Brasileira em Aichi vira referência no apoio ao ensino para estrangeiros em escolas japonesas

Aichi – Otila Kawano é hoje uma referência no que diz respeito ao apoio à educação de crianças e jovens estrangeiros no sistema de ensino do Japão. Ela acumulou boa parte de sua experiência quando trabalhou no Setor de Escolas na prefeitura de Handa (Aichi) por 11 anos, onde conheceu de perto a realidade das famílias de brasileiros e de latinos, e trabalhou intensamente para que ninguém ficasse pelo caminho por falta de informação e de orientação. Otila hoje presta o mesmo tipo de serviço para cinco municípios de Aichi e reservou um tempo para contar sua história ao Portal Japão.
Natural de Belém, no Pará, Otila, de 53 anos, vive no Japão há 33, desde que acompanhou o fluxo que trouxe dekasseguis ao país. Ela conta que estudava Medicina Veterinária quando uma greve de professores interrompeu os estudos e, como não sabia se conseguiria concluir o curso, veio para o Japão para ficar pouco tempo, juntar dinheiro e retornar ao Brasil. Ela trabalhou em diversas linhas em fábricas e até na construção civil. “Como me dediquei para aprender o idioma japonês desde que cheguei, passei a ajudar outras pessoas voluntariamente a se comunicar em hospitais e na fábrica”, conta, citando que foi o seu conhecimento em japonês que a levou para a área de educação.
Trabalho em Handa

Quando o Japão e o mundo viviam uma das piores crises financeiras da história, em 2008, Otila foi contratada pela prefeitura de Handa para atender no balcão de auxílios. Atendeu em outros balcões, mas sempre envolvendo a transmissão de informações sobre o cotidiano da cidade. Na época, Handa abrigava cerca de 3.200 estrangeiros residentes, sendo que 60% deles eram brasileiros e latinos. Como muitos perderam o emprego, muitos decidiram matricular os filhos nas escolas japonesas e Otila então foi destacada para atender a demanda dos residentes, dentro das escolas de ensino fundamental I e II (19 escolas), bem como creches e jardins de infância (num total de 17, das quais atendeu em pelo menos 10).
“Atendia em português, espanhol e inglês. Acompanhei de perto as demandas das famílias e acabei ficando mais de dez anos no Setor de Escolas em Handa. Nesse período é que fiquei responsável por cuidar da orientação de mais de 200 alunos estrangeiros distribuídos em 29 instituições públicas entre escolas e creches”, relata.
Como Otila não evita o trabalho, em vez de apenas traduzir as informações para os jovens estrangeiros, ela foi além. Trabalhou para construir uma conexão, orientando não apenas os brasileiros sobre como funciona o sistema educacional japonês, mas também os professores e a comunidade local sobre as necessidades das comunidades estrangeiras.
Combate ao ijime
Mas nem tudo foi simples no cotidiano das escolas. Havia casos de maus-tratos (ijime) de japoneses contra estrangeiros, entre brasileiros e outros latinos e entre brasileiros. “O ijime é uma doença silenciosa nas escolas, mas trabalhamos anos procurando corrigir isso, eliminando as barreiras, mostrando que as crianças deviam se ver como crianças, e não num conflito entre japoneses e brasileiros. Durante o processo de adaptação de estrangeiros em escolas japonesas tínhamos muitas ocorrências, e os responsáveis escolares e eu fazíamos visitas noturnas (horário que os pais voltavam do trabalho), na casa de famílias cujos filhos brasileiros sofreram ijime, para pedir desculpas, ou o contrário também ocorreu”, conta.
Otila diz que esses horários estendidos eram trabalho voluntário. “E o fazíamos por uma causa, a de tornar a convivência multicultural realidade. Era uma via dupla, acolhíamos e tratávamos todas as ocorrências com mesma seriedade e importância. Era um trabalho intenso, onde procuramos mostrar a visão de que todos precisavam se adaptar e se tratar como iguais, numa sociedade que avançava rápido demais sem a orientação e mecanismos adequados, fazíamos o que estava ao nosso alcance para derrubar as barreiras de língua e fazer fluir a comunicação”, conta.
Ajuda de professores
Como as crianças tinham dificuldades naturais de aprender algo tão diferente e novo, Otila conta que procurava os meios possíveis para que pudessem compreender o que lhes era ensinado. “Num universo de cada 10 novas crianças matriculadas nas escolas, apenas 2 tinham algum conhecimento do idioma. A maioria precisava de auxílio”, lembra. “Mas eu vi muitas delas crescendo, avançando e chegando até a faculdade, o que me deu uma enorme satisfação. Isso porque não fiquei parada, esperando. Eu ia sempre aonde havia alguém precisando de ajuda e onde alguém podia dar essa ajuda”, diz.
E Otila comemora o fato de ter conhecido professores que se destacavam por criarem métodos de ensino para jovens estudantes estrangeiros. Uma delas era a professora Yoshimi Kojima, formada pela Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka (atual Universidade de Osaka) e doutora em Ciências Humanas pela Escola de Pós-Graduação em Ciências Humanas da Universidade de Osaka. Após trabalhar como professora do ensino fundamental e funcionária de uma ONG, ela seguiu carreira como pesquisadora. Na cidade de Kani, na província de Gifu, Yoshimi foi pioneira ao esclarecer a situação da matrícula de crianças estrangeiras e contribuiu para a criação de um sistema voltado ao “zero absenteísmo escolar”, além da implementação de cursos de língua japonesa e consultorias para governos locais.

Premiação realizada pela província de Aichi (Foto: Cedida)
Outra referência na área de educação para estrangeiros é a professora Hiroko Tsukihi, que há 25 anos atua no fortalecimento do apoio educacional a estudantes estrangeiros em Toyohashi, criando materiais didáticos traduzidos utilizados em todo o Japão e formando professores e assistentes multiculturais. Também se destacam profissionais da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio, responsáveis por pesquisas, avaliações e capacitação de educadores voltados à inclusão de crianças de diferentes culturas e línguas. “Além delas, tantos outros profissionais envolvidos em educação inspiraram e guiaram meu caminho na educação”, afirma Otila.
E por um desses lances do destino, em 2025, Otila foi homenageada pelo governo de Aichi com o "Prêmio de Serviço Meritório para a Promoção da Coexistência Multicultural da Prefeitura de Aichi" junto com outras entidades que se destacaram em suas áreas de atuação. “Qual não foi a minha surpresa ao ter ao meu lado no palco a professora Hiroko Tsukihi. Eu e ela éramos as únicas pessoas comuns entre as entidades homenageadas, mas que se destacaram justo pela área de atuação, educação das crianças estrangeiras e ela sempre será para mi uma referência importante e forte”, lembra.
Formação e reconhecimento
É preciso lembrar que no período Otila acumulou várias formações na área, para assegurar atendimentos mais precisos a quem necessitasse. Ela tem formação para intérpretes comunitários, apoiadores de intérpretes e tradutores de Gifu, fez o curso de Educação e Formação para Intérpretes e Tradutores (IAEC), além do Curso de intérprete Português e Espanhol para a Área Médica Universidade da Província de Aichi.
Tem ainda outras formações, como de Intérprete de Língua Portuguesa, Associação Japonesa de Apoio à Interpretação Pública, Intervenção para Crianças com Autismo em Terapia Ocupacional, Universidade Rhema, e concluiu a Formação de Intérprete de Apoio ao Desenvolvimento infantil (MIEF) e o Curso para a cidadania global no ensino médio (UNESCO).
Hoje atua em cinco cidades

Otila ficou no setor de escolas de Handa até 2019, quando passou a prestar os seus serviços na área de educação também em outros 5 municípios de Aichi, como Tokai, Hekinan, Higashiura, Takahama e Nishio. Ela ainda colabora na prefeitura de Handa, como conselheira escolar e do setor de convivência multicultural. Agora as necessidades são outras. As famílias estão mais ativas na busca por informações. Além disso, hoje, na internet existem muitas informações disponíveis.
“Hoje trabalho dando suporte para estudantes estrangeiros nos colegiais. O acesso a esse nível de ensino continua difícil, mas algumas escolas se adaptaram aos alunos de fora. Não houve facilitação para ninguém, os estudantes precisaram se preparar melhor para passar nos exames de admissão. E precisaram de muito apoio para avançar nas aulas e concluir o curso. Quando comecei a atuar na área de educação, quase não havia alunos estrangeiros no colegial na minha região. E hoje vejo-os se formando em faculdades e universidades, felizmente com o apoio de seus familiares. Vendo isso sinto um orgulho enorme, é como um sonho realizado”, relata.
Um exemplo
Bruna Tami Matsui, 30 anos, de Handa, conhece a história de Otila. Ela era adolescente, estudava em escola brasileira e fez aulas de japonês com Otila logo que chegou ao Japão. Como seus pais queriam construir casa na cidade, ela passou a estudar no primeiro ano do chuugakko (ensino fundamental II). “Foi uma época de aprendizado, porque eu não falava japonês e não entendia a rotina da escola. Uma prima até que me ajudou por um tempo, mas eu tive que aprender a me virar”, relata.
Curiosamente, Bruna hoje é mãe de Takashi Henrique Matsui, de 10 anos, e de Mirella Mayumi Matsui, de 7, os quais também recebem todo suporte por parte de Otila desde a creche. “Ela ensinou as regras da escola, a rotina, as matérias. E fazia questão de saber se estavam entendendo o que era ensinado”, diz. Bruna admira o trabalho de Otila, que se preocupa em preparar a nova geração para que possa ajudar as crianças das próximas. “Ela também ensina valores, empatia e a importância de apoiar quem passa por dificuldades. Minha família é muito grata por tê-la caminhando com meus filhos”, finaliza.
Educação exige apoio emocional e financeiro

Além de suas atividades com as escolas, Otila fundou duas associações (団体, dantai) voltadas ao apoio aos alunos estrangeiros. Uma delas é a Ciranda no Kai, criada em 2017, que garante aulas gratuitas para que consigam acompanhar o currículo no primário e no ginásio das escolas japonesas e conta com o trabalho de professores japoneses voluntários. A outra é a Mango Belém Projecto, de 2018, que realiza palestras de orientação sobre desastres naturais, carreiras para jovens e adultos, além de dar suporte diversificado de acordo com as demandas da comunidade. Outra frente em que Otila atua é na empresa Casa Cuatro, aberta há dois anos e que contrata professores para dar reforço escolar, aulas de programação, português, inglês e japonês.
Depois de tantos anos inserida no cotidiano das famílias estrangeiras e de suas dificuldades em lidar com os desafios do sistema de ensino japonês, Otila comenta: “Quando cheguei aqui havia muito a ser feito. Mas já preparamos a terra, lançamos as sementes. Algumas sementes até se tornaram árvores. Mas ainda tem muita coisa a ser feita. Hoje, o maior problema é a falta de planejamento educacional na parte financeira por parte das famílias, sem o que, a educação escolar de muitas crianças fica em segundo plano”, lamenta.
Segundo Otila, sem apoio, principalmente emocional, as crianças não conseguem avançar adequadamente. E tem um adicional preocupante, que é a saúde mental das pessoas nas comunidades estrangeiras. “Muitos jovens sofrem com depressão e dificuldade em entender seu lugar no mundo. E infelizmente já perdemos algumas crianças e jovens nesse caminho. Eles desistiram, apesar de tudo de bom que muitos tinham conquistado. Em algum momento houve falha no suporte emotional. É muito desesperador não conseguirmos estar atentos a tudo que nossos jovens passam e às dúvidas que têm sobre sua identidade cultural, social e financeira. Os jovens que avançaram nos estudos e se formaram em faculdades ou que têm uma profissão já definida, tiveram o apoio não só financeiro, mas também emocional das famílias, mesmo com os pais não dominando o idioma japonês”, alerta.
Fotos: Cedidas







































