Iene fraco expõe perda de competitividade do Japão

2026/07/10 12:51
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Tóquio – A última vez em que o iene foi negociado na faixa de 162 por dólar foi há cerca de 40 anos, quando o Japão ainda lançava produtos importantes no mercado internacional e entrava na economia de bolha. A época era diferente da atual, em que o país passou a ser visto no exterior como “Cheap Japan” (algo como Japão Barato), por causa do iene fraco, tornando-se um destino atraente para turistas e investidores estrangeiros. Mas qual é o motivo da queda?

Um dos fatores é a diferença de juros entre o Japão e os Estados Unidos, já que os ativos em dólar oferecem retornos maiores. Mas outro motivo pode ser a queda da competitividade internacional do Japão, que favoreceu o enfraquecimento do iene, segundo análise de Masashi Hashimoto, do Instituto de Assuntos Monetários Internacionais, noticiaram o News on Japan e a TBS News.

Há 40 anos, o Japão tinha um superávit comercial de mais de 13 trilhões de ienes, o maior do mundo. No ano passado, o país registrou um déficit comercial de quase 3 trilhões de ienes, o que, na prática, significa que pagou mais por importações do que recebeu com exportações.

Outro sintoma é a ausência de empresas japonesas entre as maiores do mundo. Hoje, esse ranking é dominado por empresas americanas, como Nvidia e Apple. Com a perda de competitividade, o analista Hashimoto diz que os produtos japoneses passaram a vender menos no exterior, reduzindo a demanda pelo iene e pressionando a moeda para baixo.

O plano do governo da primeira-ministra Sanae Takaichi é investir mais de 370 trilhões de ienes em 17 áreas para tentar recuperar o crescimento perdido. A questão é saber se o programa governamental conseguirá movimentar a economia, fazendo o país sair do “Cheap Japan” para voltar a ser o “Japan as No. 1” (Japão como número 1) do passado.

A desvalorização do iene não é apenas consequência de apostas de operadores de mercado, mas também reflexo de uma mudança na forma como o dinheiro circula na economia japonesa.

Quando o Japão exportava carros, eletrônicos, máquinas e produtos de alto valor agregado, os compradores precisavam de ienes para pagar às empresas japonesas. Com o tempo, a posição comercial do país enfraqueceu e, com ela, a sustentação natural da moeda também diminuiu.

Um dos pontos críticos é a energia, já que o país importa petróleo, gás natural e carvão, commodities geralmente cotadas em dólares. Quando os preços da energia aumentam, as empresas japonesas precisam gastar mais dólares para pagar as importações, pressionando o iene para baixo.

Com a moeda desvalorizada, a importação de alimentos também fica mais cara para os consumidores, reduzindo o poder de compra no mercado doméstico e, por consequência, dificultando o crescimento.

Os Estados Unidos mantêm os juros acima dos níveis do Japão, o que torna os ativos em dólar mais atraentes. O Banco do Japão elevou recentemente a taxa de juros, mas ela continua mais baixa que a americana. Ao mesmo tempo, o banco central japonês enfrenta limites. Uma alta acentuada dos juros poderia sustentar o iene, mas também traria prejuízos para famílias, pequenas empresas e companhias já endividadas.

Apesar de a indústria japonesa ainda ter presença importante no mercado global, especialmente em automóveis, equipamentos industriais, robótica e componentes, o país perdeu espaço em plataformas digitais, softwares, computação em nuvem e infraestrutura de inteligência artificial. O Japão tem fornecedores nessas cadeias produtivas, mas menos empresas no centro desses mercados.

Outro problema é a queda populacional. Com menos trabalhadores, há redução do crescimento potencial. Empresas grandes conseguem investir em automação para compensar a falta de mão de obra, mas muitas pequenas e médias empresas não têm capital ou capacidade digital para fazer essa transformação.

O turismo tem sido uma das apostas do governo, com previsão de receber muitos milhões de visitantes estrangeiros todos os anos, trazendo dólares, euros e outras moedas. Mas o turismo sozinho não consegue substituir a força econômica de outros setores.

Assim, o país corre o risco de ficar preso em um ciclo no qual o iene fraco aumenta os custos de importação, os preços mais altos apertam o orçamento das famílias, o consumo diminui e o crescimento do país fica prejudicado.

A solução pode estar em uma maior produtividade, salários mais fortes, indústrias mais competitivas, política energética estável e gestão fiscal confiável. A pergunta é se o Japão conseguirá fazer com que o iene volte aos bons tempos de 40 anos atrás. Caso contrário, o país continuará conhecido como “Cheap Japan”.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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