Um em cada seis idosos no Japão passa semanas sem falar com ninguém

2026/01/16 07:37
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Tóquio – Um em cada seis idosos que vivem sozinhos no Japão não fala com ninguém por pelo menos duas semanas, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Seguridade Social. Além disso, 30% afirmam não ter “pessoas confiáveis” a quem possam recorrer para ajuda simples, como trocar uma lâmpada.

Até o final de 2025, o Japão somava 36,2 milhões de idosos, pessoas com 65 anos ou mais, o equivalente a 29,4% da população total. As projeções são preocupantes. Em 2070, uma em cada três pessoas no país será idosa, segundo o site Apolitico.

Há cinco anos, a proporção de idosos que residiam sozinhos estava abaixo de 20%. No entanto, entre as 47 províncias japonesas, estima-se que 16 registrem um aumento de idosos solitários acima de 20% até 2040. Em 2050, essa proporção deverá ultrapassar 20% em mais de dois terços das províncias.

Esse cenário impõe desafios significativos aos formuladores de políticas públicas. Estudos indicam que o isolamento social está ligado a problemas de saúde e também a mortes solitárias, segundo o doutor Hiroshi Murayama, do Instituto de Gerontologia da Universidade de Tóquio.

Em japonês, existe a palavra “kodokushi”, que significa morrer sozinho. Há casos em que a morte passa despercebida por dias ou semanas. Para Murayama, isso ocorre porque a sociedade japonesa vem perdendo sua coesão, com o enfraquecimento dos laços entre vizinhos.

Em 2024, a Agência Nacional de Polícia registrou mais de 28.000 idosos que viviam sozinhos encontrados mortos em suas residências entre janeiro e junho. Em muitos casos, as mortes só foram percebidas após duas semanas ou mais, o que indica a ausência de contatos sociais frequentes.

Iniciativas

Há alguns anos, existiam no país clubes com 5,9 milhões de idosos associados. O objetivo dessas iniciativas era incentivar a ajuda mútua e a contribuição para a comunidade local por meio de atividades voluntárias, segundo Murayama.

No entanto, programas liderados pelo governo “raramente são bem executados”, afirma o gerontologista, citando que o maior receio é o de invadir a privacidade das pessoas. “Mas, para combater o isolamento social, é preciso entrar na vida diária ou na privacidade de alguém”, diz Murayama.

O canal Abema News entrevistou um homem de 74 anos que relatou não ter falado com ninguém por mais de um ano. Ele contou que chegou a considerar convidar missionários religiosos para sua casa apenas para ter alguém com quem conversar, publicou o Japan Daily.

Esse tipo de situação aumenta o risco de mortes solitárias no país. Especialistas recomendam que as pessoas desenvolvam hábitos de interação social ou recebam treinamento nesse sentido e busquem ajuda antes de chegarem à terceira idade.

Em 2007, o município de Taketoyo, na província de Aichi, lançou os “Salões de Relaxamento” para apoiar os idosos em questões de saúde. A iniciativa também busca criar um ambiente social favorável e fortalecer a comunidade. Segundo relatos, alguns participantes passaram a se sentir mais felizes, fizeram novas amizades e aprenderam dicas de saúde.

Outras iniciativas incluem os “cafés comunitários”, abertos a qualquer pessoa, onde os participantes podem compartilhar ideias e interagir.

Há ainda programas que envolvem funcionários dos correios ou de empresas de gás, que observam o bem-estar de idosos residentes. Quando a caixa de correspondência permanece cheia por muito tempo, os funcionários relatam a situação às autoridades.

Outra ferramenta utilizada é a Inteligência Artificial no apoio aos idosos, por meio de interação e monitoramento. Aplicativos fazem perguntas sobre o estado de saúde ou o uso de medicamentos, e as respostas são enviadas às autoridades locais e a familiares que vivem em outras regiões. Caso não haja resposta em até 24 horas, as autoridades entram em contato ou visitam a residência para verificar o bem-estar do idoso.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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