Japonês cobra ¥ 80 mil para procurar fantasmas em imóveis para locação

2026/07/17 14:07
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Tóquio – Se você pretende alugar uma casa no Japão, mas antes quer confirmar se existem fantasmas nela, pode procurar Kazutoshi Kodama. Ele trabalha como investigador de fenômenos sobrenaturais e criou um negócio que consiste em passar a noite sozinho no imóvel, das 22h às 6h, utilizando diversos equipamentos para registrar sinais, movimentos, ruídos e alterações ambientais. O objetivo é verificar se há alguma explicação física para fenômenos considerados estranhos. Kodama, presidente da Kachimode, cobra a partir de ¥ 80 mil pelo serviço. Vai encarar?

No Japão, imóveis onde ocorreram determinadas mortes podem sofrer desvalorização ou encontrar dificuldades para atrair novos moradores. Eles são popularmente chamados de imóveis estigmatizados (事故物件, jiko bukken). Dependendo das circunstâncias da morte, a imobiliária pode ser obrigada a informar o caso aos futuros compradores ou inquilinos.

Em vez de se render aos fantasmas, Kodama, que possui mais de 15 anos de experiência no setor de administração imobiliária, iniciou um serviço chamado "obake chosa", que significa investigação de fantasmas. A Kachimode começou suas atividades em dezembro de 2022 e se apresenta como pioneira nesse tipo de serviço no Japão, embora a profissão de investigador ou de caçador de fantasmas não seja regulamentada nem reconhecida oficialmente.

O público de Kodama inclui proprietários preocupados com a desvalorização dos imóveis e pessoas que desejam se mudar para uma residência sem sinais de fenômenos inexplicáveis.

Quando uma investigação é contratada, Kodama permanece sozinho no imóvel das 22h às 6h. Segundo ele, o período noturno é mais adequado porque há menos ruídos externos e interferências, facilitando a identificação de sons e alterações incomuns. Ele não dorme durante as oito horas de investigação.

No imóvel, Kodama utiliza câmeras com visão noturna, equipamentos para gravação de áudio, câmera térmica, medidores de campos eletromagnéticos, temperatura, umidade e pressão atmosférica, além de outros instrumentos, segundo o President Online.

O serviço custa ¥ 80 mil, mais imposto, por dia de investigação. Despesas de transporte e hospedagem podem ser cobradas separadamente. O preço também pode aumentar de acordo com as características do imóvel ou com a necessidade de realizar o trabalho durante mais de uma noite.

Após a investigação, a Kachimode emite um relatório detalhado e um certificado informando se foram ou não encontradas anormalidades. O documento, porém, não é um certificado oficial reconhecido pelo governo. Trata-se de um documento privado emitido pela própria empresa.

Desde o início das atividades, a Kachimode recebeu cerca de 250 consultas em três anos e meio. Desse total, aproximadamente 80 resultaram em investigações noturnas completas, com duração de oito horas. Em cerca de 10% desses trabalhos foram observados fenômenos inicialmente considerados anormais.

Segundo Kodama, porém, a maioria dessas ocorrências pode ser explicada por fatores físicos. Ruídos podem ser provocados pela dilatação ou contração de materiais da construção, enquanto sensações de frio podem estar relacionadas à circulação do ar ou a diferenças de pressão atmosférica.

O site da Kachimode informa que a empresa participou de investigações ou trabalhos relacionados a 224 imóveis até julho de 2026.

Caso uma anormalidade seja comprovada posteriormente em um imóvel que tenha recebido o certificado de ausência de fenômenos incomuns, a Kachimode oferece uma recompensa de ¥ 100 mil a ¥ 1 milhão. Para receber o valor, é necessário apresentar registros em vídeo ou áudio, ou permitir que um representante da empresa verifique o fenômeno no local.

O trabalho de Kodama tem como objetivo ajudar a recuperar parte do valor de imóveis estigmatizados. Um dos casos divulgados envolveu o apartamento de uma jovem que cometeu suicídio em Tóquio. O imóvel permaneceu vazio durante anos, até que o proprietário contratou Kodama, que passou três noites no local.

Depois da investigação e da emissão do certificado, um novo morador aceitou alugar o apartamento, mesmo sabendo do histórico da propriedade. O aluguel foi estabelecido em 95% do valor médio praticado para imóveis de tamanho e localização semelhantes, de acordo com Kodama.

A Kachimode afirma que o certificado pode facilitar a procura por novos inquilinos e ajudar os proprietários a reduzir a desvalorização. Não há, contudo, dados independentes demonstrando que todos os imóveis investigados tenham sido alugados pelo preço integral.

Como funciona no Japão

No Japão, o simples fato de uma pessoa ter morrido dentro de uma residência, inclusive por causas naturais, não torna automaticamente obrigatória a divulgação do caso a um futuro inquilino ou comprador.

As diretrizes do Ministério da Terra, Infraestrutura, Transporte e Turismo estabelecem que:

  • mortes naturais e acidentes comuns da vida cotidiana, como quedas ou engasgos, em princípio, não precisam ser comunicados;
  • suicídios, homicídios e outras mortes não naturais normalmente precisam ser informados;
  • mortes naturais também podem exigir divulgação quando houve demora na descoberta do corpo, decomposição ou necessidade de limpeza especializada;
  • nos contratos de aluguel, após aproximadamente três anos da ocorrência, as mortes não naturais deixam, em princípio, de exigir divulgação, salvo quando existem circunstâncias especiais;
  • quando o interessado pergunta diretamente sobre a ocorrência de mortes no imóvel, a imobiliária deve responder, independentemente do tempo transcorrido;
  • a obrigação de divulgação também pode permanecer quando o caso teve grande repercussão social ou apresenta circunstâncias que possam influenciar significativamente a decisão do interessado.

As regras são direcionadas principalmente às imobiliárias e aos profissionais que fazem a intermediação da venda ou locação. O proprietário deve fornecer informações corretas para que a empresa responsável possa cumprir suas obrigações.

Em entrevista ao jornal britânico The Times, Kodama estimou que entre 35 mil e 40 mil residências possam se tornar jiko bukken por ano no Japão. O cálculo considera suicídios ocorridos dentro de residências e mortes solitárias nas quais o corpo foi encontrado em estado de decomposição.

A estimativa foi feita por Kodama com base em dados policiais e não representa uma estatística oficial do governo sobre o número de jiko bukken. Não existe uma contagem nacional única desses imóveis, pois a classificação depende das circunstâncias da morte e do impacto psicológico que o caso pode exercer sobre futuros moradores.

Foto: Reprodução/Kachimode no YouTube
Kazutoshi Kodama

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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