Japão leva cartilha militar às escolas e provoca acusações de doutrinação

Tóquio – O Ministério da Defesa do Japão produziu e distribuiu a escolas uma cartilha infantil que apresenta a visão do governo sobre a política de defesa e a situação da segurança no entorno do país. Intitulado "Maruwakari! Nihon no Boei", o material utiliza ilustrações e linguagem simplificada e tem como público-alvo principalmente alunos dos últimos anos do ensino fundamental, do ginásio e do ensino médio.
A distribuição física da edição de 2024 ocorreu após consultas às secretarias provinciais de Educação. Levantamentos realizados por entidades de professores apontaram que cerca de 6.100 exemplares foram enviados a aproximadamente 2.400 escolas primárias de várias províncias. Não foi divulgada uma relação completa das instituições contempladas.
Até o momento, não há informação de que escolas brasileiras ou outras escolas estrangeiras instaladas no Japão tenham sido incluídas diretamente nessa distribuição. No entanto, crianças brasileiras matriculadas em escolas públicas japonesas podem ter acesso ao conteúdo caso a instituição tenha recebido e utilizado a cartilha.
O material defende a necessidade de fortalecer a capacidade militar japonesa diante das atividades da China, da Coreia do Norte e da Rússia, além de explicar conceitos como dissuasão e capacidade de contra-ataque. A iniciativa é criticada por sindicatos de professores e entidades ligadas aos direitos das crianças, que acusam o governo de apresentar apenas uma visão sobre temas controversos de segurança e defesa.
O assunto da cartilha veio à tona quando a parlamentar Chikage Koga afirmou que jovens de famílias em dificuldades econômicas ingressam nas Forças de Autodefesa do Japão, enquanto filhos de famílias ricas não escolhem a carreira militar. A declaração foi feita durante uma discussão sobre a distribuição, nas escolas, da versão infantil do Livro Branco da Defesa, expondo a dificuldade das Forças de Autodefesa para recrutar pessoal e a tentativa do governo de ampliar o apoio público ao fortalecimento da defesa nacional.
O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, classificou a fala de Chikage Koga como preconceituosa e inaceitável. Posteriormente, a parlamentar retirou o comentário, pediu desculpas e recebeu uma advertência de seu partido. Mas o fato não foi apagado. Nos últimos anos, o Ministério da Defesa passou a utilizar uma linguagem mais simples, ilustrações, mangás, personagens e materiais destinados aos jovens para explicar as atividades das Forças de Autodefesa.
Críticos consideram que essa estratégia pode apresentar de maneira excessivamente favorável políticas de segurança sobre as quais não existe consenso na sociedade. O governo, por outro lado, afirma que busca apenas tornar a política de defesa mais compreensível em um momento de crescente tensão no Leste Asiático.
Cartilha chegou fisicamente às escolas
Desde 2021, o Ministério da Defesa publica na internet uma versão infantil de seu Livro Branco, destinada principalmente a alunos dos últimos anos do ensino primário e a estudantes do ginásio e do ensino médio.
O documento é chamado "Maruwakari! Nihon no Boei", expressão que pode ser traduzida como "Entenda a Defesa do Japão". A cartilha utiliza linguagem simplificada, fotografias, gráficos e ilustrações para explicar por que o Japão mantém as Forças de Autodefesa, quais são as preocupações de segurança ao redor do país e como o governo pretende fortalecer sua capacidade defensiva.
Em 2025, pela primeira vez, o Ministério da Defesa enviou exemplares físicos da edição de 2024 diretamente às escolas primárias. Segundo informações divulgadas pelo próprio ministério e pela imprensa japonesa, aproximadamente 6.100 exemplares foram remetidos a cerca de 2.400 escolas em diferentes regiões do país.
Nem todos usam o material
O envio não significa, porém, que todas as escolas tenham aceitado de bom grado a publicação nas aulas ou permitido o acesso imediato dos estudantes. A decisão sobre seu aproveitamento ficou sob a responsabilidade das autoridades educacionais locais e de cada instituição. Apenas 9 das 47 províncias do Japão concordaram com a distribuição do material.
Em Nagasaki, por exemplo, a Secretaria Municipal de Educação rejeitou a cartilha. As escolas locais foram expressamente instruídas a não dar livre acesso ao livreto, com a ordem de que as cópias fossem guardadas na sala dos professores. A explicação foi a de que a leitura das narrativas de ameaça poderia ferir e discriminar crianças nas escolas com raízes nos países citados, como China, Rússia e Coreia do Norte.
Na província de Fukushima, os professores de uma escola primária leram o texto e concluíram que os problemas ali contidos eram severos, e decidiram mantê-lo fora do alcance dos alunos.
Já na província de Iwate, o parlamentar Shin Saito apresentou um pedido formal ao Conselho de Educação, exigindo o recolhimento imediato das cartilhas. Ele também acusou o Ministério da Defesa de tentar induzir as crianças a apoiar o rearmamento e o uso de capacidades ofensivas, como mísseis de contra-ataque, que são inconstitucionais.
O ministro Shinjiro Koizumi, porém, anunciou que manterá a distribuição em todas as escolas. Segundo o jornal Japan Press Weekly, ele afirmou, em entrevista a jornalistas, que o Ministério da Defesa trabalhará com o Ministério da Educação para incentivar os conselhos de educação de todo o país a colaborarem com o repasse da cartilha para as crianças, sinalizando uma intensificação da pressão sobre os conselhos locais.
A linguagem sobre ameaças e dissuasão
A cartilha infantil está dividida em quatro partes principais. Elas explicam por que as Forças de Autodefesa seriam necessárias, mostrando o que ocorre no entorno do Japão, quais medidas o país pretende adotar e como os militares atuam em grandes desastres.
O material menciona as atividades militares da China, da Coreia do Norte e da Rússia e afirma que a região onde o Japão está localizado não pode ser considerada segura. Também aborda a chamada capacidade de contra-ataque, o fortalecimento da aliança com os Estados Unidos (EUA), os gastos com defesa e os equipamentos das Forças de Autodefesa.
Um dos trechos que mais despertaram críticas utiliza a guerra na Ucrânia para explicar o conceito de dissuasão. O texto afirma que uma das razões pelas quais a Rússia invadiu o país vizinho foi a insuficiência da capacidade defensiva ucraniana.
Para os críticos, essa explicação reduz um conflito complexo a uma questão predominantemente militar e pode transmitir às crianças a ideia de que a paz depende principalmente da força armada. O Ministério da Defesa argumenta que a publicação procura explicar, em linguagem acessível, a posição adotada pelo governo japonês após a invasão russa da Ucrânia e diante do aumento das atividades militares de países próximos.
Anime e personagens nas campanhas militares
O uso de ilustrações e personagens de anime pelas Forças de Autodefesa não começou com a cartilha distribuída às escolas. Ao longo dos últimos anos, unidades regionais utilizaram mascotes em estilo anime, personagens femininas e até helicópteros decorados para atrair a atenção do público em eventos e campanhas de recrutamento.
Entre 2015 e 2016, o Ministério da Defesa distribuiu cartazes com personagens de "Gate", série ambientada em um universo no qual integrantes das Forças de Autodefesa atravessam um portal e passam a atuar em outro mundo.
O autor da obra, Takumi Yanai, serviu anteriormente nas Forças de Autodefesa. A série apresenta os militares japoneses de maneira predominantemente positiva, como profissionais disciplinados que protegem civis e empregam sua capacidade tecnológica contra forças consideradas hostis.
Em 2017, uma campanha regional de recrutamento também utilizou personagens de "The Irregular at Magic High School". A escolha de Tatsuya Shiba, protagonista extremamente poderoso e emocionalmente reservado, chamou a atenção justamente por contrastar com a imagem mais acolhedora normalmente empregada na comunicação institucional.
Essas iniciativas são exemplos do chamado "moe marketing", estratégia que utiliza personagens capazes de despertar afeição no público para promover produtos, serviços, instituições ou localidades.
No contexto militar, essa estética pode tornar equipamentos, uniformes e atividades das Forças de Autodefesa mais familiares para jovens que cresceram consumindo mangás, animes e jogos.
Críticas de especialistas
A distribuição provocou protestos de sindicatos de professores e de organizações pacifistas. O Sindicato Nacional dos Professores e Funcionários das Escolas (Zenkyo) pediu que o Ministério da Defesa interrompesse o envio, argumentando que o conteúdo apresenta predominantemente a posição oficial do governo sobre temas politicamente controversos.
A professora Keiko Nakamura, associada ao Centro de Pesquisa para a Abolição de Armas Nucleares da Universidade de Nagasaki, classificou a cartilha como "extremamente perigosa". Ela argumentou que o material reduz o debate sobre segurança nacional à militarização e à dissuasão, silenciando opções diplomáticas, o que pode levar as crianças a uma compreensão simplista de que a segurança só pode ser protegida pela força militar.
O historiador Atsushi Koketsu, conhecido por suas críticas à política de segurança do Japão, afirmou que apresentar países vizinhos sobretudo como ameaças pode estimular preconceitos e reduzir o interesse das crianças por outras culturas. Ele classificou a versão infantil do Livro Branco como um material inadequado para uso escolar.
A cartilha foi qualificada como "problemática e perigosa" por Yoko Kojiya, ex-professora do ensino fundamental e secretária-geral de uma organização não governamental. Ela alertou que o livreto omite a reflexão sobre guerras passadas, afirmando que "obscurecer a reflexão sobre guerras passadas leva à preparação para a próxima guerra".
Nobuko Murata definiu a publicação como uma "doutrinação unilateral" de crianças para apoiar a política nacional de fortalecimento militar. Murata é membro do comitê executivo central do sindicato Zenkyo.
Já para Ukero Magosaki, ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores, o documento do Ministério da Defesa fomentará nas escolas a "beligerância e a hostilidade" em relação aos países citados entre a geração mais jovem.
Além do Zenkyo, outras entidades protestaram contra o material e organizações ergueram suas vozes. A Children and Textbooks Japan Network 21 criticou a falta de menção à Constituição pacifista na cartilha, e o comitê de Nagasaki da Nova Associação de Mulheres do Japão apresentou um pedido formal ao Conselho de Educação da província, exigindo que a distribuição nas escolas primárias fosse interrompida, sob o argumento de que o governo estava impondo seus pontos de vista a crianças em fase de desenvolvimento.
Crise de recrutamento
A preocupação com a imagem da carreira militar ocorre em um momento no qual as Forças de Autodefesa enfrentam dificuldades para preencher suas vagas.
O envelhecimento da população, a queda no número de jovens e a concorrência com empresas privadas reduziram a quantidade de candidatos. Nos últimos anos fiscais, o número de recrutas ficou abaixo das metas estabelecidas pelo Ministério da Defesa.
Nesse contexto, o comentário de Chikage Koga atingiu um ponto sensível. Ao relacionar o ingresso nas Forças de Autodefesa à pobreza, a parlamentar reforçou a percepção de que a carreira militar seria uma alternativa escolhida principalmente por pessoas com poucas oportunidades econômicas.
O ministro Shinjiro Koizumi declarou que a afirmação era falsa e representava uma forma de discriminação profissional. Para ele, o comentário também ofendeu militares e seus familiares.
O futuro do pacifismo japonês
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão mantém uma Constituição de caráter pacifista. Seu artigo 9 renuncia à guerra como direito soberano da nação e proíbe a manutenção de forças com potencial bélico para solucionar disputas internacionais.
Apesar disso, o país mantém as Forças de Autodefesa desde 1954. Nas últimas décadas, sucessivos governos ampliaram suas atribuições e passaram a interpretar a Constituição de maneira a permitir uma participação maior na segurança regional e na defesa de aliados.
A mudança ganhou velocidade após a invasão da Ucrânia pela Rússia e diante dos programas nuclear e de mísseis da Coreia do Norte, das atividades militares chinesas ao redor de Taiwan e das ilhas Senkaku, além da crescente cooperação entre China e Rússia.
O Japão decidiu elevar seus gastos com defesa e adquirir capacidades que anteriormente eram consideradas incompatíveis com sua política exclusivamente defensiva, incluindo mísseis de longo alcance destinados a atingir bases inimigas em determinadas circunstâncias.
O governo chama esse processo de fortalecimento das capacidades de defesa. Parte da oposição, sindicatos, pesquisadores e movimentos pacifistas o descreve como um afastamento gradual do pacifismo do pós-guerra ou como uma forma de remilitarização.
A comunicação dirigida aos jovens faz parte dessa disputa de interpretações. Para o governo, trata-se de explicar os riscos enfrentados pelo país e a função das Forças de Autodefesa. Para os críticos, a linguagem simples e a estética associada a mangás e animes podem reduzir a percepção das consequências humanas, políticas e financeiras do fortalecimento militar.
O uso da cultura pop não transforma automaticamente uma campanha institucional em doutrinação. Mas, quando temas complexos são apresentados quase exclusivamente a partir da visão do governo, torna-se necessário discutir até que ponto o material informa e a partir de que momento começa a persuadir.
Foto: Reprodução/Ministério da Defesa do Japão






































