Instituto criado por brasileira abre caminhos para jovens estrangeiros no Japão

Shizuoka - O International Institute of Education and Culture (IIEC, ou Instituto Internacional de Educação e Cultura), de Hamamatsu, na província de Shizuoka, nasceu da necessidade de Adriana Pereira Martins Sugino e da boa vontade de um aluno japonês.
O Japão vivia as consequências da crise financeira mundial de 2008 e 2009 quando um aluno, que estudava português, se ofereceu para dar aulas de japonês ao filho de Adriana aos finais de semana. As aulas, porém, chamaram a atenção de outras famílias e começaram a atrair mais crianças. De uma, passaram para três e, depois, para 16.
O crescimento levou Adriana Sugino a fundar o IIEC no final de 2009, abrindo um amplo leque de cursos e serviços de apoio destinados a crianças e jovens estrangeiros.
Hoje, Adriana domina o idioma japonês, conhecimento essencial para exercer seu trabalho como coordenadora do IIEC. Mas, como muitos dekasseguis, ela chegou ao Japão há 31 anos sem conseguir se comunicar no idioma local.
Agora, aos 57 anos, ela lembra que passou por vários empregos em fábricas. Trabalhou, por exemplo, em uma madeireira em Shimizu, na província de Shizuoka, e depois mudou-se para Ina, em Nagano. Nesse período, casou-se, teve um filho, voltou ao Brasil, divorciou-se e retornou ao Japão, estabelecendo-se em Hamamatsu, onde vive há 23 anos.
Sua trajetória para dominar o japonês começou ainda no primeiro emprego, na madeireira. "Quando cheguei, não havia intérprete para nos ajudar com o idioma. Mas, nessa fábrica em Shimizu, os japoneses me acolheram e começaram a me ensinar palavra por palavra", lembra.

Adriana também buscou apoio em novelas e outras fontes que pudessem ajudá-la a avançar no aprendizado, sempre de forma autodidata. "Mas aquele início na madeireira me ajudou bastante. Depois, contei também com a ajuda de amigos, que me ensinavam. Outro ponto importante para melhorar o domínio do idioma foi o curso de kaigo, quando trabalhei ajudando idosos. Aquilo foi um impulso importante, porque eu precisava aprender mesmo", conta.
Quando chegou o ano de 2008, as economias do Japão e de outros países foram abaladas pela crise financeira mundial, que provocou desemprego em massa. Adriana lembra que, assim como muitos trabalhadores, perdeu o emprego na fábrica da Sony.
Na época, ela havia trazido do Brasil o filho, ainda pequeno, e começou a fazer um arubaito (trabalho de meio período) no Centro Cultural NHK, onde dava aulas de português como língua estrangeira.
"Esse trabalho era de outra brasileira, que passou a tarefa para mim. Então, na época, um aluno japonês desse curso de português que eu dava na NHK se prontificou a ensinar japonês para o meu filho aos finais de semana. Depois, como aumentou muito o número de alunos, ele teve dificuldades para continuar com as aulas sem a estrutura necessária", lembra.
O cenário nas comunidades estrangeiras era complicado. Com a crise, muitas crianças deixaram as escolas brasileiras para ingressar nas japonesas sem compreender o idioma. Outras mal conseguiam se expressar adequadamente em sua língua de herança, o português, entre outras dificuldades.
"Então, apareceu um professor de uma universidade dizendo que queria ajudar os alunos como voluntário. Passou um tempo e já tínhamos 40 alunos e 20 voluntários auxiliando", recorda.
Diante das necessidades cada vez maiores das comunidades estrangeiras, tornou-se necessária a criação de uma organização formal.
Fundação do IIEC

Foi nesse contexto que Adriana fundou o IIEC no final de 2009. O instituto passou a receber não apenas crianças brasileiras, mas também de outras nacionalidades, como vietnamitas, indianas, canadenses, argentinas e peruanas, que necessitavam de reforço escolar para acompanhar as aulas nas escolas japonesas.
A proposta recebeu apoio inicial do Consulado-Geral do Brasil e da Prefeitura de Hamamatsu. O recém-criado IIEC passou a oferecer aulas de reforço escolar, ensino de português como língua de herança e outras atividades. "Abrimos também um curso de inglês e o projeto socioemocional e passamos a contar com um psicólogo", conta.
O projeto socioemocional atende crianças que apresentam dificuldades de adaptação ao ambiente escolar ou para fazer amigos. "Aqui elas aprendem a socializar", explica Adriana.
Mas ela logo percebeu que teria muito trabalho pela frente, incluindo o combate à evasão escolar. Na época, segundo Adriana, era comum jovens estrangeiros estudarem somente até o chugakko, equivalente aos anos finais do ensino fundamental no Brasil, e depois começarem a trabalhar em fábricas, abandonando os estudos.
"Aquela situação me incomodava muito. Então iniciamos no IIEC um trabalho para incentivar os jovens a prosseguirem também para o ensino médio, o koko, mas com a preocupação de orientar os pais sobre a importância disso. E valeu a pena, porque 100% dos alunos assistidos aqui no IIEC foram aprovados nos exames de admissão para o koko", comemora.
Adriana lembra que outra missão assumida pelo IIEC foi trabalhar para que os jovens estrangeiros pudessem chegar às universidades, fossem elas japonesas ou brasileiras.
"E assim organizamos a primeira Hamamatsu Education Fair, uma feira de educação que recebeu mais de mil visitantes, entre jovens e seus familiares. Todos puderam buscar informações com representantes das universidades e também com o Hamamatsu Iwata Shinkin Bank, que explicou como funcionavam os empréstimos e o crédito estudantil para quem pretendia estudar em universidades", relata.
O trabalho apresentou resultados. Alguns dos jovens que se formaram em universidades retornaram ao IIEC para ajudar como voluntários.
Atende também japoneses
Hoje, o IIEC atende 90 crianças e jovens, com idades entre cinco anos e meio e 18 anos, e mantém outros 25 na lista de espera. "Os nossos alunos brasileiros conseguem se expressar em português e em japonês. Também abraçamos os adolescentes, envolvendo-os em diálogos sobre sexualidade, educação financeira e outros temas. E, de acordo com a época do ano, temos cursos preparatórios para os exames do koko ou das universidades", descreve.
Adriana destaca ainda que o IIEC abriu, após a pandemia, o projeto Free School (Escola Livre), destinado a acolher crianças com dificuldades de frequentar o ensino convencional, incluindo casos relacionados à depressão, ao isolamento social, a maus-tratos e a problemas de adaptação.

Na lista de nacionalidades das crianças atendidas, as japonesas merecem um capítulo à parte. Embora o IIEC tenha sido criado inicialmente para atender às necessidades de crianças estrangeiras, famílias japonesas também passaram a procurar o instituto em busca do acolhimento que seus filhos não encontraram no sistema convencional de ensino.
"Elas se enquadraram na Free School por não se adaptarem às escolas locais, seja por terem sido vítimas de ijime (bullying), seja por outros motivos. Muitas não se deram bem com a rigidez desses estabelecimentos de ensino. Além disso, existem aquelas cujos pais trabalharam no exterior e que cresceram inseridas em outra cultura. Quando precisaram voltar para o Japão, também sofreram para se adaptar", explica.
O IIEC está localizado em Hamamatsu, uma das cidades mais multiculturais da província de Shizuoka, mas não restringe o atendimento conforme o endereço dos estudantes. "Temos alunos que residem em outras cidades. Venham de onde vierem, se tivermos vagas, serão acolhidos", garante Adriana.
O instituto, no entanto, mantém uma regra considerada fundamental em relação às faltas. "Como o nosso trabalho é quase 100% voluntário, os alunos não podem faltar. E, quando isso se torna frequente, damos prioridade para quem quer estudar", explica.
Suporte aos pais
Apesar de toda a atenção dedicada às necessidades das crianças, um dos diferenciais do IIEC é o suporte oferecido aos pais, considerados fundamentais para a continuidade dos filhos nos estudos.
"Muitos deles não entendem o sistema educacional do Japão e, por isso, perdem oportunidades. Fazemos reuniões para explicar como tudo funciona. Assim, melhora também a convivência deles com os responsáveis pelas escolas, pois passam a conhecer seus direitos e deveres", explica Adriana.
"Temos também aulas de japonês básico para os pais. E os incentivamos a estudar e a fazer o Exame de Proficiência em Língua Japonesa (JLPT). Todos fazem, e assim os familiares também são incentivados a estudar. Mas, quando uma das crianças começa a se desviar do bom caminho, contamos com um coordenador japonês, que fala português e trabalha na polícia, para conversar com ela e dar as devidas orientações", acrescenta.

A proposta do IIEC é tão bem aceita que recebe apoio de professores de universidades japonesas, como a Seirei Christopher University, a Shizuoka University of Art and Culture e a Shizuoka University.
No total, os trabalhos do instituto contam com o apoio de três professores formados e 32 estudantes universitários. Eles ajudam as crianças em disciplinas como japonês, matemática, química, física e inglês, seguindo uma escala de aulas no IIEC.
Adriana também lembra outra frente na qual precisou atuar: evitar que alunos estrangeiros com dificuldades de acompanhar as aulas fossem encaminhados indevidamente para classes de educação especial.
"Para considerar uma criança dentro do Transtorno do Espectro Autista ou com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), é preciso ter um diagnóstico médico. Muitos alunos estrangeiros foram para salas especiais sem precisar", afirma Adriana.
Segundo ela, como muitos pais desconheciam os procedimentos, acabavam acreditando que se tratava apenas de salas destinadas ao reforço escolar. "Um aluno nosso foi parar nessa sala, mas ele mesmo percebeu que ali não era o lugar dele. Então chamamos a mãe, esclarecemos o assunto e ele pôde frequentar a sala regular, onde foi difícil se adaptar. Nesses casos, podem surgir reações como a recusa em frequentar a escola e uma perda significativa do conteúdo dado em sala de aula", explica.
Orientar professores japoneses
Uma das frentes de trabalho assumidas mais recentemente por Adriana é a orientação de professores e diretores de escolas japonesas que recebem estudantes estrangeiros.
Segundo ela, muitos profissionais ainda enfrentam dificuldades para lidar com essas situações. Por isso, o IIEC estabeleceu uma parceria com uma instituição chamada Gift Tokyo, na capital japonesa. Durante seis meses, Adriana ministrou palestras e workshops sobre a realidade dos estudantes estrangeiros.
"Em novembro, daremos um curso para professores do período pós-escolar em Hamamatsu", afirma.
As atividades desenvolvidas pelo IIEC também chegaram ao conhecimento dos responsáveis por uma empresa que abriu uma escola de ensino fundamental e recebeu cerca de cem crianças estrangeiras.
"Eles me chamaram para ir até lá e realizar um workshop para que os professores aprendessem também a acolher aqueles alunos", explica.
Até 2023, Adriana foi diretora do Conselho de Cidadãos Estrangeiros de Hamamatsu, onde relatava às autoridades japonesas as dificuldades enfrentadas pelos residentes estrangeiros. As reivindicações eram levadas a prefeitos, deputados e políticos ligados ao governo da província.
"Aos poucos, eles foram entendendo as necessidades das comunidades estrangeiras, após três anos de reivindicações. E, graças a isso, foram abertas escolas noturnas que aceitavam estrangeiros. Na época, também pedimos às autoridades que os intérpretes e tradutores que atuavam nas escolas tivessem proficiência e boa conduta fora do ambiente escolar", relata.
Apesar das diferentes frentes em que atua, Adriana afirma que tudo se resume à conscientização dos pais sobre a importância da educação dos filhos.
Muitos chegaram jovens ao Japão e jamais imaginaram que seria possível ver os filhos frequentando uma universidade, seja pela barreira do idioma, seja pelos custos envolvidos.
"Mas conseguimos melhorar esse cenário, pois, com os jovens estrangeiros se formando nas universidades, eles poderão ter uma vida muito melhor e procurar aquilo de que gostam, seja no Japão ou até em outro país", finaliza.
Fotos: Cedidas/IIEC







































