Governo cancela projeto da JICA com países africanos após protestos

2025/10/20 06:49
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Tóquio – O Japão cancelou o projeto “JICA África Cidade Natal”, lançado em parceria com quatro nações africanas, após protestos da população em manifestações nas ruas e nas redes sociais.

A Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) atribuiu a decisão à disseminação de desinformação nas redes sociais, o que levou à retirada da iniciativa um mês depois de seu lançamento, segundo a mídia local.

A iniciativa “Cidade Natal da JICA na África” foi anunciada em 21 de agosto durante a Conferência Internacional de Tóquio sobre Desenvolvimento Africano, realizada em Yokohama (Kanagawa), em conjunto com o Ministério das Relações Exteriores.

O objetivo era promover o intercâmbio entre quatro cidades japonesas e países africanos. No entanto, o programa foi interpretado erroneamente como uma política para incentivar a imigração africana para o Japão, gerando reação negativa e pedidos de cancelamento.

Um representante do ministério afirmou que o conteúdo do projeto era relevante. “Embora o estejamos retirando, continuaremos a promover o intercâmbio internacional de forma mais ativa.”

O programa envolvia as cidades japonesas e os países africanos parceiros: Kisarazu (Chiba) com a Nigéria; Nagai (Yamagata) com a Tanzânia; Sanjo (Niigata) com Gana; e Imabari (Ehime) com Moçambique.

Críticas e protestos

As autoridades japonesas solicitaram ao governo da Nigéria que removesse uma publicação online em que se afirmava que o Japão havia nomeado Kisarazu como “a cidade natal dos nigerianos dispostos a viver e trabalhar” e que criaria uma “categoria especial de visto”.

A postagem gerou telefonemas e e-mails de cidadãos japoneses criticando a medida. Em alguns casos, manifestantes pediram o desmantelamento da JICA.

A prefeitura de Imabari recebeu cerca de seis mil contatos de moradores contrários à iniciativa. No início de setembro, foi encontrada uma pichação com os dizeres “Pare a imigração” no banheiro feminino do prédio municipal.

Expressão “cidade natal” gerou confusão

O governo japonês precisou se pronunciar publicamente, negando que o programa tivesse relação com políticas migratórias. Mesmo assim, os protestos continuaram, e algumas cidades solicitaram formalmente ao governo central o cancelamento do projeto.

A JICA e o ministério analisaram o caso e concluíram que a iniciativa estava sobrecarregando as administrações locais. Também reconheceram que o uso da expressão “cidade natal” pode ter causado o mal-entendido de que o programa pretendia incentivar a imigração.

Em comunicado oficial, a JICA informou ter levado em consideração todas as críticas e opiniões antes de decidir pela retirada do projeto. A organização reafirmou que continuará apoiando programas de intercâmbio internacional e que “nunca promoveu iniciativas voltadas à imigração nem tem planos de fazê-lo no futuro”.

Um alto funcionário do ministério manifestou preocupação com a decisão, afirmando: “Seria problemático se isso fosse visto como uma vitória na internet”.

Atitude precipitada

Ito Masaaki, professor da Universidade Seikei e especialista em discurso online, afirmou que um dos motivos para a propagação dos rumores sobre a iniciativa pode estar relacionado ao sentimento de ansiedade entre os japoneses, segundo a emissora NHK.

Ele observou que o anúncio incorreto publicado no site do governo nigeriano contribuiu para reforçar a desinformação, levando muitos a acreditar que estavam sendo enganados.

“O discurso de que estrangeiros ameaçam vidas e consomem impostos continuou a se espalhar nas redes sociais”, explicou Ito, acrescentando que esse tipo de narrativa alimenta a percepção de que “nossa comunidade pode ser ocupada”.

Para o professor, a JICA deveria ter fornecido explicações mais detalhadas sobre suas realizações anteriores e deixado clara sua determinação em seguir com o plano. Ele concluiu: “Não é desejável modificar políticas em resposta a rumores baseados em desinformação”.

Foto: Reprodução/NHK

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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