Japão aposta em energia solar captada no espaço para gerar eletricidade na Terra

2025/10/20 07:03
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Tóquio – O Japão planeja lançar ainda este ano um satélite de 180 quilos em órbita da Terra para transmitir 1 kW de energia a uma antena terrestre. Se a geração for bem-sucedida, mesmo que em pequena escala, o país pretende criar uma estrutura para captar uma quantidade maior de energia solar diretamente do espaço. O projeto foi batizado de "Ohisama", que significa “sol” em japonês.

A ideia é simples, embora complexa na execução. Em vez de usar painéis solares instalados em telhados ou fazendas solares terrestres, os cientistas planejam enviá-los ao espaço em satélites. Esses painéis captarão luz solar ininterruptamente e converterão a energia em micro-ondas ou lasers, que serão transmitidos para estações receptoras na superfície terrestre, onde serão transformadas em eletricidade, segundo o Nikkei Asia e a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA).

O plano prevê o uso de 13 receptores distribuídos em uma área de 600 metros quadrados na cidade de Suwa, em Nagano, para captar as micro-ondas enviadas pelos painéis solares. Caso os resultados sejam satisfatórios, o governo japonês lançará satélites solares maiores para ampliar a transmissão de energia.

Um estudo recente indica que painéis solares em órbita terrestre poderiam reduzir em até 80% a demanda europeia por energia renovável até 2050. A pesquisa, conduzida pelo King’s College London, analisa um sistema que utiliza refletores semelhantes a espelhos para concentrar a luz solar no espaço e transmiti-la à Terra, onde seria convertida em eletricidade. Dessa forma, os países europeus poderiam substituir grande parte de suas fontes energéticas tradicionais.

Apesar do potencial, o projeto enfrenta desafios como o congestionamento orbital — causado por satélites e destroços de foguetes —, possíveis interrupções na transmissão e custos elevados.

O governo japonês está disposto a apoiar o envio de painéis solares gigantes de 2 km² ao espaço, capazes de gerar eletricidade de forma contínua, independentemente das condições climáticas. Estima-se que os satélites possam produzir de cinco a dez vezes mais energia que os painéis solares terrestres e alcancem uma potência de 1 milhão de kW, equivalente à de uma usina nuclear. As micro-ondas usadas no sistema também podem atravessar nuvens e chuva, garantindo o fornecimento constante.

A proposta, contudo, não é nova. Pesquisadores estudam a energia solar espacial desde a década de 1960, mas a tecnologia não era avançada nem economicamente viável até recentemente. O Japão, que tem sido líder nesse campo há anos, vê agora o avanço da transmissão sem fio e do design de satélites como o início de uma nova etapa.

Plano de governo e avanços tecnológicos

Para evitar a queda de geração durante a noite nos paineis solares tradicionais, em dias nublados ou quando estão sujos, o Japão se destaca no desenvolvimento de energia solar baseada no espaço (SBSP) e de células solares flexíveis.

De acordo com o site oficial do governo japonês, a Universidade de Kyoto lidera a pesquisa em transmissão de energia sem fio via micro-ondas, elemento central da tecnologia SBSP. Em 1990, o professor Naoki Shinohara, da instituição, foi inspirado por seu mentor Hiroshi Matsumoto, que afirmou: “A SBSP é uma tecnologia que permitirá à humanidade sobreviver pelos próximos 10 mil anos.”

O Japão vem realizando experimentos espaciais nessa área e já domina o desenvolvimento de satélites capazes de aumentar a eficiência da geração e da transmissão de energia do espaço para o solo.

Segundo Shinohara, o país planeja conduzir até o fim do ano fiscal de 2025 — que termina em março — um experimento de transmissão de energia do espaço para a Terra. O Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) realizou um teste semelhante no início do ano, mas o Japão aposta no desenvolvimento de tecnologia de controle de feixes, que permite enviar micro-ondas com alta precisão de um satélite em órbita rápida para uma antena receptora terrestre. A meta é tornar a tecnologia viável até meados deste século.

Células solares flexíveis de perovskita

Os painéis solares se espalharam rapidamente pelo Japão após o desastre nuclear de 2011, desencadeado por um terremoto e tsunami devastadores, respondendo por quase 10% da geração de energia do país no ano fiscal até abril de 2024. Mas, há um espaço limitado no Japão para abrigar grandes paineis de células solares convencionais à base de silício.

Como as células solares de perovskita (PSCs) são leves e resistentes a flexões ou distorções, elas podem ser instaladas em paredes de edifícios, janelas e tetos de carros, entre outros locais. Essas células, em formato de filme, além de leves, são flexíveis e até 100 vezes mais finas que uma célula solar de silício convencional. Elas prometem maior eficiência de produção em comparação às células solares tradicionais.

Foto: Reprodução
À esquerda: concepcão de uma fonte de energia solar emitida a partir do espaço; à direita: instalação com parede contendo célula solar de perovskita

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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