Entenda a relação curiosa entre os japoneses e os guarda-chuvas de plástico

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Tóquio – O guarda-chuva é talvez uma das melhores invenções da humanidade. Produto simples, mas bastante funcional nos dias de chuva ou, dependendo do caso, em dias de sol forte. E no Japão o “kasa” integra o cotidiano das pessoas de forma tão intensa, que até gerou um comportamento social próprio, especialmente no período de chuvas conhecido como tsuyu.

Estima-se que cerca de 80 milhões de guarda-chuvas sejam vendidos todos os anos no país. E existem pesquisas que indicam que, em média, haja 4,2 guarda-chuvas por pessoa no Japão, chegando a 4,9 por habitante apenas em Tóquio.

O alto volume de guarda-chuvas no país se deve a dois fatores. Um é o clima, pois um período do ano é composto por chuvas intensas e quase que diárias, e também por verões muito quentes. Outro fator é o custo muito baixo do item, sendo facilmente encontrado em lojas de conveniência a um preço muitas vezes abaixo de 1.000 ienes, o que reduz o apego ao objeto.

Tirando os guarda-chuvas coloridos e com tecidos, o mais comum é o de plástico transparente. Como estes últimos são idênticos, é comum que outras pessoas peguem por engano o item de outra pessoa nos suportes situados na frente de lojas ou restaurantes. Em muitos casos, isso nem é encarado como furto.

O que se diz no país é que existe uma “regra silenciosa”, na qual os guarda-chuvas baratos funcionam como um bem coletivo. Quer dizer, se o seu desaparece do porta-guarda-chuvas, a reação comum não é procurar o dono, mas pegar outro disponível no mesmo local. Esse comportamento é descrito como um ciclo contínuo, em que os objetos circulam entre diferentes pessoas ao longo do dia.

Obviamente que nem todos aceitam essa prática com naturalidade. Há quem tente evitar que o guarda-chuva seja levado colocando marcas, alguma identificação, para diferenciá-lo dos demais. Mas nem sempre isso funciona.

A grande quantidade deles que são esquecidos em todo lugar e que vão parar no setor de achados e perdidos reforça a ideia de baixa valorização do item.

Enquanto os ocidentais consideram um item cuja posse é quase que intransferível, no Japão o baixo custo do item, a padronização estética e a praticidade no cotidiano tornam a relação com o objeto algo mais flexível.

O guarda-chuva no Japão revela um traço interessante da sociedade. Mesmo em um país conhecido pelo respeito às regras e à propriedade, há espaços informais onde prevalece uma lógica prática e coletiva, moldada pelo cotidiano e pelo clima.

E você? Aceitaria que outra pessoa pegasse o seu guarda-chuva?

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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