Japão estuda sistema que alerta vítima quando stalker se aproxima

2026/07/31 14:14
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Tóquio – O governo japonês estuda obrigar autores de perseguição a usar um dispositivo eletrônico de rastreamento por GPS, semelhante à tornozeleira eletrônica utilizada no Brasil. O objetivo é impedir que eles se aproximem das vítimas e evitar que novos casos de stalking terminem em violência.

Para isso, o governo elaborou um conjunto de medidas emergenciais de combate à perseguição, apresentado na terça-feira (28) durante uma reunião ministerial sobre prevenção ao crime. Também estão sendo analisadas experiências internacionais de monitoramento de agressores e criminosos sexuais, publicou a Kyodo.

Uma das propostas é desenvolver dispositivos menores que possam ser usados por pessoas submetidas a ordens de restrição. O equipamento permitiria acompanhar a localização do perseguidor e emitir um alerta caso ele se aproximasse da vítima.

Nesse sistema, a própria vítima e as autoridades poderiam ser notificadas quando o agressor entrasse em uma área de exclusão, como as proximidades da residência, do local de trabalho ou de outros lugares frequentados por ela.

O governo deverá definir ainda se a medida será aplicada a todos os autores submetidos a ordens de restrição ou apenas aos casos considerados de maior risco.

Em 2025, a polícia japonesa emitiu 3.037 ordens de proibição relacionadas a casos de perseguição, o maior número desde a entrada em vigor da atual Lei de Regulamentação de Stalkers, em 2000. O total representou um aumento de 25,8% em comparação com o ano anterior.

A possível revisão da legislação poderá incluir também a participação obrigatória dos perseguidores em programas de acompanhamento psicológico ou tratamento especializado. Atualmente, a polícia pode encaminhá-los a instituições de aconselhamento e saúde, mas a adesão depende, em princípio, da concordância do próprio autor. Em 2025, 233 pessoas iniciaram algum tipo de aconselhamento ou tratamento após a intervenção policial.

A discussão ganhou força depois que uma funcionária de 21 anos foi morta a facadas pelo ex-companheiro em seu local de trabalho, no distrito de Ikebukuro, em Tóquio, em março deste ano. O homem já havia sido detido por perseguir a jovem e estava submetido a uma ordem de proibição de aproximação emitida em janeiro.

A legislação japonesa já prevê punição para quem persegue, espera, vigia, telefona repetidamente, envia mensagens insistentes ou tenta obter a localização de outra pessoa sem consentimento. Quem pratica stalking pode ser condenado a até um ano de prisão ou multado em até ¥ 1 milhão. A violação de uma ordem de proibição pode resultar em pena de até dois anos de prisão ou multa de até ¥ 2 milhões.

Em dezembro de 2025, uma nova revisão da lei passou a proibir expressamente o uso indevido de dispositivos como AirTags e outros localizadores para acompanhar os movimentos das vítimas. A mudança também permitiu que a polícia emitisse advertências por iniciativa própria e ampliou a participação de empresas e escolas na proteção das pessoas perseguidas.

Como funciona em outros países

Espanha

A Espanha mantém desde 2009 um sistema de monitoramento eletrônico para fiscalizar ordens judiciais de afastamento em casos de violência praticada por parceiros ou ex-parceiros. O agressor usa um dispositivo de localização, enquanto a vítima recebe outro aparelho. O sistema detecta quando o agressor entra nas áreas de exclusão estabelecidas pela Justiça e envia alertas para a central de monitoramento, para as autoridades e para a vítima.

Além de aumentar a segurança, os registros podem servir como prova de eventual descumprimento da ordem judicial. O governo espanhol afirma que o sistema também tem função preventiva e procura desestimular o agressor a se aproximar da vítima.

Brasil

No Brasil, a Lei nº 15.125, sancionada em abril de 2025, alterou a Lei Maria da Penha e autorizou os juízes a determinar o uso de tornozeleira eletrônica por agressores submetidos a medidas protetivas de urgência.

A vítima também pode receber um dispositivo de segurança capaz de emitir alertas quando o agressor se aproxima. A medida é destinada principalmente a casos de violência doméstica e familiar contra a mulher.

Portugal

Portugal utiliza vigilância eletrônica para fiscalizar medidas judiciais de afastamento em casos de violência doméstica. O país também mantém um serviço gratuito de teleassistência que funciona 24 horas por dia e permite que vítimas acionem rapidamente uma central de atendimento em situações de perigo ou crise.

Reino Unido

O Reino Unido já utiliza tornozeleiras com GPS para acompanhar a localização de determinados condenados ou investigados e verificar se respeitam áreas de exclusão.

O governo britânico anunciou ainda um projeto específico de monitoramento por proximidade para casos de violência doméstica e perseguição. A tecnologia deverá emitir alertas quando o agressor se aproximar da vítima.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, as regras variam conforme o estado e a decisão de cada tribunal. Em algumas jurisdições, acusados ou condenados por violência doméstica e stalking podem ser submetidos ao monitoramento eletrônico como condição para responder ao processo em liberdade, cumprir liberdade condicional ou obedecer a uma ordem de proteção.

Diferentemente da Espanha, não existe um único sistema nacional destinado especificamente ao rastreamento de perseguidores. A maioria desses casos é administrada pelas autoridades estaduais e locais.

Limitações do sistema

Embora o monitoramento eletrônico possa dar à vítima mais tempo para buscar proteção e permita uma resposta policial mais rápida, o dispositivo não impede fisicamente uma agressão.

Para funcionar, o sistema precisa contar com acompanhamento permanente, áreas de exclusão bem definidas, resposta rápida das autoridades e mecanismos que detectem tentativas de retirar, danificar ou desligar o equipamento.

Também será necessário estabelecer critérios jurídicos rigorosos para definir quem deverá usar o dispositivo, por quanto tempo os dados serão armazenados e quais autoridades terão acesso às informações de localização.

Foto: Reprodução

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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