Simone, a brasileira que virou estrela na televisão japonesa

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Tóquio – É impossível ficar próximo da brasileira Simone e não rir em algum momento. Foi com esse carisma que ela conquistou boa parte do público japonês, participando de programas de TV. Tanto é que é reconhecida por fãs nas ruas de Tóquio, onde reside. Graças à sua animação tipicamente brasileira, ela também tem apresentado festivais. O próximo será o Brazilian Day em Toyota (Aichi), no sábado (6) e domingo (7).

Simone contou ao Portal Japão que morava na Aclimação, na capital paulista. Sua mãe era casada com um nissei e ambos decidiram que a família viria para o Japão para realizar o sonho de muitos: juntar dinheiro para garantir uma vida melhor. “Costumo brincar que o sonho era vir para o Japão, ganhar dinheiro e ir embora. Não ganhamos dinheiro e estamos tentando ainda”, diz. Hoje a mãe e o padrasto dela continuam vivendo no Japão, agora apreciando o descanso merecido.

Ela chegou ao Japão com 13 anos e foi logo matriculada no segundo ano do “chuugakko”, seguindo sem parar até concluir a faculdade. Simone se formou em Comunicação na Edogawa University, em Chiba. Na época, seu maior sonho era trabalhar na televisão. “Eu queria, na verdade, ficar atrás das câmeras, talvez trabalhar como produtora. Não queria aparecer”, relata.

Para Simone, a TV representava um mundo mágico, um universo distante, onde ela talvez nunca chegasse a fazer parte, como aquelas pessoas que apareciam na telinha. “Eu não me enquadrava no padrão de beleza, que era ser muito magrinha, bonitinha. Eu não era tímida, mas não sabia se conseguiria trabalhar na televisão”, conta.

Adaptação difícil na escola

Seus pais chegaram ao Japão com um contrato, mas a empreiteira disse que não havia emprego para eles nas fábricas em cidades onde havia comunidades brasileiras, e que deveriam permanecer em uma cidade pequena de Chiba chamada Tsuga.

“E nessa cidade, onde fomos morar, havia talvez mais uma família de brasileiros, mas não tinha fábricas por perto. Então meu padrasto começou a trabalhar como motorista e minha mãe em um restaurante que produzia bentôs”, lembra. Além do trabalho, a prioridade dos pais era a educação de Simone e do irmão Jomar.

A vida escolar, porém, foi complicada. “Os adultos acham que, por ser criança, a adaptação é mais rápida e fácil, que você vai entender logo e se enturmar. Mas às vezes as crianças são mais cruéis que os adultos. Se não quiserem brincar com você, não vão. E por ser diferente, não saber o costume japonês e as regras da escola, no começo ia de brinco e relógio, e tudo era motivo de chacota. A professora avisava que não podia ir assim, mas eu não entendia o que ela falava. E estudar era muito difícil. Como não entendia japonês, não conseguia copiar o que a professora passava na lousa”, recorda.

Suas dificuldades no início da vida escolar e com o idioma continuaram, a ponto de não saber nem quando havia prova. “No primeiro dia de aula, vi a professora dar um tapa em um aluno e fiquei me perguntando: ‘Onde eu vim parar?’ Por outro lado, não ter ido para um lugar com comunidade brasileira foi até bom, porque tive que me virar de qualquer jeito e aprender a cultura e o idioma japonês”, diz.

Um ano depois, sua mãe fez amizade com uma brasileira de Chiba, que tinha filhas na faixa dos 18 anos, as quais costumavam ir às baladas em Roppongi, em Tóquio “E as filhas dessa brasileira me chamaram para ir para Roppongi. Então, na segunda-feira seguinte eu contei na escola sobre essa balada, coisa que seria normal no Brasil, mas virou um comentário geral”, lembra.

Mesmo assim, Simone conseguiu passar para o nível colegial. Ali, devido às suas notas e à persistência, ingressou em uma escola menos disputada. E, surpreendentemente, tornou-se capitã do time de tênis. “A professora perguntou quem queria ser a capitã. Eu ergui a mão pensando que todo mundo também iria levantar. Mas ninguém o fez e eu acabei ficando capitã por dois anos”, recorda.

Primeiros passos na televisão

Folheando uma revista em inglês, Simone viu uma vaga para participar do programa “Koi no Karasawagi”, comandado pelo comediante Akashiya Sanma, com a participação de estrangeiros. “Na época, eu tinha 19 anos e gostavam do jeito como eu falava, era engraçado para os japoneses. Eu era a gordinha engraçada, fora do padrão das outras convidadas, que eram como modelos”, diverte-se. Foi nesse ambiente que descobriu que queria estar diante das câmeras e não atrás, como produtora. “Eu me sentia feliz naquele ambiente de luzes, câmeras. Eu me sentia em casa”, lembra.

Vieram então convites para comerciais e outros programas, como “Koko ga Hen da yo Nihonjin”, de Takeshi Kitano, na TBS. Foi o primeiro programa semanal do qual Simone participava. Ele misturava celebridades japonesas e 100 estrangeiros. O programa colocava os convidados para debater os estranhos costumes dos japoneses. A atração durou alguns anos, mas Simone participou por apenas três meses. “Certamente porque eu falava demais”, revela.

Reconhecimento e maturidade

Ao longo da carreira, Simone participou de mais de 30 programas na TV japonesa. “Até publicaram sobre mim na Wikipedia, mas há informações erradas lá”, observa. Ainda assim, é reconhecida nas ruas e já foi abordada por pessoas emocionadas. “Isso porque eu participei de um seriado, que está na Netflix, chamado ‘SPEC’, e fazia a personagem Nancy, que morre”, conta ela, que é casada com o japonês Hiroshi, com quem tem um filho de 7 anos, Luka.

Com o tempo, a brasileira amadureceu no ofício. “Antes era tudo farra. Agora é diferente. Faço minha prece, respiro fundo, faço exercício vocal e sei o que o diretor espera de mim. Agora tudo é mais pensado”, garante.

“O último trabalho do qual participei foi um quadro dentro de um programa com duração de 24 horas, semelhante ao nosso ‘Criança Esperança’. Esse quadro ‘Ueda to Onna ga Hoeru Yoru International’ durou duas horas. E para mim foi uma honra ter participado de um programa tão famoso e especial aqui no Japão, representando o Brasil”, comenta ela.

Eventos brasileiros

Além da TV, Simone se destaca agora também em eventos culturais. Em julho, apresentou o Festival Brasil & Latino em Tóquio. E, neste fim de semana, subirá ao palco no Brazilian Day em Toyota (Aichi).

“Neste ano, estarei no palco apresentando as atrações. Mas nas vezes em que não estava, nesses eventos me dava o direito de ser brasileira, de comer pastel, tomar guaraná, dançar e cantar. Eu me sentia em casa, matando as saudades. Agora, apresentar o Brazilian Day é uma honra. Às vezes eu choro ao ver a plateia feliz”, conclui.

Fotos: Cedidas

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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