Cuidado redobrado com as águas-vivas nas praias japonesas

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Tóquio – As águas-vivas são temidas em todos os mares: podem provocar queimaduras dolorosas, dores lancinantes e, em alguns casos, até levar à morte. No Japão, esses animais também costumam aparecer nas praias, representando um risco real para os banhistas.

Segundo a Japan Lifesaving Association (JLA), entre 2013 e 2019, cerca de 12.200 pessoas precisaram ser socorridas no mar, entre julho e agosto. Desse total, 7.800 foram picadas por águas-vivas, representando 60% do total.

Água-viva em japonês é クラゲ (kurage) e, segundo os profissionais da JLA, caso a pessoa seja picada, deve sair imediatamente da água, devido também ao risco de afogamento. Algumas delas, como a vespa-do-mar e outras espécies de cubomedusas, podem ter seus ferrões neutralizados se for aplicado vinagre (4% de ácido acético) sobre a área da pele atingida. O produto impede que os ferrões que ainda não ejetaram o veneno sejam ativados. Mas o vinagre não neutraliza o veneno que já entrou no corpo, que pode atacar células e nervos.

Primeiros socorros

Segundo a JLA, na costa do Japão existem algumas águas-vivas mais comuns, que causam danos em banhistas. Quando a pessoa é picada, um dos procedimentos é remover os tentáculos da água-viva que ficaram grudados na pele, pois contêm cnidócitos que não dispararam e podem causar novas ferroadas. Para remover os tentáculos, é recomendado usar luvas ou uma pinça, puxando-os de forma rápida, mas suave. Caso o faça com as mãos livres, sem luvas, evite tocar no rosto ou em outras partes do corpo. Em seguida, lave bem os dedos e as mãos com água do mar ou água corrente, para eliminar possíveis restos de cnidócitos.

Caso haja tentáculos enrolados na vítima, que não puderam ser retirados completamente, lave a região afetada com água do mar. Os profissionais da JLA alertam para nunca usar água doce (como água de torneira), pois sua condição pode causar um choque osmótico nos cnidócitos ainda não disparados, fazendo com que eles liberem mais toxina e agravem os sintomas.

Mesmo ao usar água do mar, é importante lavar com suavidade, para evitar estimular os cnidócitos restantes. Se não houver tentáculos visíveis, o ideal é não lavar, para não estimular desnecessariamente os cnidócitos que não podem ser vistos.

A próxima etapa do socorro é aplicar calor ou frio. A técnica usada nos Estados Unidos e Austrália é primeiro aquecer a área afetada. Quando ocorrem múltiplas ferroadas de águas-vivas, a vítima pode sofrer um choque anafilático. Daí a importância de sair do mar imediatamente após ser ferido. Esse choque pode ocorrer de 10 a 15 minutos após a ferroada. A recomendação é procurar um serviço médico.

Aquecer: o veneno das águas-vivas contém toxinas proteicas, sensíveis a temperaturas acima de 40 °C. Uma das formas usadas é aplicar água quente (cerca de 40 °C ou mais, mas em temperatura tolerável para a pele) continuamente sobre a área atingida ou mergulhar a parte afetada em água quente.

Resfriar: como a área da ferroada tende a inchar e se tornar quente, resfriar ajuda a contrair os vasos sanguíneos e aliviar a dor. Pode-se usar bolsas de gelo, compressas frias ou até garrafas de bebida gelada aplicadas sobre o local.

Uso do vinagre

O método popular de tratar o problema é aplicar vinagre, solução de ácido acético a 4%, diretamente na ferida causada pela água-viva.

Mas atenção: quando a picada for de cubomedusas, como a Andon kurage e Habu kurage, o vinagre é eficaz, pois inativa os cnidócitos (células urticantes).

Porém, se a picada for de Caravela-portuguesa (Katsuonoe-boshi) e Aka kurage, o vinagre pode ter efeito contrário, estimulando os cnidócitos a disparar mais toxinas.

Por isso, o JLA recomenda que, se não for possível identificar a espécie que causou a ferroada, é preciso ter cautela, para não haver agravamento dos sintomas. E, como a reação ao veneno varia de pessoa para pessoa, não é fácil determinar apenas pela marca da ferroada qual espécie foi responsável.

Por exemplo, em Okinawa, os casos graves costumam ser provocados quase exclusivamente pela Habu kurage, então o uso do vinagre é recomendado na maioria das ocorrências. Já em Kyushu e regiões mais ao norte de Honshu, quando não se sabe qual foi a espécie que causou a ferroada, não é recomendado usar vinagre.

As que causam mais acidentes no Japão

Andon kurage

Foto: Jony Cooper

É incolor e transparente, pouco visível na água, e nada relativamente rápido. Os cnidócitos, quando estimulados física ou quimicamente pelo contato com uma presa ou inimigo, disparam instantaneamente os nematocistos (dardos venenosos), injetando toxina no alvo.

Dependendo da pessoa, a marca da ferroada pode ficar semelhante a uma cicatriz de queimadura (queloide) e permanecer por longo tempo. Não há registros de mortes. Mas, devido a uma resposta alérgica tardia, pode ocorrer forte coceira por até uma semana após a ferroada, dificultando até o sono. Para aliviar, é bom imergir a área afetada em água morna.

Durante as marés de lua cheia ou nova, podem ser observados grandes grupos de Andon kurage. Onde elas estiverem, fique longe. Ainda não se sabe o motivo de se juntarem assim.

É importante lembrar que as águas-vivas não atacam de propósito, mas simplesmente ferroam quando seus tentáculos entram em contato com uma presa, que pode ser uma pessoa ou outro animal.

Caravela-portuguesa

Foto: Volkan Yuksei

Ela não é uma água-viva comum, pois pertence ao grupo dos hidrozoários. E também não é um organismo único, mas uma colônia de vários outros, cada um responsável por uma parte.

O nome japonês Katsuonoe-boshi vem do fato de aparecer na costa do Pacífico central do Japão, acompanhando cardumes de atum (katsuo) empurrados pelas correntes marítimas. O lado flutuador lembra um chapéu tradicional (eboshi).

A parte maior visível da Caravela-portuguesa, chamada de flutuador translúcido, tem cerca de 10 cm, com tons de azul vibrante. Dentro há gases, como monóxido de carbono, que permitem que o organismo flutue. Mas é um organismo que se desloca pelas correntes e ventos. Em geral, fica em mar aberto, longe da costa, mas pode ser arrastada para as praias no Japão por ventos fortes e tufões, algumas vezes em grande número.

Os tentáculos da Caravela-portuguesa podem chegar a 10 metros, em média, mas podem atingir até 50 metros. Quando estimulados, os cnidócitos (células urticantes) disparam dardos venenosos que injetam toxina no alvo.

A Caravela-portuguesa é extremamente perigosa para os seres humanos. Seu veneno causa dor intensa e imediata, comparada a uma descarga elétrica. A área atingida incha e fica inflamada, com dor que pode durar por horas. No caso de uma segunda ferroada, pode ocorrer um choque anafilático até 15 minutos após a picada. Em casos graves, pode levar à morte.

Os sintomas incluem:

  • urticária generalizada,
  • espirros e tosse,
  • dificuldade para respirar,
  • náusea e vômito,
  • fraqueza, palpitações e ansiedade.

Água-viva Vermelha Japonesa


Foto: Chidorian

Devido às suas listras vermelhas, é chamada também de água-viva bandeira de regimento.

Um pó obtido ao secar essa espécie provoca espirros, daí ser também conhecida como água-viva espirro (Hakushon-kurage).

Seu veneno é forte e causa muita dor. Mas não há relatos de casos fatais.

Foto: Banco de Imagem

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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