Com população em queda, Japão não pode se dar ao luxo de afastar estrangeiros

2026/09/18 08:36
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Tóquio – O Japão depende cada vez mais dos trabalhadores estrangeiros para manter em funcionamento setores essenciais da economia, mas, ao mesmo tempo, vem criando novas barreiras que podem reduzir sua capacidade de atrair essa mão de obra. Em um cenário de concorrência internacional crescente, especialistas alertam que os estrangeiros que hoje consideram trabalhar no Japão podem simplesmente escolher outros destinos.

A questão se torna especialmente preocupante diante da redução da população japonesa e da falta de trabalhadores. Segundo estimativas do Recruit Works Institute, mesmo em um cenário de crescimento econômico praticamente nulo, o Japão poderá enfrentar uma escassez de 11 milhões de trabalhadores até 2040.

Mesmo com avanços na inteligência artificial, robótica e outras formas de automação, ainda faltariam cerca de 4,93 milhões de trabalhadores, segundo o instituto.

Por isso, diversas indústrias já afirmam que não conseguem mais operar sem estrangeiros.

Setores necessitados

Um dos exemplos citados pelo News on Japan é o da construção naval. Uma empresa tradicional do setor, com mais de 70 anos de atividade, afirma que atualmente seria impossível manter a produção sem trabalhadores estrangeiros.

Mais da metade dos funcionários do grupo veio do exterior. São 96 estrangeiros, incluindo trabalhadores com os vistos Tokutei Ginou número 1 e número 2.

A companhia também passou a permitir que estrangeiros assumam funções antes destinadas apenas a japoneses, como a operação de pontes rolantes, desde que obtenham as qualificações necessárias.

Além disso, adaptou parte das instalações às necessidades dos funcionários muçulmanos da Indonésia. Um espaço foi transformado em local para orações, e áreas para lavagem dos pés foram instaladas.

Também foram construídas moradias para famílias, permitindo que trabalhadores com o status Tokutei Ginou número 2 tragam esposas e filhos ao Japão.

Essas medidas refletem uma mudança na disputa por mão de obra. Pequenas e médias empresas localizadas fora das grandes cidades têm dificuldades para competir apenas oferecendo salários mais altos. Por isso, o ambiente de trabalho, a moradia, o respeito à cultura e as condições oferecidas aos estrangeiros passaram a ser fatores decisivos.

O problema é que o Japão já não disputa trabalhadores apenas dentro de suas fronteiras.

Vizinhos concorrentes

Coreia do Sul, Taiwan e outras economias asiáticas também estão ampliando políticas para atrair trabalhadores estrangeiros. Em muitos casos, esses países concorrem exatamente pelos mesmos trabalhadores que o Japão pretende receber.

Uma pesquisa citada pelo News on Japan mostrou que 83,7% dos trabalhadores estrangeiros que vivem no Japão têm interesse em trabalhar em outro país.

O dado indica que o Japão deixou de ser uma escolha automática para quem busca oportunidades no exterior.

Essa mudança ocorre enquanto o próprio governo japonês adota medidas mais rigorosas na política de imigração.

A partir de outubro, por exemplo, as taxas cobradas por diversos procedimentos de imigração terão forte aumento.

Pedidos realizados no balcão da imigração para renovação ou alteração do status de residência poderão chegar a 75 mil ienes. Já a solicitação de residência permanente passará de 10 mil para 200 mil ienes.

Especialistas em mão de obra estrangeira alertam que esses valores podem afastar justamente pessoas que pensavam em construir uma vida no Japão.

Surge, então, uma contradição cada vez mais difícil de ignorar.

De um lado, empresas, governos locais e setores inteiros da economia afirmam que precisam de mais trabalhadores estrangeiros.

De outro, o Japão aumenta custos, endurece regras e transmite a sensação de que a permanência desses trabalhadores será cada vez mais difícil.

Concorrência dentro do Japão

No setor de alimentação, por exemplo, o governo estabeleceu um limite de 50 mil trabalhadores estrangeiros dentro do programa Tokutei Ginou. Como o número já chegou a cerca de 49 mil, novas admissões foram suspensas a partir de abril.

A decisão preocupou empresas do setor.

Uma rede de restaurantes de sushi de Hokkaido, com sete estabelecimentos, emprega 217 pessoas, sendo 48 estrangeiros. Dez delas possuem o visto Tokutei Ginou.

Com a suspensão de novas admissões, a empresa não consegue mais ampliar sua força de trabalho por esse programa.

Segundo a administração, a falta de trabalhadores interfere diretamente nos planos de expansão. Sem funcionários suficientes, novos restaurantes e outros projetos precisam ser adiados.

Empresas de recrutamento também começaram a sentir os efeitos. Segundo uma delas, o número de vagas oferecidas a trabalhadores Tokutei Ginou no setor de alimentação aumentou 2,8 vezes.

Como não é possível trazer novos trabalhadores em quantidade suficiente, empresas passaram a disputar estrangeiros que já vivem no Japão.

Empregadores utilizam conhecidos, contatos pessoais e redes de trabalhadores para convencer funcionários de outras empresas a mudar de emprego.

A disputa por mão de obra, portanto, já ocorre tanto entre empresas japonesas quanto entre diferentes países.

Denúncias contra empregadores

Há ainda outro problema capaz de reduzir a atratividade do Japão: as denúncias relacionadas às condições de trabalho.

Em Hokkaido, um trabalhador estrangeiro com visto Tokutei Ginou denunciou violência em uma empresa agrícola.

Um vídeo gravado por outro funcionário mostrou um homem, que seria gerente da empresa, confrontando trabalhadores e agarrando um deles pela região do peito.

Sete estrangeiros deixaram a fazenda. Uma trabalhadora também denunciou assédio sexual. Os funcionários afirmaram ainda que pagavam 20 mil ienes mensais para viver em dormitórios muito sujos e infestados por ratos.

Outro caso citado envolveu uma filipina que chegou ao Japão em 2019 como estagiária técnica e trabalhou em uma instituição para idosos na província de Fukuoka.

Depois de engravidar, ela afirmou ter sentido pressão para deixar o país.

Segundo seu relato, ao comunicar que pretendia tirar licença-maternidade e voltar temporariamente às Filipinas, um responsável pela organização supervisora teria levantado a possibilidade de que sua gravidez prejudicasse a imagem dos trabalhadores filipinos e sugerido que ela realizasse um aborto.

Ela recusou, voltou para as Filipinas e teve o filho. Posteriormente, entrou com uma ação judicial. No mês passado, um tribunal determinou o pagamento de mais de 3 milhões de ienes em indenização.

Dados do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar mostram que os problemas não se limitam a casos isolados.

Mais de 8 mil violações legais foram identificadas em 2024 em locais de trabalho que empregavam estagiários técnicos.

Situações desse tipo prejudicam a imagem do Japão justamente no momento em que o país precisa se apresentar como uma opção competitiva no mercado internacional de mão de obra.

Cenário está mudando

No passado, muitos trabalhadores estrangeiros aceitavam condições difíceis porque o Japão oferecia salários consideravelmente superiores aos encontrados em seus países de origem.

Esse cenário está mudando. Outras economias asiáticas cresceram, os salários aumentaram em vários países e surgiram novas opções de migração.

Ao mesmo tempo, a diferença salarial entre o Japão e alguns países de origem diminuiu.

Isso significa que fatores como qualidade de vida, possibilidade de levar a família, estabilidade do visto, custo de moradia, tratamento no trabalho e perspectiva de permanência passam a pesar muito mais na decisão.

O exemplo da empresa de construção naval mostra justamente uma possível resposta para esse novo cenário.

A companhia percebeu que não basta contratar estrangeiros. É necessário criar condições para que eles queiram permanecer.

Alguns antigos funcionários estrangeiros, inclusive, mantiveram relações com a empresa depois de voltarem aos seus países.

Alguns abriram escolas de japonês ou centros de treinamento e passaram a encaminhar novos trabalhadores para a companhia japonesa.

Esse tipo de relação cria uma rede internacional de confiança que pode ser cada vez mais importante para as empresas japonesas.

Japão vai disputar trabalhadores?

O desafio do Japão será conciliar o controle da imigração com a necessidade de continuar atraente para os estrangeiros.

É natural que o governo combata irregularidades, fiscalize abusos e exija o cumprimento das leis.

Mas criar obstáculos excessivos para quem pretende trabalhar legalmente, permanecer no país e contribuir para a economia pode produzir o efeito contrário ao desejado.

O Japão já enfrenta uma das mais rápidas reduções populacionais entre as grandes economias do mundo.

Ao mesmo tempo, precisa de estrangeiros na agricultura, construção civil, indústria, restaurantes, lojas de conveniência, hotéis e principalmente no setor de cuidados de idosos.

Nesse cenário, trabalhadores estrangeiros não são apenas pessoas disputando uma oportunidade no Japão.

Cada vez mais, é o Japão que precisa disputar esses trabalhadores.

E, diante da concorrência de outras economias, o país talvez já não possa se dar ao luxo de acreditar que os estrangeiros virão independentemente das condições oferecidas.

Se as barreiras aumentarem enquanto outros países oferecem melhores salários, menos custos, maior estabilidade e condições mais favoráveis para viver com a família, muitos trabalhadores poderão simplesmente escolher outro destino.

Foto: Esta é uma imagem gerada por IA criada exclusivamente para fins ilustrativos. Não representa um evento ou pessoa real

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