Meu filho não fala japonês: veja que apoio pode receber na escola pública em Shizuoka

2026/10/09 09:52
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Shizuoka — Colocar um filho em uma escola japonesa sem que ele consiga se comunicar em japonês é uma das principais preocupações de famílias estrangeiras que chegam ao país. Na província de Shizuoka, porém, existem mecanismos para identificar o nível de japonês da criança e oferecer diferentes formas de apoio, desde a aprendizagem das primeiras palavras necessárias para a vida escolar até acompanhamento voltado à compreensão das matérias.

A necessidade é expressiva na província. Segundo o levantamento mais recente do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia (MEXT), com dados de 1º de maio de 2025, havia 4.966 alunos estrangeiros matriculados em escolas públicas de Shizuoka que necessitavam de orientação de língua japonesa. O número representa aumento de 16,2% em relação aos 4.275 registrados na pesquisa anterior, de 2023.

Somente no shōgakkō, a escola primária japonesa, eram 3.116 estudantes estrangeiros nessa situação. No chūgakkō, equivalente à segunda etapa do ensino fundamental, eram 1.354. Havia ainda 330 alunos no ensino médio, além de estudantes em outras modalidades escolares.

O português aparece com destaque. Entre os 4.966 estudantes estrangeiros de Shizuoka considerados pelo MEXT como necessitando de japonês, 2.112 tinham o português como língua materna, o maior grupo da província. Depois apareciam o filipino, com 1.233 estudantes, o espanhol, com 361, o chinês, com 256, e o vietnamita, com 251. Isso significa que mais de quatro em cada dez estudantes estrangeiros que precisam de apoio de japonês em Shizuoka têm o português como principal idioma.

O apoio não é destinado apenas a estrangeiros. O mesmo levantamento identificou 572 estudantes de nacionalidade japonesa em escolas públicas de Shizuoka que também precisavam de orientação de japonês, por exemplo, crianças criadas em ambientes familiares em que outro idioma é predominante. Somados estrangeiros e japoneses, eram 5.538 estudantes que se enquadravam nessa situação.

Falar japonês no recreio não significa conseguir acompanhar a aula

Um ponto importante para os pais é que o MEXT não considera como necessitando de apoio somente a criança que praticamente não consegue falar japonês.

A definição oficial inclui também alunos que conseguem manter conversas cotidianas, mas ainda não possuem o chamado japonês acadêmico correspondente à sua idade ou série e, por isso, têm dificuldade para participar das atividades escolares.

Uma criança pode conversar com colegas, brincar e responder a perguntas simples e, ao mesmo tempo, não compreender suficientemente um problema de matemática, um texto de ciências ou as explicações mais abstratas do professor.

Por isso, avaliar apenas se a criança "fala japonês" pode levar a uma impressão errada sobre sua capacidade de acompanhar as matérias.

O primeiro apoio pode começar logo depois da chegada

O Conselho de Educação da província de Shizuoka mantém material específico para crianças com raízes estrangeiras que ainda não entendem japonês.

Entre os recursos está um currículo de orientação inicial destinado, por exemplo, às chamadas pré-classes mantidas por municípios e às salas internacionais existentes dentro de algumas escolas.

A província define a pré-classe como uma classe de orientação inicial destinada, entre outros casos, a crianças recém-transferidas para o sistema japonês. Já as salas internacionais podem funcionar dentro da própria escola. O material preparado pela província contém um programa que vai do primeiro ao 20º dia de orientação, além de planos para atividades de integração com os demais alunos.

Termos que os pais podem encontrar são: pré-classe, プレクラス, purekurasu orientação inicial de japonês, 初期日本語指導, shoki nihongo shidō sala internacional, 国際教室, kokusai kyōshitsu orientação de língua japonesa, 日本語指導, nihongo shidō

É importante observar, entretanto, que isso não significa que toda escola de Shizuoka tenha uma sala internacional ou uma pré-classe. A própria província informa que as pré-classes são organizadas pelos municípios e que as estruturas de apoio podem existir dentro das escolas. Portanto, o serviço disponível precisa ser confirmado no Conselho de Educação da cidade onde a família mora ou diretamente na escola.

Criança pode sair de algumas aulas para estudar japonês

Existe também um mecanismo previsto pelas regras nacionais chamado currículo especial para ensino de japonês, 特別の教育課程, tokubetsu no kyōiku katei.

Ele permite que estudantes que necessitam de japonês recebam aulas específicas de acordo com sua capacidade linguística. Essas aulas podem ser acrescentadas ao currículo normal ou substituir parte de determinadas atividades escolares.

No shōgakkō e no chūgakkō, o padrão estabelecido pelo MEXT é de 10 a 280 períodos de aula por ano. Um período corresponde normalmente a 45 minutos no shōgakkō e a 50 minutos no chūgakkō. Em situações específicas, como a chegada recente ao Japão, a orientação pode ser concentrada em um período inicial.

Uma das formas é a chamada orientação fora da classe regular, conhecida como 取り出し指導, toridashi shidō. Nesse modelo, o aluno deixa temporariamente a sala normal em determinados horários para receber japonês ou apoio relacionado à aprendizagem.

O objetivo não é manter a criança separada da turma. O próprio MEXT esclarece que a estrutura foi criada considerando que, gradualmente, o estudante possa participar das aulas de sua classe regular com maior autonomia.

Dependendo da estrutura da região, a orientação também pode ocorrer em outra escola. Nesses casos, o diretor da escola onde o estudante está matriculado pode reconhecer essas aulas como parte do currículo especial.

O japonês necessário para matemática ou ciências também faz parte do apoio

O objetivo do sistema não é ensinar apenas cumprimentos, hiragana, katakana ou conversação.

O MEXT orienta que o estudante aprenda japonês de forma que consiga participar das atividades escolares e, progressivamente, compreender as matérias.

Para isso foi desenvolvido o chamado currículo Japanese as a Second Language (JSL). A proposta liga a aprendizagem do japonês ao conteúdo acadêmico. No caso do chūgakkō, por exemplo, existem materiais relacionados a língua japonesa, matemática, ciências, estudos sociais e inglês.

Isso é especialmente importante para crianças que já dominam conceitos acadêmicos em português, mas ainda não conhecem o vocabulário japonês necessário para demonstrar o que sabem.

Como a escola pode avaliar o nível da criança

O MEXT possui ferramentas específicas para avaliar a capacidade linguística de estudantes com diferentes origens.

Uma delas é o DLA, atualmente chamado avaliação dialógica para estudantes com diversidade cultural e linguística. A versão foi atualizada em 2025 e não funciona simplesmente como uma prova escrita.

A avaliação procura observar, por meio da interação individual, o que a criança consegue fazer sozinha e o que consegue fazer quando recebe apoio. São avaliadas habilidades como ouvir, falar e ler, e a análise pode considerar também o repertório linguístico que o estudante possui em sua língua materna.

O Ministério também criou o chamado "medidor da força da linguagem", ことばの力のものさし, kotoba no chikara no monosashi, que considera tanto a capacidade global de pensar e se expressar usando diferentes línguas quanto a aquisição específica do japonês.

Isso reforça um ponto importante para as famílias: não saber japonês não significa que a criança não saiba a matéria ou tenha dificuldade intelectual.

A avaliação deve considerar sua história escolar, tempo de permanência no Japão, línguas utilizadas em casa e o que ela consegue fazer em outros idiomas.

Pode existir um plano individual para o aluno

Quando é utilizado o currículo especial de japonês, a escola pode trabalhar com um plano individual de orientação, 個別の指導計画, kobetsu no shidō keikaku.

O documento serve para registrar a situação do estudante, objetivos, conteúdo da orientação, evolução da aprendizagem e eventuais ajustes.

O MEXT orienta que esses planos sejam revistos periodicamente. Para uma criança recém-chegada ao Japão, isso é particularmente importante porque seu nível de japonês pode mudar rapidamente nos primeiros meses.

Em outras palavras, o apoio não precisa permanecer igual durante todo o ano. Conforme a criança passa a compreender mais japonês e acompanhar melhor as aulas regulares, a quantidade e a forma da orientação podem ser ajustadas.

Professor de japonês, auxiliar e apoio na língua materna

Além do professor responsável pela orientação de japonês, municípios e escolas podem utilizar profissionais auxiliares.

O próprio MEXT prevê a participação de profissionais que auxiliam no japonês ou nas matérias escolares e de pessoas capazes de apoiar o estudante em sua língua materna. O governo nacional também financia medidas adotadas por governos locais para a contratação de auxiliares de japonês e de profissionais que conhecem o idioma de origem dos alunos.

Isso, porém, não significa que haverá um profissional que fale português permanentemente em cada escola.

A quantidade de profissionais, os idiomas disponíveis, a frequência das visitas e a forma de atendimento dependem do município e da estrutura escolar.

Por esse motivo, pais brasileiros devem perguntar especificamente se existe 支援員, shien'in, profissional de apoio, ou 母語支援員, bogo shien'in, profissional de apoio na língua materna, disponível para aquela escola ou região.

Shizuoka criou material próprio para os primeiros dias

O Conselho de Educação de Shizuoka disponibiliza gratuitamente o material "Hajimete no Nihongo to Kurasu no Nakamazukuri", voltado à aprendizagem inicial do japonês e à integração da criança com seus colegas.

O conteúdo inclui currículo, programa de aulas do primeiro ao 20º dia e atividades para ajudar o estudante a entrar na rotina escolar.

A província também mantém o guia multilíngue "Yōkoso! Nihon no Gakkō e", ou "Bem-vindo à escola japonesa", dirigido a estudantes estrangeiros e seus responsáveis.

Há uma versão completa em português, além de versões em japonês, espanhol, filipino e vietnamita. O objetivo é explicar o funcionamento da escola japonesa e facilitar a adaptação da família.

Pais também precisam conseguir se comunicar com a escola

A barreira do idioma não atinge apenas a criança.

Pais que não dominam japonês podem ter dificuldade para entender avisos, reuniões, horários, documentos, avaliações, comunicados de emergência e orientações sobre o futuro escolar.

Shizuoka mantém um projeto de incentivo ao uso do chamado japonês simples, やさしい日本語, yasashii nihongo, dentro das escolas. Trata-se de adaptar o japonês para que pessoas com conhecimento limitado do idioma consigam compreender a informação.

Segundo a província, o objetivo é melhorar a comunicação entre professores, estudantes estrangeiros e responsáveis, facilitar a adaptação escolar, contribuir para a permanência da criança na escola e favorecer a continuidade dos estudos. Em anos recentes, projetos desse tipo foram desenvolvidos, por exemplo, em Atami, Yaizu e Numazu.

Isso não substitui necessariamente um intérprete. São recursos diferentes.

O intérprete transmite a informação entre dois idiomas. O japonês simples procura tornar a própria comunicação em japonês mais compreensível.

O apoio pode variar bastante de uma cidade para outra

A província de Shizuoka estabelece políticas, produz materiais e apoia os municípios, mas grande parte da execução ocorre em nível municipal.

A política educacional provincial de 2026 coloca entre suas medidas a orientação de japonês para estudantes com raízes estrangeiras, o apoio à formação de carreira e o apoio às iniciativas municipais para enfrentar situações de crianças fora da escola.

Isso explica por que duas famílias que moram em cidades diferentes podem encontrar estruturas distintas.

Uma cidade pode manter uma pré-classe centralizada antes de a criança frequentar plenamente a escola regular. Outra pode oferecer orientação dentro da escola. Em alguns locais podem existir profissionais de apoio em português, enquanto em outros a solução pode ser um intérprete enviado apenas em determinados momentos ou ferramentas de tradução.

Por isso, esta matéria explica o sistema geral existente em Shizuoka, mas os serviços concretos precisam ser verificados município por município.

O que os pais devem fazer

Ao matricular uma criança que ainda não fala japonês, ou quando perceber que ela conversa normalmente mas não consegue acompanhar as matérias, os pais podem procurar a escola e o Conselho de Educação municipal e perguntar:

• se a criança será avaliada quanto ao nível de japonês;

• se existe orientação de japonês, 日本語指導, nihongo shidō;

• se há pré-classe, プレクラス, purekurasu, ou sala internacional, 国際教室, kokusai kyōshitsu;

• se pode ser utilizado o currículo especial, 特別の教育課程, tokubetsu no kyōiku katei;

• se existe orientação fora da sala regular, 取り出し指導, toridashi shidō;

• se há profissional de apoio ou profissional que fale português;

• como a escola acompanhará a evolução do japonês da criança;

• se existe plano individual de orientação;

• como serão explicados aos pais boletins, reuniões, avisos e decisões importantes;

• no caso de aluno do chūgakkō, que apoio existe para escolha e ingresso no ensino médio.

Uma frase simples que o responsável pode apresentar à escola é:

「子どもの日本語指導について相談したいです。」 Kodomo no nihongo shidō ni tsuite sōdan shitai desu. "Gostaria de conversar sobre o apoio de japonês para meu filho."

Para perguntar sobre português:

「ポルトガル語の通訳や支援員はいますか。」 Porutogarugo no tsūyaku ya shien'in wa imasu ka. "Há intérprete ou profissional de apoio em português?"

A língua materna também deve ser considerada

As orientações mais recentes do MEXT reforçam que a avaliação do estudante não deve observar apenas seu japonês.

O Ministério afirma que crianças com diferentes origens linguísticas devem ser avaliadas levando em conta as capacidades que possuem em todas as línguas que utilizam. O próprio DLA foi reformulado para incorporar essa perspectiva.

Para os pais, isso significa que é importante informar à escola se a criança: frequentou escola no Brasil; lê e escreve em português; tem domínio de matemática ou outras matérias em português; já estudou japonês anteriormente; fala outro idioma além de português e japonês; chegou recentemente ao Japão; já viveu anteriormente no Japão e retornou ao Brasil.

Essas informações ajudam a separar uma dificuldade causada pela língua de outros tipos de dificuldade de aprendizagem.

Dificuldade com japonês não deve ser confundida com deficiência

Esse cuidado é particularmente importante quando se discute educação especial.

O próprio MEXT passou a investigar como os municípios avaliam a capacidade de comunicação em japonês antes de decidir pelo ingresso de estudantes em classes de apoio especial. Entre os pontos observados estão avaliações objetivas da capacidade linguística, tempo de permanência no Japão, idioma utilizado em casa e participação de profissionais capazes de analisar a situação sob a perspectiva da educação de estudantes estrangeiros.

Portanto, uma criança que ainda não compreende as explicações do professor simplesmente porque está aprendendo japonês não deve ter essa dificuldade interpretada isoladamente como indicação de deficiência.

O apoio não termina quando a criança começa a conversar

Uma das informações mais importantes para as famílias é justamente esta: aprender o japonês necessário para brincar, pedir comida ou conversar com colegas não significa ter atingido o nível necessário para acompanhar todas as matérias.

O MEXT diferencia a comunicação cotidiana da capacidade linguística exigida para atividades acadêmicas. É possível, portanto, que uma criança que pareça bastante adaptada continue precisando de apoio para leitura, escrita, vocabulário e compreensão das matérias.

Por isso, os pais devem observar não apenas se o filho "já fala japonês", mas se entende as explicações, consegue realizar tarefas, acompanha os livros didáticos e sabe explicar o que aprendeu.

Material em português

A Província de Shizuoka disponibiliza a página oficial sobre educação de estudantes estrangeiros, onde estão o currículo inicial de japonês e o guia escolar em português:

Educação de estudantes estrangeiros da Província de Shizuoka

Na mesma página, a família pode acessar diretamente a versão em português do guia "Bem-vindo à escola japonesa". 静岡県公式ホームページ

O Ministério da Educação também possui um guia completo de matrícula e vida escolar para estudantes estrangeiros em português:

Guia do MEXT para estudantes estrangeiros, incluindo versão em português

Para conhecer as ferramentas oficiais utilizadas para avaliar a capacidade linguística:

Avaliação da capacidade linguística de estudantes estrangeiros, MEXT

Para consultar as regras do currículo especial de japonês:

Sistema de currículo especial para orientação de japonês, MEXT

A página com a política educacional de Shizuoka para 2026 também confirma que o apoio de japonês a crianças com raízes estrangeiras permanece entre as prioridades da província. 静岡県公式ホームページ

Um detalhe importante para os brasileiros

Os números mais recentes ajudam a dimensionar por que esse serviço é particularmente relevante para a comunidade brasileira. Dos 4.966 estudantes estrangeiros que precisavam de japonês nas escolas públicas de Shizuoka em maio de 2025, 2.112 tinham o português como língua principal. Nenhum outro idioma reunia tantos estudantes nessa situação. 文部科学省ホームページ

Isso também reforça a importância de os pais procurarem a escola assim que perceberem dificuldade. A criança não precisa esperar "aprender japonês sozinha" para só depois acompanhar as matérias.

O sistema educacional japonês prevê justamente que a aprendizagem da língua e a aprendizagem escolar possam caminhar juntas.

Foto: Canva

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