trabalhador brasileiro, isso significa saber se o contrato está claro, se a função corresponde ao visto, se os descontos fazem sentido, se as horas extras estão registradas e onde buscar ajuda em caso de abuso.

O Ministério do Trabalho mantém canais de consulta para estrangeiros sobre condições de trabalho, inclusive fora do horário de atendimento dos escritórios públicos e em outros idiomas, por meio do serviço de consulta trabalhista. A imigração também indica canais como o Centro de Informação Geral para Residentes Estrangeiros, os escritórios regionais da imigração, o FRESC e centros de consulta locais.

O contexto político torna a campanha ainda mais relevante. Em maio de 2026, a imigração também passou a divulgar medidas ligadas ao chamado plano para reduzir a permanência irregular de estrangeiros, reforçando a ideia de que o governo quer separar, no discurso oficial, os estrangeiros que seguem regras daqueles que violam normas migratórias. Ao mesmo tempo, entidades de apoio a refugiados e grupos civis criticam medidas mais duras do governo, alegando risco de prejuízo a pessoas vulneráveis, especialmente solicitantes de refúgio.

A ação é parte de uma política de convivência com controle. O Japão precisa de estrangeiros para sustentar setores com falta de mão de obra, mas quer evitar contratação irregular, exploração, evasão de obrigações trabalhistas e uso incorreto dos status de residência.

O que as empresas devem verificar:

  • Se o status de residência permite a atividade contratada.
  • Se o cartão de residência está válido.
  • Se há restrição de jornada, como no caso de estudantes com permissão para atividade fora do status.
  • Se o contrato informa salário, jornada, folgas, horas extras e local de trabalho.
  • Se a contratação e o desligamento foram comunicados corretamente quando exigido.
  • Se o trabalhador recebe tratamento compatível com as regras trabalhistas japonesas.
  • Se documentos, registros de ponto e comprovantes de pagamento estão organizados.

O que os trabalhadores devem observar:

  • Se a função real é a mesma descrita no contrato.
  • Se o salário pago corresponde ao combinado.
  • Se horas extras aparecem no holerite.
  • Se há descontos sem explicação.
  • Se o empregador reteve documentos pessoais, prática que deve acender alerta.
  • Se há pressão para trabalhar fora do permitido pelo visto.
  • Se existe canal confiável para consulta antes de assinar ou aceitar mudanças.

Fontes consultadas: Agência de Serviços de Imigração, Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Gabinete do Primeiro-Ministro, Governo do Japão e Associação de Apoio aos Refugiados do Japão.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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