Estudo de universidade revela aumento da solidão entre jovens japoneses

Tóquio – Pesquisadores da Universidade Chuo revelaram que os níveis de solidão no Japão têm aumentado ao longo de 40 anos. Os dados mostram que o problema tem afetado principalmente os jovens, incluindo estudantes do ensino fundamental, médio e universitário. Os homens são os que apresentam níveis mais altos de solidão, mas a pesquisa mostra que a sensação de isolamento vem aumentando também entre as mulheres.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) identifica a solidão como uma grave crise de saúde pública, a qual está associada a altas taxas de mortalidade no mundo. Os pesquisadores notaram que o problema se intensificou durante os anos da pandemia de Covid-19 em comparação com o período antes das restrições sociais.
Os pesquisadores analisaram dados de 49.054 pessoas reunidos em 183 conjuntos de dados independentes, extraídos de 8 estudos científicos conduzidos entre 1983 e 2023. Além da forte influência da pandemia, os pesquisadores notaram o aumento da solidão em relação a outros fatores, como crescimento no número de domicílios unipessoais, queda nas taxas de casamento, uso da internet e dados econômicos.
A Universidade Chuo alega que este é o primeiro estudo a demonstrar as mudanças de longo prazo da solidão na sociedade japonesa. Os resultados indicam que os níveis de solidão podem estar aumentando continuamente e revelam o agravamento desse problema social.
O levantamento foi liderado pelo professor Kenkichi Takase, da Faculdade de Letras da Universidade Chuo, e pela mestranda Momo Homma, do programa de Pós-Graduação em Letras da mesma universidade, e foi publicado na revista Frontiers in Psychology.
Método utilizado
Os cientistas utilizaram um método chamado meta-análise temporal cruzada. Isso significa que eles não acompanham as mesmas pessoas ao longo do tempo. Em vez disso, reúnem dezenas de estudos feitos em épocas diferentes e comparam os resultados médios obtidos em cada período histórico.
Para isso, os pesquisadores buscaram trabalhos acadêmicos publicados entre 1983 e 2023 que utilizavam a Escala de Solidão UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), um dos instrumentos psicológicos mais aplicados no mundo para medir sentimentos de solidão.
Depois da coleta inicial e de novas filtragens, os pesquisadores se debruçaram sobre:
- 81 estudos científicos
- 183 conjuntos de dados independentes
- 49.054 participantes analisados
O que exatamente eles compararam
Todos os estudos utilizavam a mesma escala psicológica, a UCLA Loneliness Scale. Isso foi essencial porque permitiu comparar os resultados entre diferentes épocas usando uma medida padronizada.
Os pesquisadores então observaram:
- em que ano cada estudo foi realizado
- qual era a média de solidão obtida naquele período
- características dos participantes, como idade e sexo
Depois disso, aplicaram análises estatísticas de regressão para verificar se existia uma tendência histórica. Em termos simples, eles perguntaram se, à medida que os anos passam, as pontuações médias de solidão aumentam ou diminuem. A resposta encontrada foi clara: as médias aumentaram significativamente entre 1983 e 2023.
Por que esse método é considerado forte cientificamente
A meta-análise é vista como um dos níveis mais altos de evidência científica porque combina resultados de muitos estudos, reduz distorções de pesquisas isoladas, aumenta o tamanho total da amostra e permite identificar tendências sociais de longo prazo.
Neste caso, o método foi especialmente importante porque não existia no Japão um único estudo contínuo acompanhando a solidão por 40 anos. Então os pesquisadores reconstruíram essa evolução histórica usando dezenas de pesquisas independentes feitas em diferentes décadas.
O que mais eles descobriram
Além da tendência geral, eles também analisaram fatores sociais e demográficos. As análises mostraram que:
- a solidão cresceu especialmente entre jovens
- o aumento foi mais evidente entre mulheres
- durante a pandemia de Covid-19 os níveis ficaram ainda maiores
- fatores sociais como queda nas taxas de casamento, aumento de pessoas morando sozinhas e expansão do uso da internet apresentaram correlação com o crescimento da solidão
Importante entender
O estudo mostra correlação histórica, não causalidade direta. Isso significa que os pesquisadores identificaram que certos fenômenos sociais mudaram junto com o aumento da solidão, mas o estudo não prova sozinho que esses fatores sejam a causa direta.
Para comprovar causalidade seriam necessários outros tipos de pesquisa, como estudos longitudinais ou experimentais.
Próximos passos
Diante do aumento da solidão entre jovens e mulheres, os pesquisadores defendem a criação de métodos de apoio direcionados especificamente a esses grupos. Nos próximos estudos, a equipe pretende investigar como a melhoria da alimentação pode influenciar a solidão entre jovens. Caso sejam observados efeitos positivos, os pesquisadores planejam analisar os mecanismos biológicos ligados à solidão, incluindo a relação intestino-cérebro.
Além do estudo principal, o grupo também desenvolve iniciativas paralelas para enfrentar a solidão entre mulheres. Uma delas é um sistema de apoio baseado em inteligência artificial generativa chamado “AI保育士” (“babá virtual de IA” ou “cuidadora infantil com IA”), voltado à redução da solidão. Os próximos passos incluem a verificação da eficácia do sistema e a promoção de iniciativas para sua implementação social.
Como combater e evitar a solidão
Segundo o Tua Saúde, existem algumas formas de evitar e combater a solidão. Veja:
- Manter ou retomar a conexão com amigos, familiares, vizinhos e colegas de trabalho, por exemplo;
- Guardar o celular e estar totalmente presente nas conversas, e cumprimentar os vizinhos;
- Fazer trabalho voluntário ou participar de grupos locais;
- Engajar em atividades estruturadas, como programas recreativos, clubes esportivos, academias e/ou atividades religiosas;
- Fazer atividades ao ar livre, como por meio do acesso a parques, jardinagem comunitária e caminhadas em grupo na natureza;
- Usar as redes sociais, o que pode ajudar adolescentes e pessoas com doenças crônicas ou que sofrem de ansiedade social.
Quando a solidão estiver associada a sintomas como tristeza profunda, ansiedade, alteração do apetite ou do sono, por exemplo, é recomendado consultar o psicólogo ou psiquiatra. Desta forma, esses profissionais poderão fazer uma avaliação dos sintomas e, se for necessário indicar a realização de sessões de psicoterapia.
Foto: Canva







































