Japão registra 134 veículos submersos em passagens subterrâneas; governo reforça prevenção

Tóquio – Um levantamento feito pela agência de notícias Kyodo revelou que 134 veículos ficaram submersos em passagens subterrâneas de cidades japonesas durante cerca de 10 anos. Os casos foram registrados em 80 locais de 33 capitais provinciais e apontam para a necessidade de maior cuidado por parte dos motoristas durante chuvas intensas. Em agosto passado, duas pessoas morreram em acidentes relacionados a alagamentos nessas estruturas na província de Chiba.
As passagens subterrâneas, chamadas de underpasses no Japão, são trechos de ruas ou estradas que passam por baixo de outras vias ou linhas ferroviárias. Como estão em níveis inferiores aos terrenos próximos, podem acumular grandes volumes de água em pouco tempo, especialmente durante tempestades.
A pesquisa da Kyodo, divulgada em 11 de outubro, foi realizada entre setembro e outubro, mediante consultas a órgãos dos governos nacional, provinciais e municipais responsáveis pela administração dessas estruturas.
Ao todo, 104 administradores forneceram informações sobre 866 passagens subterrâneas localizadas em capitais provinciais.
O levantamento mostrou que 311 dessas passagens, o equivalente a aproximadamente 36% do total pesquisado, já precisaram ser interditadas ao trânsito em alguma ocasião por causa de alagamentos. As interdições ocorreram em 42 capitais provinciais.
A cidade de Akita, no norte do Japão, apresentou o maior número de veículos submersos identificado pela pesquisa: 14 automóveis em cinco locais.
Entretanto, a Kyodo esclareceu que os períodos abrangidos pelos registros variam entre as administrações locais. Por isso, os números não permitem uma comparação uniforme entre todas as cidades.
Mortes em Chiba e Fukushima aumentaram a preocupação
Os riscos dessas estruturas ganharam destaque depois das chuvas torrenciais que atingiram Chiba em agosto deste ano, quando duas pessoas morreram em ocorrências relacionadas a passagens subterrâneas inundadas.
Um dos casos que motivaram investigações ocorreu em 13 de agosto, em uma passagem da rodovia nacional 16, no distrito de Chuo, na cidade de Chiba.
O local ficou inundado e a investigação do Ministério de Terras, Infraestrutura, Transportes e Turismo apontou problemas relacionados ao funcionamento do sistema de alimentação elétrica de emergência, que deveria permitir a operação dos equipamentos de drenagem.
Depois do incidente, o governo realizou uma inspeção emergencial em 102 locais de rodovias nacionais administradas diretamente pelo governo central e considerados sujeitos a inundações.
Foram identificadas irregularidades em três locais. Duas já haviam sido corrigidas quando o resultado da inspeção foi divulgado, em 21 de agosto. Posteriormente, o ministério informou que a correção restante havia sido concluída em 28 de agosto.
Outro acidente fatal ocorreu em 7 de setembro, na cidade de Iwaki, província de Fukushima, quando dois veículos ficaram submersos em uma passagem subterrânea inundada pelas chuvas. Uma pessoa morreu.
O ministério informou que os equipamentos de drenagem do local haviam sido inspecionados em 28 de agosto, sem que fossem encontradas anormalidades.
Os acidentes mostraram que a existência de bombas de drenagem, por si só, não é suficiente para eliminar os riscos.
Japão possui aproximadamente 3,8 mil passagens subterrâneas
Segundo o Ministério de Terras, Infraestrutura, Transportes e Turismo, existiam 3.841 passagens subterrâneas desse tipo no Japão no final de março de 2025.
Essas estruturas são comuns em áreas urbanas e regiões industriais, onde permitem que veículos atravessem rodovias ou linhas ferroviárias sem interferir no tráfego.
Entretanto, sua construção cria pontos mais baixos nas vias, onde a água da chuva pode se concentrar.
Embora muitas passagens disponham de bombas e sistemas de drenagem, esses equipamentos possuem capacidade limitada. Quando a precipitação ultrapassa essa capacidade, o nível da água pode aumentar rapidamente.
Também existe a possibilidade de falhas de funcionamento ou interrupções no fornecimento de energia elétrica.
Em situações de chuva intensa, o motorista pode não perceber a profundidade da água acumulada, principalmente à noite ou quando a visibilidade está reduzida.
Ao tentar atravessar o trecho inundado, o veículo pode parar e deixar os ocupantes presos.
Novas regras para fechar passagens antes dos alagamentos
Diante da sucessão de acidentes, o Ministério de Terras, Infraestrutura, Transportes e Turismo anunciou, em 6 de outubro, novas diretrizes para prevenir mortes e danos materiais nessas estruturas.
A principal mudança é a orientação para que os administradores das vias não dependam exclusivamente dos sistemas de drenagem.
O governo passou a recomendar o bloqueio preventivo das passagens subterrâneas quando houver risco elevado de inundação, mesmo que a água ainda não tenha começado a se acumular.
As medidas incluem a instalação ou o reforço de barreiras para impedir a entrada de veículos, a melhoria dos sistemas de alerta e o aperfeiçoamento dos procedimentos de fechamento das vias.
Outra orientação é garantir que, diante de falhas nos equipamentos, os sistemas de segurança adotem procedimentos que reduzam os riscos para os motoristas.
O ministério também pretende ampliar a utilização de bloqueios preventivos em trechos considerados vulneráveis, levando em consideração o histórico de alagamentos e as características de cada local.
Uma das primeiras experiências foi realizada em setembro na passagem subterrânea de Muratamachi, em Chiba. O trecho permaneceu fechado preventivamente durante aproximadamente dez horas, sem que fossem registrados congestionamentos ou acidentes associados à interdição.
A medida demonstrou, segundo o ministério, que impedir antecipadamente a entrada de veículos pode ser uma alternativa eficaz para evitar novas tragédias.
Por que a água pode impedir a abertura das portas?
A Federação Japonesa de Automobilismo (JAF) alerta que a diferença entre a pressão da água dentro e fora do automóvel pode tornar extremamente difícil abrir as portas quando o veículo está submerso.
Em testes realizados pela entidade, uma porta de automóvel submetida a uma profundidade de 60 centímetros exigiu uma força quase cinco vezes maior para ser aberta pelo lado de fora.
Em outro experimento, os pesquisadores verificaram que os vidros elétricos podem deixar de funcionar quando os componentes do veículo são atingidos pela água.
Isso significa que um motorista pode ficar preso mesmo quando o automóvel ainda não está totalmente submerso.
A JAF recomenda que os motoristas não tentem atravessar passagens subterrâneas alagadas, independentemente da aparente profundidade da água.
O que fazer se o carro começar a afundar?
Caso o motorista fique preso em uma passagem inundada, a JAF recomenda retirar imediatamente o cinto de segurança e tentar sair enquanto ainda for possível abrir as portas ou os vidros.
Se as portas estiverem bloqueadas pela pressão da água, a alternativa é tentar sair por uma janela que ainda possa ser aberta.
Quando isso não for possível, um martelo de emergência apropriado pode permitir a quebra do vidro lateral, desde que ele seja do tipo que pode ser quebrado pelo equipamento.
A JAF ressalta que para-brisas e alguns vidros laterais laminados não podem ser quebrados com esses martelos.
Se todas as tentativas falharem, a entidade explica que a entrada de água na cabine pode reduzir gradualmente a diferença de pressão entre o interior e o exterior do automóvel, permitindo a abertura de uma porta. Essa, porém, é uma alternativa de último recurso e extremamente perigosa.
A orientação principal é evitar entrar em vias inundadas. Caso o veículo fique preso, a prioridade deve ser a saída imediata e segura dos ocupantes, sem tentar recuperar objetos pessoais.
Motoristas devem identificar locais de risco
O Ministério de Terras, Infraestrutura, Transportes e Turismo disponibiliza informações sobre a localização das passagens subterrâneas sujeitas a alagamentos no Japão.
O material permite identificar trechos que exigem atenção especial durante chuvas intensas.
Para os brasileiros que utilizam automóveis diariamente em regiões industriais, como Aichi, Shizuoka, Gifu e Mie, conhecer antecipadamente essas áreas pode ajudar a evitar situações de risco.
A Polícia de Chiba também recomenda que os motoristas mantenham um dispositivo de emergência para quebrar vidros em local de fácil acesso, próximo ao banco do motorista.
Durante tempestades, a recomendação é evitar deslocamentos desnecessários e nunca tentar ultrapassar barreiras de interdição.
A pesquisa da Kyodo mostra que os riscos não estão restritos a grandes enchentes. Uma chuva intensa e localizada pode ser suficiente para transformar uma passagem subterrânea em uma armadilha para motoristas.
Fontes: Kyodo News, Ministério de Terras, Infraestrutura, Transportes e Turismo, JAF
Foto: Canva








































