92% das grandes empresas no Japão são abertas a trabalhadores estrangeiros

Tóquio – Pesquisa feita pela TV estatal NHK revelou que 92% das principais empresas japonesas aceitam trabalhadores estrangeiros. Entre as razões citadas estão a necessidade de garantir profissionais com habilidades específicas em meio ao declínio profissional. O levantamento abrangeu 100 grandes empresas entre dezembro e janeiro, com 78 delas dando respostas válidas. Quase dois terços afirmaram que contratam trabalhadores estrangeiros para garantir habilidades e tecnologias específicas e para ajudar a promover a inovação por meio de uma força de trabalho diversificada. Outro motivo apontado foi o fortalecimento das operações comerciais globais e a resposta à escassez de mão de obra.
Quanto aos desafios para aceitar estrangeiros: 51% citaram a necessidade de aprimorar os sistemas de ensino da língua japonesa e de treinamento profissional, e 38% apontaram a necessidade de agilizar o processo de obtenção de vistos e residência para funcionários estrangeiros. O professor Toshihiro Menju, da Universidade de Estudos Internacionais de Kansai, foi ouvido pela NHK e disse que o Japão precisa competir com outros países da Ásia e da Europa por recursos humanos: "É importante oferecer aos trabalhadores estrangeiros oportunidades de treinamento profissional nas mesmas condições que os funcionários japoneses. O governo ou a empresa precisam assumir a responsabilidade de fornecer a eles aulas de japonês."
O debate sobre a necessidade de trabalhadores estrangeiros no Japão cresce à medida que a escassez de mão de obra se torna mais visível em setores essenciais da economia. Por trás dessa demanda está uma transformação demográfica profunda: o país encolhe em população e envelhece em ritmo acelerado. A redução do contingente em idade ativa impõe limites à capacidade produtiva das empresas e pressiona o sistema de saúde e previdência. Diante desse cenário, as projeções para as próximas décadas indicam um desafio estrutural que vai além de soluções pontuais.
Queda vertiginosa da população
As projeções oficiais indicam que a população do Japão, no ritmo em que está, cairá para 87 milhões de habitantes em 2070. Não bastasse isso, a proporção de pessoas com 65 anos de idade ou mais deverá subir para 38,7% em pouco mais de 40 anos. Para se ter uma base, a participação de idosos hoje está perto de 30%. O problema é que essa conta não fecha, pois faltarão trabalhadores para dar conta da produção nas empresas e para ajudar a sustentar o sistema de saúde e previdenciário que será usado pela população idosa. É aí que entram os trabalhadores estrangeiros, que alguns setores da política atual no Japão não veem com bons olhos.
Setores como restaurantes, hotéis, comércio, transporte e a área de cuidados de saúde são os que mais sofrem com a falta de gente para trabalhar. O próprio Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar reconhece que a falta de trabalhadores é duradoura e persistente desde os anos 2010 e voltou a se intensificar em muitos ramos após a pandemia, com destaque para hospedagem e alimentação. O país não tem um número exato, oficial e único para indicar quantos trabalhadores faltam para a economia rodar sem problemas. Há estimativas, porém, em relatórios de mercado. O Recruit Works Institute fez um estudo no qual estima a falta de mais de 3,41 milhões de pessoas em 2030 e mais de 11 milhões em 2040. Já o Persol Research and Consulting informou que haverá escassez de 6,44 milhões de trabalhadores em 2030.
Para se ter uma base, em outubro (2024) o Japão tinha 2.302.587 trabalhadores estrangeiros, o que foi um recorde histórico. Esse total equivale a 3,7% do total de empregados no Japão. E mesmo que o total de estrangeiros continue crescendo, como temem alguns políticos, as simulações sugerem que só a imigração não vai resolver o problema, porque a lacuna projetada é de milhões.
Quantos estrangeiros e de onde?

O relatório anual do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar sobre a situação de emprego de estrangeiros (baseado em notificações obrigatórias) até outubro (2024) mostrava que havia 2.302.587 estrangeiros trabalhando no país, ou uma alta de 12,4% em um ano. Eles estão empregados em 342.087 empresas. A origem dos estrangeiros é bastante diversa. Entre parênteses está a participação no total:
- Vietnã: 570.708 (24,8%)
- China, incluindo Hong Kong e Macau: 408.805 (17,8%)
- Filipinas: 245.565 (10,7%)
- Nepal: 187.657 (8,1%)
- Indonésia: 169.539 (7,4%)
- Brasil: 136.173 (5,9%)
- Myanmar: 114.618 (5,0%)
- Coreia do Sul: 75.003 (3,3%)
Outros grupos e países somam o restante. Veja a distribuição por setor, com números absolutos e percentuais:
- Indústria de transformação: 598.314 (26,0%)
- Serviços, não classificados em outras categorias: 354.418 (15,4%)
- Comércio atacadista e varejista: 298.348 (13,0%)
- Acomodação e alimentação (hotéis, restaurantes): 273.333 (11,9%)
- Construção: 177.902 (7,7%)
- Saúde e bem-estar (inclui parte de cuidados): 116.350 (5,1%)
- Informação e comunicações: 90.546 (3,9%)
- Educação e apoio ao aprendizado: 82.902 (3,6%)
- Outros: 310.474 (13,5%)
Como se vê, o emprego dos estrangeiros se concentra mais em alguns setores, como indústria, comércio, serviços e alimentação, onde a pressão pela escassez de trabalhadores é mais visível no cotidiano.
Onde estão estes trabalhadores?
O mesmo relatório do governo aponta as províncias onde os trabalhadores estrangeiros mais se concentram no país, ainda segundo dados de outubro (2024):
- Tóquio: 585.791 (25,4% do total do país)
- Aichi: 229.627 (10,0%)
- Osaka: 174.699 (7,6%)
Os números mostram uma concentração grande em áreas metropolitanas e polos industriais. Com relação ao tipo de visto, os trabalhadores são distribuídos assim: a maior fatia já estava em vistos de áreas profissionais e técnicas (718.812, 31,2%), seguida por vistos baseados em status como residentes permanentes e cônjuges (629.117, 27,3%) e por estágio técnico (470.725, 20,4%). Os números sugerem a entrada para ocupações mais qualificadas e manutenção de fluxos para trabalho de base e de campo.
A importância do domínio do idioma
O governo do Japão, quando abriu as portas para a vinda de estrangeiros para trabalhar, não se preocupou em preparar a mão de obra de fora com relação ao idioma e aos costumes japoneses, já que o que importava era que a economia continuasse aquecida. Agora, porém, no atual governo, os estrangeiros se tornaram alvo de reclamações de políticos, com a alegação de que não falam japonês e não respeitam a cultura local.
É fato que o estrangeiro que sabe se comunicar bem no idioma local consegue empregos mais facilmente. No Japão existe o exame que demonstra o quanto cada pessoa conhece da língua japonesa. O Exame de Proficiência em Língua Japonesa (JLPT) é realizado desde o nível mais básico ao avançado. Basta ter um certificado do nível 3 (N3), 2 (N2) ou 1 (N1), que é o máximo, para que a situação do trabalhador mude.
Um levantamento demonstrou que 43,9% dos estabelecimentos apontaram a dificuldade de comunicação devido à capacidade de japonês como principal desafio na hora de contratar um estrangeiro. Se o trabalhador alcança o N3 no JLPT, ele terá condições de se manter em funções com rotinas mais padronizadas e com suporte interno, ficando limitado para algumas funções que exigem contato com clientes, leitura de manuais complexos, segurança e relatórios. Ao subir para o N2, o trabalhador passa a ter muito mais chance de disputar vagas com exigência de comunicação no dia a dia, leitura mais densa e autonomia. Isso não garante alto salário por si só, mas amplia o leque de setores e funções e reduz o atrito de integração.
O que o governo pensa
A primeira-ministra Sanae Takaichi reconhece que o Japão precisa de trabalhadores estrangeiros para enfrentar a escassez de mão de obra causada pelo envelhecimento da população e pela diminuição da força de trabalho ativa. Ela diz que a presença deles deve ser orientada por necessidades econômicas dentro de um quadro de regras claras e respeito à lei japonesa. Seu governo tem insistido em uma coexistência ordenada entre japoneses e estrangeiros, com foco em aplicação rigorosa das leis de visto, controle de permanência ilegal e expectativas de obediência às normas do país enquanto apoia entradas seletivas para setores em falta de trabalhadores.
Ao mesmo tempo, Takaichi adota uma posição política mais rígida em relação à imigração quando comparada aos seus antecessores, defendendo restrições mais firmes a fluxos migratórios mais amplos e respondendo às preocupações populares sobre segurança e identidade cultural com medidas de controle reforçado. Sua eleição como líder do Partido Liberal Democrático (PLD) refletiu uma tendência interna de enfatizar regras mais estritas sobre estrangeiros residentes, ainda que o país continue dependente de mão de obra estrangeira para sustentar setores essenciais da economia.
O impasse japonês não se resume a uma discussão ideológica sobre imigração, mas trata-se de uma equação demográfica e econômica que exige planejamento de longo prazo. Mesmo com maior rigor nas regras, os dados indicam que a participação de estrangeiros tende a permanecer como parte relevante da estratégia para mitigar a escassez de trabalhadores. Ao mesmo tempo, avançar na qualificação linguística, na integração social e na definição clara de políticas públicas será decisivo para equilibrar crescimento econômico, coesão social e sustentabilidade fiscal em um país que envelhece rapidamente.
Foto: Canva








































