Iene fraco expõe perda de competitividade do Japão

Tóquio – A última vez em que o iene foi negociado na faixa de 162 por dólar foi há cerca de 40 anos, quando o Japão ainda lançava produtos importantes no mercado internacional e entrava na economia de bolha. A época era diferente da atual, em que o país passou a ser visto no exterior como “Cheap Japan” (algo como Japão Barato), por causa do iene fraco, tornando-se um destino atraente para turistas e investidores estrangeiros. Mas qual é o motivo da queda?
Um dos fatores é a diferença de juros entre o Japão e os Estados Unidos, já que os ativos em dólar oferecem retornos maiores. Mas outro motivo pode ser a queda da competitividade internacional do Japão, que favoreceu o enfraquecimento do iene, segundo análise de Masashi Hashimoto, do Instituto de Assuntos Monetários Internacionais, noticiaram o News on Japan e a TBS News.
Há 40 anos, o Japão tinha um superávit comercial de mais de 13 trilhões de ienes, o maior do mundo. No ano passado, o país registrou um déficit comercial de quase 3 trilhões de ienes, o que, na prática, significa que pagou mais por importações do que recebeu com exportações.
Outro sintoma é a ausência de empresas japonesas entre as maiores do mundo. Hoje, esse ranking é dominado por empresas americanas, como Nvidia e Apple. Com a perda de competitividade, o analista Hashimoto diz que os produtos japoneses passaram a vender menos no exterior, reduzindo a demanda pelo iene e pressionando a moeda para baixo.
O plano do governo da primeira-ministra Sanae Takaichi é investir mais de 370 trilhões de ienes em 17 áreas para tentar recuperar o crescimento perdido. A questão é saber se o programa governamental conseguirá movimentar a economia, fazendo o país sair do “Cheap Japan” para voltar a ser o “Japan as No. 1” (Japão como número 1) do passado.
A desvalorização do iene não é apenas consequência de apostas de operadores de mercado, mas também reflexo de uma mudança na forma como o dinheiro circula na economia japonesa.
Quando o Japão exportava carros, eletrônicos, máquinas e produtos de alto valor agregado, os compradores precisavam de ienes para pagar às empresas japonesas. Com o tempo, a posição comercial do país enfraqueceu e, com ela, a sustentação natural da moeda também diminuiu.
Um dos pontos críticos é a energia, já que o país importa petróleo, gás natural e carvão, commodities geralmente cotadas em dólares. Quando os preços da energia aumentam, as empresas japonesas precisam gastar mais dólares para pagar as importações, pressionando o iene para baixo.
Com a moeda desvalorizada, a importação de alimentos também fica mais cara para os consumidores, reduzindo o poder de compra no mercado doméstico e, por consequência, dificultando o crescimento.
Os Estados Unidos mantêm os juros acima dos níveis do Japão, o que torna os ativos em dólar mais atraentes. O Banco do Japão elevou recentemente a taxa de juros, mas ela continua mais baixa que a americana. Ao mesmo tempo, o banco central japonês enfrenta limites. Uma alta acentuada dos juros poderia sustentar o iene, mas também traria prejuízos para famílias, pequenas empresas e companhias já endividadas.
Apesar de a indústria japonesa ainda ter presença importante no mercado global, especialmente em automóveis, equipamentos industriais, robótica e componentes, o país perdeu espaço em plataformas digitais, softwares, computação em nuvem e infraestrutura de inteligência artificial. O Japão tem fornecedores nessas cadeias produtivas, mas menos empresas no centro desses mercados.
Outro problema é a queda populacional. Com menos trabalhadores, há redução do crescimento potencial. Empresas grandes conseguem investir em automação para compensar a falta de mão de obra, mas muitas pequenas e médias empresas não têm capital ou capacidade digital para fazer essa transformação.
O turismo tem sido uma das apostas do governo, com previsão de receber muitos milhões de visitantes estrangeiros todos os anos, trazendo dólares, euros e outras moedas. Mas o turismo sozinho não consegue substituir a força econômica de outros setores.
Assim, o país corre o risco de ficar preso em um ciclo no qual o iene fraco aumenta os custos de importação, os preços mais altos apertam o orçamento das famílias, o consumo diminui e o crescimento do país fica prejudicado.
A solução pode estar em uma maior produtividade, salários mais fortes, indústrias mais competitivas, política energética estável e gestão fiscal confiável. A pergunta é se o Japão conseguirá fazer com que o iene volte aos bons tempos de 40 anos atrás. Caso contrário, o país continuará conhecido como “Cheap Japan”.
Foto: Canva







































