Mais de 30% dos jovens deixam primeiro emprego em até 3 anos no Japão; veja os motivos

Tóquio – Mais de 30% dos jovens que concluíram a universidade no Japão em março de 2023 deixaram o primeiro emprego antes de completar três anos de trabalho. Entre aqueles que ingressaram no mercado profissional depois de concluir o ensino médio, o percentual foi ainda maior, chegando a 36,9%, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar.
O levantamento revela que uma parcela significativa dos jovens japoneses não permanece por muito tempo na primeira empresa, apesar de os índices de desligamento terem diminuído em relação ao ano anterior.
Entre os universitários, 31,2% deixaram o emprego nos primeiros três anos, redução de 2,6 pontos percentuais em comparação com a pesquisa anterior. No caso dos formados no ensino médio, a taxa caiu um ponto percentual, para 36,9%.
Entretanto, os números não mostram por que esses trabalhadores deixaram as empresas.
Para compreender melhor o fenômeno, outro levantamento do próprio ministério, realizado em 2023 e divulgado em setembro de 2024, investigou os motivos que levaram jovens trabalhadores a abandonar o primeiro emprego.
Os resultados indicam que as condições de jornada, os relacionamentos profissionais e a insatisfação salarial estão entre as principais razões.
Percentuais variam conforme a escolaridade
A pesquisa mais recente acompanhou trabalhadores que concluíram os estudos em março de 2023 e começaram a trabalhar naquele período. Os dados de desligamento foram contabilizados até 31 de março de 2026.
Entre os jovens que concluíram a universidade, 31,2% deixaram a primeira empresa nesse intervalo. A proporção foi maior entre os formados em instituições de ensino superior de curta duração e estabelecimentos equivalentes, alcançando 43,1%.
Entre os concluintes do ensino médio, o percentual chegou a 36,9%. Já entre os jovens que concluíram apenas o ensino fundamental inferior, a taxa foi de 54,5%.
Apesar das diferenças, a saída do primeiro emprego apresentou redução em três dos quatro níveis de escolaridade analisados. A exceção foi o grupo com apenas o ensino fundamental inferior, que registrou aumento de 0,4 ponto percentual.
O ministério utiliza informações do sistema de seguro-desemprego para identificar quando os recém-formados ingressaram nas empresas e quando encerraram seus vínculos.
Portanto, o levantamento registra os desligamentos, independentemente de terem ocorrido por iniciativa do trabalhador ou do empregador.
Também não informa se a pessoa ficou desempregada ou começou imediatamente a trabalhar em outra empresa.
Pequenas empresas perdem mais funcionários
Uma das diferenças mais expressivas aparece quando os resultados são divididos conforme o tamanho dos estabelecimentos.
Nas empresas com menos de cinco funcionários, 58,2% dos universitários deixaram o primeiro emprego nos três anos seguintes à contratação. Entre os trabalhadores que concluíram o ensino médio, o percentual chegou a 61,3%.
Nos estabelecimentos de cinco a 29 funcionários, as taxas foram de 50,6% para universitários e 53,3% para formados no ensino médio.
Os percentuais diminuem à medida que aumenta o tamanho das empresas.
Nas companhias com pelo menos mil funcionários, apenas 24,2% dos universitários e 24,4% dos formados no ensino médio deixaram o primeiro emprego durante o período.
Isso significa que, entre os universitários, a taxa de desligamento nas empresas com menos de cinco empregados foi mais que duas vezes superior à registrada nas companhias com pelo menos mil trabalhadores.
O levantamento não permite concluir que o tamanho da empresa seja, isoladamente, a causa da diferença. As condições salariais, os benefícios, as perspectivas de carreira e as características de cada setor também podem influenciar a permanência dos funcionários.
Restaurantes e hotéis apresentam os maiores índices
As diferenças também são significativas entre as atividades econômicas.
O setor de hospedagem e alimentação apresentou as maiores taxas de desligamento entre as principais categorias analisadas. Entre os jovens que concluíram o ensino médio, 61,6% deixaram o primeiro emprego em até três anos. No grupo dos universitários, o percentual chegou a 49,9%.
Os serviços relacionados ao cotidiano e ao entretenimento também apresentaram índices elevados, de 61,1% entre formados no ensino médio e 49,8% entre universitários.
Entre os universitários, o setor de educação e apoio ao aprendizado registrou taxa de 42,3%, enquanto saúde e assistência social apresentaram 39,1%. No comércio varejista, 38,1% dos universitários deixaram o primeiro emprego.
Entre os formados no ensino médio, os percentuais também foram expressivos em saúde e assistência social (49,4%), educação (49,3%) e comércio varejista (48,5%).
Os resultados mostram que as dificuldades para manter jovens trabalhadores variam consideravelmente entre os setores econômicos.
Mas por que os jovens deixam o primeiro emprego?
A resposta aparece em outra pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar.
A Pesquisa sobre Emprego de Jovens de 2023, divulgada em 25 de setembro de 2024, investigou a situação profissional de trabalhadores com idades entre 15 e 34 anos.
O levantamento envolveu aproximadamente 17 mil estabelecimentos com pelo menos cinco empregados e cerca de 23 mil jovens trabalhadores. Foram obtidas respostas válidas de 7.867 estabelecimentos e 13.218 trabalhadores.
Diferentemente da pesquisa divulgada em outubro de 2026, que acompanha os desligamentos de recém-formados durante três anos, esse levantamento questionou diretamente os jovens sobre suas experiências profissionais.
Por isso, os resultados ajudam a compreender os motivos mais frequentemente apresentados para deixar o primeiro emprego, mas não se referem exatamente ao mesmo grupo de trabalhadores da pesquisa mais recente.
Jornada, folgas e férias aparecem em primeiro lugar
Segundo a pesquisa de 2023, a principal razão apresentada pelos jovens que deixaram o primeiro emprego foi a insatisfação com as condições de jornada, folgas e férias.
Esse motivo foi mencionado por 28,5% dos entrevistados.
Em segundo lugar apareceram os problemas de relacionamento no ambiente de trabalho, citados por 26,4%.
A insatisfação com os salários ficou em terceiro lugar, com 21,8%, praticamente empatada com a percepção de que o trabalho não correspondia ao perfil pessoal, mencionada por 21,7%.
Também foram apontadas metas ou responsabilidades excessivas, com 15,2%, e falta de perspectivas para a empresa, com 11,5%.
Outros motivos incluíram casamento ou cuidados com filhos, mencionados por 12,1%, e problemas de saúde, com 9,4%.
Os participantes podiam indicar até três razões para a saída. Por isso, os percentuais não somam 100%.
Os resultados mostram que a remuneração não é o único fator considerado pelos jovens ao decidir permanecer ou deixar uma empresa.
As condições de trabalho e a qualidade das relações profissionais também aparecem entre os principais elementos de insatisfação.
Problemas de relacionamento pesam mais nas saídas precoces
A pesquisa também identificou diferenças relacionadas ao tempo de permanência no primeiro emprego.
Entre os jovens que deixaram a empresa antes de completar três meses, 52,3% apontaram problemas de relacionamento no ambiente profissional.
A percepção de que o trabalho não correspondia ao perfil pessoal foi mencionada por 42,1%. Já a insatisfação com jornada, folgas e férias apareceu em 40,8% das respostas.
Esses resultados indicam que as primeiras experiências no ambiente profissional podem ter importância especial na decisão de permanecer na empresa.
Não é possível determinar, porém, se os problemas estavam relacionados à chefia, aos colegas, às condições organizacionais ou a outros fatores específicos, assim como afirmar que todos os jovens que deixaram o emprego precocemente tenham sido vítimas de assédio ou de práticas trabalhistas irregulares.
Salários melhores motivam desejo de mudar de empresa
Outro resultado interessante é a diferença entre os motivos apresentados por quem já deixou o primeiro emprego e as razões mencionadas por trabalhadores que pretendem mudar de empresa no futuro.
Na pesquisa de 2023, 31,2% dos jovens empregados regularmente afirmaram que desejavam mudar de emprego.
Entre aqueles que manifestaram essa intenção, 59,9% disseram procurar uma empresa com melhores condições salariais.
Outros 50% desejavam melhores condições de jornada, folgas e férias.
A possibilidade de encontrar uma atividade mais adequada ao perfil pessoal foi mencionada por 41,9%.
Já 33,8% queriam trabalhar em uma empresa onde pudessem utilizar melhor suas habilidades e capacidades.
A procura por uma companhia com melhores perspectivas futuras foi citada por 33,1%.
Os resultados sugerem que muitos jovens consideram a mudança de emprego uma possibilidade de melhorar a remuneração e as condições profissionais.
Empresas tentam melhorar as condições para manter funcionários
A pesquisa também examinou as medidas adotadas pelos empregadores para reduzir a saída de jovens trabalhadores.
Entre as iniciativas estão a redução da jornada, o incentivo à utilização das férias remuneradas, a melhoria da comunicação entre funcionários e superiores e a criação de oportunidades de desenvolvimento profissional.
O percentual de estabelecimentos que adotavam medidas de redução da jornada e incentivo ao uso de férias remuneradas chegou a 52,9%, aumento de 15,1 pontos percentuais em comparação com a pesquisa anterior, realizada em 2018.
Esse crescimento mostra que mais empresas passaram a considerar as condições de trabalho como parte das estratégias para manter seus funcionários.
O governo japonês também procura apoiar os jovens por meio de programas de orientação profissional e serviços oferecidos pelo Hello Work.
Desafio é manter trabalhadores em um mercado com falta de pessoal
O Japão enfrenta dificuldades persistentes para contratar funcionários em diferentes atividades econômicas.
Nesse cenário, a capacidade das empresas de manter os profissionais que já contrataram tornou-se uma questão importante.
Os resultados divulgados em outubro de 2026 mostram que as taxas de desligamento diminuíram em relação ao ano anterior, o que representa uma melhora na permanência dos recém-formados.
O fato de aproximadamente um em cada três universitários e mais de um em cada três formados no ensino médio deixarem o primeiro emprego em até três anos demonstra que a rotatividade continua significativa.
A pesquisa anterior ajuda a explicar parte desse fenômeno ao mostrar que jornadas, folgas, relacionamentos profissionais e remuneração estão entre os principais fatores considerados pelos jovens.
Para as empresas, o desafio não está apenas em oferecer vagas e contratar novos funcionários, mas também em criar condições que incentivem sua permanência.
Fontes: Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar e Instituto Japonês de Política Trabalhista
Foto: Canva








































